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quinta-feira, 24 de março de 2016

Herege assumido! (Por Hermes C. Fernandes)




Quer mesmo saber? Sou herege! E digo isso com o peito cheio. Se quiser, pode me mandar pra fogueira agora mesmo. Estou pronto a morrer pela mensagem subversiva de que sou portador. Mesmo porque, não valeria a pena viver por algo pelo qual não me dispusesse a morrer.
Minha heresia?
Discordar do que tem sido feito em nome da ortodoxia.
Meu problema não é com a ortodoxia em si, mas com a práxis dos hipócritas que vivem o avesso do que afirmam crer. Esses me dão ânsia de vômito.
Por isso, resolvi chutar o balde e assumir de vez a postura de herege.*
Eles pregam a divindade de Jesus, porém tratam-no como se fosse um empregadinho. Chamam-no de Senhor, mas exigem que Se lhes submeta, atendendo às suas ordens, determinações e decretos.
Ensinam a divindade do Espírito Santo, mas ridicularizam-no com manifestações bizarras que não temem atribuir a Ele.
Pregam a salvação pela graça, e em seguida exigem que seus seguidores façam sacrifícios complementares para assegurar-lhes a condição de salvos ou garantir-lhes as bênçãos divinas.
Pregam que Jesus está às portas, mas levantam campanhas milionárias para construir catedrais suntuosas ou adquirir aviões, em vez de pregar a esperança de dias melhores e contribuir para amenizar as injustiças sociais.
Ensinam a generosidade só para colocá-la à serviço de sua própria avareza.
Cansei de fundamentalismo barato, intelectualmente preguiçoso, e ideologicamente comprometido com os poderes deste mundo. Cristãos que preferem ladear os poderosos, e desprezar os miseráveis e excluídos. Denunciam a pretensão socialista de que o Estado ocupe o lugar de Deus, mas fazem vista grossa ao Estado Neo-liberal que se presta ao papel de Diabo.
Prefiro a isenção profética! Não quero aliar-me a qualquer que seja a ideologia, pois todas são inequivocadamente imperfeitas. Prefiro ser porta-voz do Reino, a ser defensor de agendas ideológicas. Marx não me basta! Mas não será Olavo de Carvalho que me converterá num reacionário. Não me curvo ao Estado, mas também não me prostro ante o Capital. Ambos são potencialmente ídolos. Ambos exigem lealdade absoluta, coisa que só devo ao império de Cristo.
Livre comércio? Sim. Mas não ao custo da justiça. Justiça social? Sim. Mas não ao custo da liberdade.
Por favor, não me rotulem. Não sou penteca, mas também não morro de amores pelo tradicionalismo mofado que só serve ao orgulho denominacional idiota. Sou reinista! Só devo lealdade ao Rei dos reis!
Crer na contemporaneidade dos dons não me faz carismático nem pentecostal; crer na soberania divina não me faz calvinista; apreciar arte sacra não me faz idólatra, e negar-me a ajoelhar-me ante a uma imagem não me torna iconoclasta. Crer na intervenção divina em atendimento às nossas preces também não me faz um neo-penteca.
Se insistirem em me tachar, prefiro que me chamem de herege. Pelo menos serei identificado com os injustiçados, vítimas dos sistemas opressores que se arrogam detentores da verdade absoluta. Prefiro isso a ser identificado com os que oprimem, e em cujas mãos estão acesas as tochas da intolerância, prontas a atear fogo nos discordantes e rebeldes.
Se reeditarem a santa inquisição, a maioria dos líderes que explora seus rebanhos ficará de fora. E sabe por quê? Porque são todos ortodoxos e dogmáticos. Todos têm em comum a crença no concepção virginal de Cristo, em Sua ressurreição ao terceiro dia, em Sua ascensão**, na Criação em sete dias literais, etc. Nenhum deles pode ser acusado de heresia. Eles até poderiam escapar ilesos das chamas inquisitoriais, mas duvido que escapariam de outra chama!
Prefiro ser torrado nas fogueiras dos meus detratores a ter minha consciência chamuscada pela culpa, e minha alma alvejada pelas chamas do inferno.
Sou herege assumido, e quem não for... que acenda a primeira tocha!
*Heresia, do latim haerĕsis, por sua vez do grego αἵρεσις, "escolha" ou "opção".
** Coisas nas quais também creio.


domingo, 22 de novembro de 2015

Quando penso que já sei de tudo...

