segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Minha discípula.



A Importância do legado


Na semana das crianças, venho aqui falar daquela que me é mais especial. 

Lembro-me de quando gostava de ser filho único. Melhor sensação impossível. pra que querer um irmão ou uma irmã? Ter tudo pra si era a melhor coisa do mundo. Mas foi minha mãe quem me fez ver o quanto eu precisaria de uma irmã(o). É, naqueles papos melosos do tipo "quando eu e seu pai morrermos, você ficará sozinho no mundo", por aí. Mas de alguma forma me senti impactado por aquilo. E não muito tempo depois recebi a notícia de que ganharia uma irmãzinha.

Hoje ela tem 6 anos. Eu a chamo de "Aninha" ou de "meu amor". É o xodó da casa... e uma figurinha bastante diferente do seu irmão mais velho. Pense em alguém oposto a mim em tudo. Tipo a minha ex. Óbvio que por nos contrapormos de tal forma entramos em conflito muitas vezes, e eu não vou negar que gosto de provocá-la também. Mas que tipo de irmão seria se não fizesse isso? Mas enfim, não é a isso que quero me ater neste post.

É que diante de uma cultura que valoriza tanto a precocidade das crianças, quero mostrar o outro lado que deve ser valorizado. Aninha é uma garota super especial e inteligente. A criatividade dessa menina não tem limites, ela tem uma imaginação super fértil. É um bocado bagunceira, convenhamos: o quarto dela parece mais o quarto de um adolescente do que o meu. Papéis por todos os lados, brinquedos espalhados... essas coisas. Entretanto, é um "pequeno" preço a se pagar por tanta inteligência. E, assim como eu, ela começou a ler muito cedo.

Foi por isso que leguei a ela minhas revistinhas da Turma da Mônica. Todo o meu precioso tesouro, acumulado durante dez anos. E isso definitivamente impulsionou o gosto dela pela leitura (mesmo ao custo de rasgar as capas dos gibis devido aos seus "excelentes cuidados", mas enfim). Apenas pra constar, ela recentemente recebeu do meu tio Welton 20 reais. E quer gastar comprando livros da Eva Furnari!

Então, é muito orgulho ver que ela está galgando os mesmos passos que eu no mundo da leitura. Me bate uma alegria tremenda quando ela chega e me diz que quer ser escritora. Tudo o que eu posso dizer é: "você tem potencial pra ser muita coisa, meu amor". E isso é verdade, a mais pura verdade. Confio de que Aninha será mais inteligente do que eu, mais sociável, mais alta. É alguém que me ensina diariamente com gestos de altruísmo que envergonham meu caráter egoísta, ou suas demonstrações de afeto que constrangem minha frieza.

Eu realmente não saberia viver sem ela em minha vida.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Coisas que aprendi ao longo dessa semana.

Esta foi uma semana de certas lições pra mim. Uma semana onde algumas feridas foram tocadas e algumas verdades foram ditas. Há esses momentos em nossa vida em que nos é dada a chance de mudar, e cabe a nós seguir em frente neste caminho controverso em que temos andado ou fazer uma conversão, como meu amado mestre Zica dizia. Uma "Metanoia", uma mudança de mente.

Vem sendo assim desde terça. Desde algumas conversas que tive, algumas exposições de minhas hipocrisias. Desde o programa d'A Liga sobre evangelismo que me deixou tão comovido e embaraçado ao mesmo tempo. Seguiu na quarta, com um alerta sobre meu linguajar. Continuou ontem, com uma auto-reflexão sobre attwhorismo. Prossegue hoje, com minha falta de tato e atenção para com as pessoas próximas a mim. Pode continuar amanhã, com uma nova lição. E por aí vai.

Quando você se acha bom, é porque está longe de ser bom o bastante.

Ah, essa persona minha, esse ser tão falho, tão cheio de desejos concupiscentes, tão frio, tão sem iniciativa... minha lista de defeitos é imensa. Por que vir aqui e pagar de coitadinho, né? Já dizia o velho sábio: "ema, ema, ema, cada um com seus probrema...". Acontece que muitas vezes pra você tomar uma iniciativa e mudar alguma atitude encarada como negativa é preciso um estímulo externo, uma admoestação de outra pessoa.

Vou citar aqui o caso do linguajar. Como um cristão, eu estava realmente deixando a desejar no modo como falava. Entretanto a abordagem feita pelo indivíduo em questão foi significativamente diferente das outras feitas. Todas as outras eram recriminatórias, julgadoras, acusadoras. Esta foi... um conselho. E impactou-me de uma forma que as outras não fizeram. Lembra o que eu disse em meu post "As coisas mais difíceis de serem ditas..."? Não? Eu disse "(...)como todos nós precisamos saber como dizer, e não o que dizer...". Essa abordagem, esta admoestação, eu sinto como se fosse algo divino mesmo. Se você não acredita nisso, tudo bem. Basta encarar a situação como algo "necessário" à minha pessoa.

Eu espero que essas lições aprendidas nessa semana não se percam na memória e eu volte a ser aquele indivíduo de moralidade tão questionável. Claro, não é como se isso sumisse num passe de mágica da minha vida. São processos, que podem ou não ser revertidos de forma gradual. Mas é claro que "deixar" acontecer não levará a nada. Se eu quiser tornar essa metanoia crível preciso fazer um grande esforço, um esforço que implica mudanças em minha vida e na de outros, também. É abdicar de certos prazeres em prol de uma verdade de significado maior. É ser aquilo que estou destinado a ser quando assumi o compromisso de ser cristão.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Deus em todos os lugares.





Muito bacana essa reportagem d'A Liga sobre os trabalhos de evangelismo em lugares considerados perigosos e de risco.

Bacana porque, em tempos em que a mídia se esforça tanto no sentido de espalhar uma visão negativa do Evangelho, um programa secular que mostra o outro lado da moeda é realmente algo espantoso. Para muitos seria espantoso saber que não existem apenas pastores ladrões: que existem homens e mulheres que assumem o compromisso da Palavra em levá-la àqueles que tanto necessitam, e oferecem não só ajuda espiritual, como ajuda física e psicológica.

Assistir essa reportagem me impactou mais do que eu poderia imaginar. Isso me leva a refletir sobre os rumos que o Evangelho, e me faz ver que ainda há gente cumprindo eficazmente o "ide" ordenado por Cristo por aí. Me faz ter vergonha de mim mesmo, porque quais vidas tenho impactado quando sou tão falho e hipócrita?

Ela também revela o preconceito no qual a Igreja está tão inserida. Como o pastor Babão falou na reportagem, se ele pegasse 10 viciados da Crackolândia e os levasse a algumas igrejas, jamais os deixariam entrar. Ah, é tão fácil pregarmos o amor ao próximo, não é? Quero ver é saber por esse amor em prática. Dá-lo a quem é julgado indigno pela nossa sociedade, a quem foi excluído, a quem está destruindo sua própria vida. O próprio Jesus nos incita a amar nossos inimigos. Estas pessoas alvos dos trabalhos mostrados na reportagem não são nossos inimigos, mas carecem de amor tanto quanto qualquer um, mais até.  

Mais do que tudo, serve até como um tapa na cara de muita gente. Então esse vídeo é pra você que faz piada de crentelho ou diz que crente não presta. Pra você que acha que ir  à igreja nos domingos é o suficiente pra sua vida cristã. Enquanto você tá aí na sua vida acomodada tem pastor indo até drogados e prostitutas e missionárias indo até presidiários pra dar a eles o que a sociedade se recusa a dar: uma nova chance, uma mudança de vida.

No fim, este é um alerta para a Igreja e para a sociedade em geral. A salvação é disponível para todos.

"I did it for me." pt.2 - O homem, o monstro, o pai, o perigo.

[Atenção: tem spoilers de toda a série. Você foi avisado(a)]

Ainda no espírito do final de Breaking Bad no último domingo, eu venho aqui falar do protagonista dessa fantástica série, um dos personagens mais mitosos - senão o mais - já criados na tevê: Walter White, aka Heisenberg.

Interpretado magistralmente por Bryan Cranston, Walt começa a série como um pai de família bom e dedicado, mas refém de amarguras e vítima do terrível sistema de saúde americano, após descobrir ter câncer. Mas ao longo da série o que vemos é a gradativa desconstrução de sua personalidade afável, culminando num outro lado seu, sinistro, perigoso, mortal. 