O caminhar com o Pai exige, por si mesmo, crescimento. É incoerente viver uma vida que se é nomeada como cristã e que no entanto permanece estagnada, nunca avançando do ponto onde está, sustentada por velhos alicerces de religiosidade e conceitos deturpados da Verdade.

Quando aceitamos a vontade de Deus sobre nossas vidas, é preciso entender algo: o mundo é mais do que as nossas escolhas, e os caminhos que tentamos seguir por nós mesmos muitas vezes levam à morte. Em Jeremias 10.23 está escrito: "Eu sei, ó Senhor, que não cabe ao homem determinar o seu caminho, nem ao que caminha o dirigir os seus passos", e Provérbios 16.9 diz: "Em seu coração o homem planeja o seu caminho, mas o Senhor determina os seus passos". Já em II Samuel 22.31 a palavra é a seguinte: "Este é o Deus cujo caminho é perfeito; a palavra do Senhor é comprovadamente genuína. Ele é escudo para todos os que nele se refugiam". 

Com isso, quero dizer que Deus toma o controle das nossas vidas e que não precisamos fazer mais nada, pois Ele decidirá por nós? Não, pois creio que "esperar é caminhar". O que de fato quero afirmar é que Seu Espírito enche-nos de sabedoria, capacita-nos com discernimento e conhecimento da Tua Verdade, possibilitando que assim possamos entender a Sua boa, perfeita e agradável vontade. E assim, através da obra Dele em nossas vidas, fazemos o nosso caminho.

Só que mesmo assim podemos nos perder nesse caminho. Muitos, depois de anos dentro de igrejas, liderando ministérios, vivendo uma vida aparentemente irrepreensível, julgam estarem mais do que aptos e capacitados, de modo que não precisam mais saber nada da Palavra ou do próprio Pai. Mas se o caminhar com Ele exige crescimento, como podemos esperar que haja um ponto final? Como podemos sequer supor que pelos nossos próprios méritos já atingimos o mais grau elevado de santificação e que não há mais nada para se melhorar, se tratar dentro de nós? Só esse pensamento já demonstra que ainda estamos longe do que se consideraria "ideal" para um cristão. E esse ideal é Cristo. Não há espaço na mensagem do Evangelho para meritocracia. Apenas pela graça (receber o que não merecemos) e pela misericórdia (não receber o que merecemos) do Altíssimo é que temos condições de sermos salvos.

Nesse processo, mesmo entre erros e quedas, a figura e o legado de Cristo, em toda a sua humildade, soberania e poder, permanece como alvo. Apenas Ele foi irrepreensível; quanto a nós, temos cada um que matar nossos leões por dia. Por isso somos convidados à autorreflexão diária; temos de lidar com a dor e a adversidade que quando superadas, também fomentam nosso crescimento; precisamos ser imbuídos pelo Espírito de sabedoria que nos permita reter o que é bom da crítica (tantas vezes necessária) do outro, de cada situação que vivenciamos. Que o caminhar com o Pai nos traga evolução e não involução; mudança e não estagnação.

Quando pensarmos que já sabemos de tudo, é quando precisamos perceber que não sabemos de nada.

domingo, 27 de setembro de 2015

Da ideologia, da contradição e da essência cristã.

"É tão intelectualmente desonesto defendermos uma ideologia que não conhecemos, como atacarmos uma ideologia que nunca examinamos. Estudar é fundamental. Livro na mão e pé na lama da favela produzem os melhores intelectuais. E a melhor teologia!