Como alguém brilhantemente: "Walter White não é um monstro. Heisenberg é."


"I did it for me. I liked it. I was good at it. And, I was really... I was alive."


O que torna Walter Hartwell White tão especial? Em alguns momentos ele soa tão amoral e maldito, em outros tão paterno e amoroso... ele possui tantas facetas. Mas eu o veria como um homem de escolhas, e suas escolhas o vão moldando ao longo da série. Como um "inocente" professor de química se torna o criminoso mais lendário de toda uma região? Por causa das escolhas que faz e os limites que busca quebrar.

Ao longo da série o vemos usar a família como justificativa para seus atos. Mas tantas e tantas vezes fica claro que isso deixou de ser o motivo para ser uma mentira. No fim das contas fica claro que Walt faz isso por ele mesmo. E é isso que ele finalmente assume para sua esposa Skyler em "Felina". Uma vez que ele deixou de ser milionário, de ter uma vida de sucesso após sair da Grey Matter, a empresa que fundou com seus amigos Elliott e Gretchen Schwartz - algo pelo qual lamenta por toda a sua vida, que o corrói intensamente por dentro -, Walt encontra na produção de metanfetamina, na persona de Heisenberg, o reconhecimento que sempre quis ter. Eu vou apenas parafrasear meu caro companheiro Murilo, que fez uma maravilhosa análise sobre o personagem: 

"Breaking Bad foi sobre o orgulho se transpondo à consciência, a ambição se transpondo aos valores. Sobre um homem que resolveu cruzar a linha de fogo do socialmente aceito, para proteger aquilo que considerava seu bem mais precioso. Um homem que encarou a si mesmo diante de um abismo de frustrações. No entanto, o monstro escapou de seu controle: de um tumor no pulmão, nascia Heisenberg, explodindo um escritório de um grande traficante. O nome tem poder e emana força. Walter White se perdeu em sua própria tempestade."

"O dinheiro pouco importa, o que importa é o poder. E a família. E o poder. E a família. Alternados como sombra e luz, no mesmo espírito do mesmo homem. A família é tudo. O poder é tudo. Breaking Bad, no fim das contas, foi sobre apenas uma coisa: humanidade. Em seu sentido pleno de bem e mal."

(Acredito Murilo que minhas palavras não podem expressar de forma competente o mesmo que as suas expressaram. Por isso deixo aqui mais uma vez meus parabéns pra você)

Breaking Bad é sobre humanidade, mas não sobre dualismo, exatamente. Walter White não é exatamente o bem; Heisenberg pode ser talvez o mal, em sua essência. E no fim das contas, bem e mal são tão claros assim, humanamente falando?


"Say my Name"


Na primeira vez em que Walt se anuncia como Heisenberg ele já toma uma atitude impressionante, explodindo o escritório de Tuco Salamanca. Entretanto, este vírus que infecta e toma posse dele só se manifesta em sua forma completa na 5ª temporada. O que era apenas uma máscara de negócios evolui para algo mais complexo. Heisenberg é tudo o que Walt não foi: ousado, imprevisível, ambicioso, truculento. É a forma máxima, o espelho invertido de um homem que por tantas coisas se lamenta. Heisenberg não tem nada a perder, nada a temer; os outros o temem, perdem por causa dele.

É difícil definir o momento exato em que o alter-ego do protagonista começa a se sobrepor a ele, mas se formos levar em conta seus atos questionáveis o primeiro é assistir Jane morrer e não fazer nada. Creio que a 2ª temporada, por mais lenta e criticada que seja, sirva para mostrar exatamente a gradual diminuição da persona de Walt em favor do crescimento de seu alter-ego megalomaníaco e extremamente ambicioso. Este processo gradual termina em um clímax de duas etapas distintas mas inter-conectadas: a morte de Jane, a qual ele deixa acontecer, e o subsequente desequilíbrio do pai dela e o acidente que ele provoca.

Na 3ª e 4ª temporada Heisenberg almeja ainda mais a grandeza, mas é subserviente a Gustavo Fring, o criminoso metódico e cauteloso (e meu personagem preferido da série) que distribui sua droga tão pura. Matá-lo dá o trono que ele tanto quis. Este trono não era sua intenção quando decidiu fabricar metanfetamina, mas torna-se exatamente o seu objetivo, mascarado sob o discurso de "tudo o que eu fiz foi pela minha família". Mas seu reinado é breve: se Química é o estudo da mudança, e o ciclo da matéria é o do próprio personagem, então após o crescimento vem a decomposição. Até "Ozymandias", é isso que vemos: a queda de Walt, e o efeito dela nas pessoas que ama.


"Oh, if I had just lived right up to that moment... and not one second more. That would have been perfect."


Em seu dramático esforço para suprir o necessário a sua família após sua morte, Walter acaba, numa trágica ironia do destino, perdendo a própria família. A partir do momento em que começa a fabricar metanfetamina sua vida passa a ser alicerçada em mentiras, e em mentiras sobre mentiras. O homem que tudo faz pela família, acaba a negligenciando. 

Isso revela consequências desastrosas, como Walt Jr. se torna mais confuso e revoltado e Skyler encontra (ainda que brevemente) conforto nos braços do chefe. Enquanto isso seu próprio cunhado persegue obstinadamente este alter-ego maligno, numa caçada que traz a perda de sua própria vida. A ambição de um único homem traz para baixo tudo aquilo pelo qual ele mais preza. 

Lembram que eu falei que a família era uma desculpa dele para justificar sua sede de poder? Encarem como uma meia-verdade. No fim das contas ele sempre amou sua família, mas a que ponto chegou por ela, e existiu um limite tênue entre seu amor por ela e seu amor próprio? Como Gus lhe diz, tudo o que um homem faz por sua família é uma coisa boa. Claro, isto alivia e muito a consciência de qualquer um. 

Mas no fim Walt percebeu que as coisas não eram assim. Ele não podia morrer sem legar aos filhos e a Skyler tudo pelo que lutou, matou e desejou tanto. E no fim, numa demonstração clara de amor, renunciou ao seu orgulho para que sua família pensasse que o dinheiro que deixara para eles fosse na verdade de Elliott e Gretchen. A última cena que se tem da família dele é a chegada de Walt Jr, da escola, enquanto seu pai o vê ao longe. Ele sabe que não pode mais tê-los, mas já fez tudo por eles. 


"I'm the danger(...). I am the one who knocks."


E assim, aquele que deveria proteger se torna a ameaça. Como Skyler diz: "I have to protect this family from the man who protect his family". Cada vez mais as ações de Walt refletem em consequências trágicas, a começar pela tragédia de avião ao fim da segunda temporada. Ser um criminoso faz com que tantos e tantos morram, e nenhuma destas mortes o aflige mais do que a de seu próprio cunhado., numa das cenas mais dramáticas da série, ou talvez a mais. No mesmo episódio vemos Walt atacar sua própria família. E não muito depois ele faz uma ligação para Skyler que praticamente a inocenta de qualquer envolvimento com suas atividades criminosas, mesmo que ele a tivesse "sugado" para seu perverso mundo de sangue, metanfetamina e lágrimas. 

Walt não apenas destrói a si mesmo como destrói aos outros à sua volta. Nada exemplifica isso tão bem quanto o próprio Jesse, que tem sua vida mudada para pior depois de iniciar suas atividades com o professor. A lista de conflitos entre os dois é incontável, mas mesmo assim ao final há perdão, liberdade. E é legal ver como em alguns episódios da série essa relação professor-aluno/pai-filho é belamente explorada, como em "4 Days Out" e em "Fly", este que é um de meus favoritos. Às vezes cômica, às vezes trágica, mas sempre intensa, ela desanda e muito ao final da série, mas no fim Walt aproveita sua inevitável morte para se sacrificar em prol da liberdade de seu protegido, que certamente via nele muito de um pai, assim como ele viu muito de um filho em Jesse. É certamente a mais complexa e de longe a mais bonita (apesar dos reveses) relação da saga.