Falava outro dia no Congresso da Juventude Batista Brasileira, realizado em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, quando um grupo de jovens, ao término da minha mensagem, me procurou. Conversamos longo tempo. Gostei demais deles. Todos demonstravam grande inquietação quanto a serem considerados marxistas pelo simples fato de defenderem certas ideias, que na verdade, em seu modo de ver, representam apenas o que o cristianismo proclama. Eles me pareceram lidar com uma pergunta importante, que poucos ousaram responder: quanto do marxismo uma pessoa precisa acreditar para ser considerada marxista? Lembro-me de Dom Hélder Câmara: "Quando dou comida ao pobre dizem que sou santo, quando pergunto por que algumas pessoas são pobres dizem que sou comunista".

Outro tipo de injustiça também pode ser praticada. Considerar necessariamente inimigo do pobre quem rejeita o marxismo. Há muitos que almejam a economia de mercado, com todo seu estímulo à produção de riqueza e competição criativa, regulada pelos ideais de justiça do cristianismo. Eles não creem na revolução do proletariado, não estimulam a luta de classe, e, contudo, rejeitam a exploração do pobre, o lucro como a medida de todas as coisas e a ganância que esgota os recursos naturais do planeta.

Como o cristianismo não cabe nem nas ideologias de direita, nem nas ideologias de esquerda, gostaria de dizer aos que se sentem injustiçados, vítimas dos ataques mais ácidos de ambos os lados, que não ser compreendido é da natureza da verdadeira sujeição a Cristo. Faz parte da vida cristã ser objeto de contradição. O dia em que o mundo nos compreender há muito teremos deixado de viver como discípulos de Cristo.

O importante, seja você de direita, seja você de esquerda, é ser encontrado do lado do pobre, perto de quem o Senhor Jesus sempre esteve. E quando uma chacina como a de Osasco - que interrompeu a vida de 19 pessoas no dia 13 de agosto deste ano -, acontecer, jamais deixar de protestar. Porque você dificilmente será levado a sério se a defesa mais veemente das suas ideias não vier acompanhada da prática concreta da justiça e da misericórdia.

A ideologia sem obras é morta."

Antônio Carlos Costa

sábado, 16 de maio de 2015

Não vou me apegar a respostas prontas.




Nós, cristãos, perigamos sermos simplistas em nossas respostas. Quando somos confrontados pelo outro a respeito de nossas crenças, opiniões, visões de mundo, corremos o risco de recairmos em legalismos baratos, respostas pré-fabricadas, palavras de outros ditas por nossa boca. E a resposta embasada na Verdade? É suprimida pela visão religiosa, estreita.

Essa música aí em cima, que serve como trilha sonora pra esse texto, também tem servido como uma espécie de "hino" pra minha vida, tanto quanto "Seen and Not Heard" do Petra ("actions speak a little louder than words..."): Na letra, Daniela Araújo - não apenas "a esposa de Leonardo Gonçalves", como uma das melhores e mais completas artistas cristãs da atualidade, na minha humilde opinião - traz a tona justamente esse sentimento que habita em mim: o de sentir que está vivendo uma vida repleta de jargões ~gospels~ vazios e insuficientes, movida por uma religiosidade extremamente supérflua, arrogante e incongruente com a Palavra de Deus e que são invalidadas pelas minhas próprias ações. 

Chega o momento em que precisamos dizer "não dá mais". Não dá pra manter essa vida, achando que isso garante a nossa salvação e a nossa santificação. Do que adianta tantos discursos sobre o que é certo e errado e levar uma vida tão hipócrita e contradizente a esse mesmo discurso? Não é apenas sobre ações. Até porque, não são as obras que salvam (assim como a fé por si só não se garante ou vive, mas obrigatoriamente precisa implicar em uma vida prática em comunhão com o Eterno e que irradia sua Luz). 