Se por um lado Jesse tem sua chance de salvação, o mesmo não se pode dizer de tantos outros. Gale é morto por ser um provável substituto para Walt, Mike morre (em paz) por se recusar a dar os nomes dos seus parceiros que podiam ser delatores em potencial, estes parceiros são assassinados nas cadeias para que em hipótese nenhuma revelem a identidade de Heisenberg dois traficantes são brutalmente atropelados para a vida de Jesse ser salva, Gus morre por ser o seu nêmesis e ameaçar sua família, os nazistas são mortos pelo que houve a Hank e Steve, embora as mortes destes tenham sido causadas por Walt da mesma forma - e vários outros. 

Este personagem trágico está condenado ao inferno, mas leva muitos outros consigo.


Conclusão e pensamentos finais

Enfim, creio que tudo o que eu disse ainda não é o suficiente para dar uma ideia completa de quem Walt é (e reforço que Murilo foi mais eficaz nesse sentido do que eu). Mas o legado deste homem é imprescindível a tevê. Eu não sei dizer se haverá outro personagem como Walter White na televisão. Eu não sei dizer se haverá outra série como Breaking Bad neste universo.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

"I did it for me." pt.1 - Por que esta série funcionou tão bem.

[Atenção: tem spoilers de toda a série. Você foi avisado(a)]

A televisão e milhões de fãs estão órfãos após o término de uma das mais cultuadas e aclamadas séries de todos os tempos ontem. Encerrando uma trajetória de cinco anos, Breaking Bad incontestavelmente entra pro rol das melhores produções já feitas pra tevê em todos os tempos. Única em inúmeros sentidos, a série é um primor de roteiro, atuação, direção e outros fatores, e um só post não seria suficiente para descrever o seu brilhantismo. Acima de tudo, é a principal expoente do brilhantismo da tevê norte-americana, ao passo que o cinema carece de ideias originais.

Uma única história

Não são poucos os seriados que sofrem de uma queda abrupta de qualidade quando continuam para além do fim que deveriam ter (cof cof Supernatural cof cof). Porém Breaking Bad não caiu nesse erro, o que é um de seus méritos. Ainda que seu criador, o genial Vince Gilligan (cujo brilhantismo não posso medir em suas palavras) não tivesse concebido o final dela originalmente, esta é uma série com um claro início, meio e fim. Fluindo de uma forma orgânica ela encontrou nesse aspecto um de seus maiores méritos. 

Essa sua qualidade era notória nas seasons finales: ao passo em que em outras séries vemos o último episódio de uma temporada como sendo o encerramento de um ciclo que esta última representa, nela vemos um episódio como tanto outro, que mesmo oferecendo um artifício climático nunca era em demasia, tampouco grandiloquente demais como é de costume em seasons finales. Ao mesmo tempo nos fornecia o gancho pra próxima temporada, de modo a manter este fluxo ao qual me refiro. Tratava-se de uma história única, do primeiro ao sexagésimo segundo episódio.

Vince Gilligan, MacGuffins e significados

Acredito que há duas forças motoras por trás deste seriado: seu roteiro impecável e as atuações. Primeiro vou falar esta história concebida pelo Sr. Gilligan. Desde o início, com sua sinopse, sabemos que esta não vai ser uma série comum. Como o Érico Borgo do Omelete, a princípio muitos deviam imaginar o seriado como uma versão mais séria de Weeds, mas o tempo veio a mostrar seu verdadeiro valor. Há tantos elementos deliciosamente aproveitados ao longo das temporadas que é impossível não se espantar com a genialidade de Vince. O ursinho rosa da segunda temporada que é evocado ao final da quarta (numa cena bastante Duas Caras-esca), bem como o modo como que Walt indireta provoca o acidente de avião da segunda temporada. 

Vejo Gilligan como um fã de MacGuffins. Pra quem não sabe, "MacGuffin" é um termo cunhado por Hitchcock pra descrever um objeto ou um elemento que serve de mote pra história, seja de um filme ou de um livro ou, neste caso, de uma série. Um exemplo: o "Rosebud" de Cidadão Kane, a maleta de "Ronin". Este termo ganha diversas formas em Breaking Bad: pode ser a própria metanfetamina que o protagonista Walter White fabrica, ou o chapéu que ele usa quando assume a persona de Heisenberg, o ursinho rosa acima citado, o símbolo dos Pollos Hermanos, o livro de Walt Whitman... elementos carregados de uma simbologia ímpar, que refletem a própria temática da série e a natureza dos personagens e de suas ações.