É tudo sobre a Verdade. A nós nos é dado o direito de questionar, de se interrogar, de buscar saber. Não em homens - por mais bem instruídos que eles sejam -, mas na Palavra, a qual se completa, não depende de nós e de nossas interpretações convenientes e limitadas.

É tudo sobre o Amor. Porque, de adianta tanto conhecimento? Vomitado inutilmente sobre os demais, maculando a essência do Pai e quem Ele é em nossas vidas? "Do que adianta tanta sabedoria, se eu não tiver Amor"? (Outra frase que eu levo como mote em minha vida).

Então precisamos derrubar estes nossos muros. Nos despir de nossos preconceitos. De nossa idolatria. Do nosso eu. Menos de nós, mais Dele. Parar de apontar o dedo para o cisco do outro, enquanto ignoramos a trave no nosso olho.


Eu não posso mais me esquivar
Tenho as respostas bem na minha frente
Mas não vou brigar pela razão

Não preciso mais me preocupar
Com as diferenças que só nos separam
Se o que nos une é maior

Eu não vou me conformar
Vou perder o medo
Desvendar segredos que não são mistério algum


E Nele sermos Um, integrantes do corpo de Cristo. Sendo Luz, diferença para o Mundo. E transformando-o pela conhecimento da Verdade e pelo Amor que nos amou primeiro.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Consciência.




Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas. Eu nunca concordei muito com essa frase.

Mas Ele pode se valer de todo e qualquer momento para nos ensinar. E posso dizer que passei por isso hoje. Há situações que em sua essência podem aparentar ser banais, mas cujas consequências podem nos trazer necessárias - e dolorosas - verdades.

Hoje eu colei na prova de Física. É. "Nossa, logo você, Vinícius, que era um aluno tão exemplar e bem-quisto, uma referência, fazendo uma coisa dessas?". É, logo eu. Era isso ou tirar 0, porque não sabia nada. Mas no fim das contas não adiantou muito, porque o professor pegou minha cola e deve ter me dado um zero do mesmo jeito.

Não fiz nenhum alarde. E por que faria? Eu sabia que aquilo era errado no momento em que decidi fazê-lo, então ter sido pego e perder nessa prova - com todas as suas implicações, incluindo a chance agora praticamente nula de passar nela nesse semestre e atrasar ainda mais o curso - era o que eu realmente merecia. Paguei o preço, e aceitei-o. 

No caminho para casa fiquei matutando várias coisas. Se contaria para minha mãe ou não (no fim contei, e vi que era o melhor a se fazer), um pouco no impacto desse zero pro curso, em culpa, nessas coisas. Chegando em casa fui pro quarto. Hora do desabafo. Mas sinceramente não sabia muito o que dizer.

Felizmente as palavras vieram. Enfim ia compreendendo que havia chegado numa situação-limite da minha existência: aquele ato de colar, tão supérfluo e natural pra tantos alunos (mas que nunca o fora pra mim), era apenas um reflexo do tipo de pessoa que vinha me tornando: um péssimo aluno, um péssimo cidadão, um péssimo cristão. Vivendo de relativismos morais, de conveniência, de hipocrisia. Negligenciando a Palavra, negligenciando e contradizendo meus princípios. Sabia que não podia mais viver essa vida. Sabia que precisava mudar.

Fui para a Palavra, pedindo orientação do Espírito para me guiar a uma passagem que falasse ao meu coração. E a achei, lá em Tiago, não à toa meu livro favorito da Bíblia. foram duas, na verdade:

"Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria.
Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade.
Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica.
Porque onde há inveja e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa.
Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia.
Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz." Tiago 3.13-18


"Portanto, submetam-se a Deus. Resistam ao diabo, e ele fugirá de vocês.
Aproximem-se de Deus, e ele se aproximará de vocês! Pecadores, limpem as mãos, e vocês, que têm a mente dividida, purifiquem o coração.
Entristeçam-se, lamentem e chorem. Troquem o riso por lamento e a alegria por tristeza.
Humilhem-se diante do Senhor, e ele os exaltará." Tiago 4:7-10