Também vejo o nome dos episódios como sendo de bastante modo especiais. O da series finale, "Felina", é um anagrama pra "Finale", fim em latim (e confesso que me sinto burro por só ter percebido isso ontem). Mas também é Fe (ferro, o elemento predominante no sangue) + Li (lítio, usado pra fabricação de metanfetamina) + Na (sódio, presente nas lágrimas). Assim, refere-se a três elementos do episódio de ontem: sangue, metanfetamina e lágrimas. Mindfuck. Coisa de gênio. E é apenas um exemplo de como títulos simples como "Fly" ou "One Minute" podem resumir um episódio inteiro.

"Chemistry is the study of transformation..."

A escolha da química como a matéria que Walt leciona se revela bastante pertinente, uma vez que a própria matéria pode ser vista como um MacGuffin. Basta ver o que ele fala da disciplina no primeiro episódio da série:

"Química é o estudo da matéria, mas eu prefiro ver como o estudo da mudança. Pensem sobre isso: elétrons, eles mudam seus níveis de energia. Moléculas mudam suas ligações. Elementos, eles combinam e mudam seus componentes. Bom, isso é tudo da vida, certo? É uma constante, é um ciclo... é solução e dissolução, e de novo e de novo. É crescimento, depois decomposição e então transformação."



E como os caras do supernovo.net brilhantemente apontaram (http://supernovo.net/tv/8-coisas-para-lembrar-antes-do-final-de-breaking-bad/6/), este ciclo da química, da vida, é o ciclo de Walt - duas vezes. Falarei da persona dele no meu próximo post.

Conclusão e pensamos finais

Este foi um post dedicado a série em si, mas minhas palavras não são mensuráveis ao gigantismo e ao legado dela. Talvez eu possa ser apenas mais um de tantos que se tratarão a dedicar análises ao que Breaking Bad representou à mídia e o que a torna tão soberba, mas eu já estava interessado em fazer minha própria resenha quando ela acabasse há um bom tempo. Espero ter deixado minhas impressões de forma satisfatória, e no próximo post dissertarei acerca de Walter White. Ou seria Heisenberg?

domingo, 29 de setembro de 2013

Contagem regressiva.

Falta menos de um mês pra eu ir embora pra Aracaju. Dia 21/10, minhas aulas começarão na UFS, e eu já estarei instalado lá. Depois de 11 meses de férias prolongadas, do maior tempo de ócio que já tive ou terei em minha vida, finalmente abandonarei isso tudo pra voltar a estudar.

Eu não estou ansioso, acredite. Mas de alguma forma, me sinto perdido. Quanto mais perto está o fim dessas férias, mais eu presto atenção aos laços que formei aqui em Itapetinga. Às impressões que deixei ou estou deixando nas outras pessoas. Quando alguém diz "Não vá embora, Vini", por mais que ria e ache engraçado, no fundo é um pouco doloroso. E é divertido ver alguém dizendo "Vá embora, Chup! Não aguento mais ver sua cara, velho", porque no fundo eu desejo ir embora. Mas a contradição em mim se expressa quando ao mesmo tempo desejo não ir embora, não romper estes laços.

Sobre todos os aspectos, este foi um ano único em minha vida, um ano que não se repetirá. Graças ao blog, tenho não só "expurgado meu coração partido" como tomado mais e mais coragem de levar meus conceitos de vida e opiniões adiante, perdendo gradualmente a excessiva preocupação com o que as pessoas venham a pensar de mim. Isso significa a consolidação da minha fé, a qual tem buscado tornar menos legalista e cada vez mais empírica, um modelo de vida para outras pessoas. Em tese, tenho de ser exemplo se quiser a expansão da minha fé.

É um desafio levar a minha mentalidade a um lugar como a universidade, que é tida por alguns como expressão máxima da vida desenfreada e desregrada da juventude? É. Na verdade, um dos maiores medos é desviar de meu modelo de vida, no sentido da fé, da religião que sigo. Como ser quem sou em meio às festas, à bebedeira, a tudo aquilo? Terei um grande fardo pela frente.

Será uma vida muito diferente, esta minha em Aracaju. Como lidar com um mundo de responsabilidades e maturidade, quando tenho sido preguiçoso e acomodado ao longo de toda a minha vida? Falta de iniciativa nunca foi meu forte. Existe esse dualismo presente em minha pessoa: há um menino dentro de mim, imaturo, ingênuo, insaciável e um bocado egoísta; e um adulto, manifestado em uma sabedoria às vezes além da idade, no ar culto, na formalidade, nos conselhos dados. Uma hora alimento mais um lado, outra hora alimento mais o outro. Como viver em constante harmonia com eles quando tenho de crescer, se tornar um homem feito?

Mais uma vez recorro à frase de Fernando Pessoa: "Eu não sei o que o amanhã trará". Não tenho medo do começo das aulas, da vida na universidade. Tenho medo de falhar em minhas responsabilidades, nesse processo de crescer e amadurecer. Eu mentiria se dissesse que estou preparado, que sei de tudo, sei me virar. Não, não sei. Os anos de sedentarismo e acomodação revelarão seu peso lá em Aracaju. 

É crescer às duras penas ou falhar no processo. Queira Deus que seja a primeira opção.


sábado, 28 de setembro de 2013

Diminuído.

Estão zoando você, meu amor. Estão zombando do nosso relacionamento, porque foi virtual, porque tecnicamente pra existir tinha de ter havido um prévio contato físico, pelo menos.  Fazem piadinhas com seu apelido, printam nossos comentários, irritam-me de propósito, porque sabem que eu não gosto disso. Não respeitam a mim e a você, ao que tivemos, que embora tenha acabado deixou um legado e poderosos ensinamentos. 

O que eles entendem de mim? O que sabem sobre o que senti? Será que fui bem-sucedido em dizê-los que amei você mais do que amei qualquer outra menina em toda a minha vida, que mesmo separados por uma distância como esta entre Itapetinga e o Rio o que senti por você foi genuíno, real? Talvez não tenha lhes dado essa noção completa. Então parte do erro é meu, mas isso não minimiza a idiotice deles.

Por Deus, queria saber o que os motiva a me zoarem tanto. Será minha passividade, meu espírito de não-reação? Por que tem sido assim desde que era pequeno, desde o maternal, inclusive. Quer dizer, não sei se estas memórias que tenho daquele tempo são reais ou mera invenção da minha cabeça, mas de qualquer forma não são nada agradáveis. E ainda me chamam de chorão. Eu nunca derramei uma lágrima pelo que fizeram comigo. Nunca.

O problema é como me sinto diminuído perto dos meus próprios amigos. A amizade tem dessas coisas, mas eu sou do tipo que tende a supervalorizar o que fazem ou dizem de mal comigo. O que deveria ser uma brincadeira revela sequelas mais sérias. Eu sei que eu devia ignorar as idiotices deles, ligar meu "foda-se", mas simplesmente não consigo. Me importo. Faz parte deste meu espírito melancólico fleumático se importar com as opiniões negativas, mesmo que elas não sejam verdadeiras, muito mais do que com as positivas. Tenho dado atenção a isso desde sempre, e se fosse capaz de ignorá-las... ah, como minha auto-estima seria melhor. Mas não é. Ela é baixa, e ainda que vários zombem, façam piadinhas de mim, o único culpado por essa baixeza dela continua a ser eu mesmo.

Temo ser assim pelo resto da vida. O que preciso fazer? Cortar laços com meus próprios amigos pra não ser mais alvo das zombarias deles? Não acho que esse é o caminho. No fim, a mudança a ser feita é uma mudança interior, que preciso fazer em mim mesmo.

Mas de qualquer forma eu não permitirei que diminuam o que eu tive contigo, o que senti por você. Eu não sei dizer se este sentimento está morrendo, definhando dentro de mim, mas ainda que isso vem a acontecer eu me importarei sim com as resenhas deles. Nós acabamos, mas você continua a ser especial pra mim. Eu tirei lições valiosas de nosso curto e virtual relacionamento. Dizem que precisávamos desse prévio contato físico, do contrário nosso relacionamento não seria válido. Bom, aqui estamos nós pra provar que estão errados sobre isso. O legado dele não será maculado por meus amigos, quer eles respeitem isso ou não. Eu não serei permissivo sobre isso.