Lendo essas duas passagens, fui tomado pelas lágrimas. E por que não seria? Afinal de contas aquela era uma palavra rhema, ou seja, a Palavra de Deus revelada e aplicada pelo próprio Espírito Santo a mim naquele momento. Não foi por acaso que eu caí exatamente naqueles dois textos. Eles tinham algo a me dizer, e logo vi do que se tratava: sabia que se precisava pedir alguma coisa a Deus, era justamente a Sua sabedoria: eu necessito dela, todos nós necessitamos, justamente pelos seus atributos. 

Ah, mas nós somos tão donos de nós mesmos, não é? Certamente foi o que pensei na hora da prova. Achei que estava no controle da situação, mas veja no que deu. E é claro, não foi a primeira vez e infelizmente não será a última. Faz parte de nós, essa ilusão de que podemos ser senhores de nosso destino. Mas o que foi que disse uma vez em um dos meus textos aqui no blog? "Fazemos planos, e eles viram pó".

Quantas vezes fui um tolo. Movido por inveja, sentimentos tão contraditórios como o orgulho e a inferioridade. Quantos momentos de crise, de dúvida, de incerteza quanto ao futuro. De se olhar no espelho e parecer não se reconhecer mais. A criança que um dia fui se orgulharia do rapaz que sou? Talvez não. Mas quero viver de forma que este rapaz ao menos sinta orgulho do homem do amanhã. 

Para isso preciso ser Mais Nele. E então chegamos ao que Tiago fala no capítulo 4. Está muito claro o que é preciso fazer, a Quem preciso entregar meu futuro, minhas escolhas. O meu eu precisa morrer cada vez mais, o mal precisa ser expurgado do meu coração, este precisa ser limpo e consertado, e só assim terei o direito de portar o nome de Cristo em minha vida. Afinal de contas, como diz a letra da linda música do vídeo lá de cima, se tenho a Ele, tenho a verdade, "no 'assim diz o Senhor' e não no 'eu acho que'".

Que esse não seja um momento de quebrantamento isolado e passageiro, onde o velho Vinícius volte à tona e se esqueça daquilo que o Espírito obrou nele. Mas que seja uma mudança contínua e constante, que se faça refletir não só em mim, mas naqueles à minha volta. E que impere a vontade do Deus vivo, Aquele que me amou primeiro, e não a vontade deste ser tão falho. Que seja a voz Dele a falar em minha consciência e me torne assim uma pessoa melhor, vivendo desta Verdade que ilumina e alimenta dia após dia.

"Eu tive muitas coisas que guardei em minhas mãos, e as perdi; mas tudo o que eu guardei nas mãos de Deus, eu ainda possuo." Martin Luther King

domingo, 7 de setembro de 2014

Afinal, quem são "os evangélicos"?

*texto originalmente publicado na Carta Capital: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/afinal-quem-sao-201cos-evangelicos201d-2053.html
Homofóbicos, cortejados pela presidente, fundamentalistas. Massa de manobra de Silas Malafaia, conservadores, determinantes no segundo turno das eleições. De tanto que se falou sobre os evangélicos nas últimas semanas, nos jornais e nas redes sociais, talvez caiba uma pergunta: afinal, quem são “os evangélicos”?
A resposta mais honesta não poderia ser mais frustrante: os evangélicos são qualquer pessoa, todo mundo, ou, mais especificamente, ninguém. São uma abstração, uma caricatura pintada a partir do que vemos zapeando pelos canais abertos misturado ao que lemos de bizarro nos tabloides da internet com o que nosso preconceito manda reforçar. Dizer que “o voto dos evangélicos decidirá a eleição” é tão estúpido quanto dizer a obviedade de que 22,2% dos brasileiros decidirão a eleição. Dizer que “os evangélicos são preconceituosos”, significa dizer o ser humano é preconceituoso. É não dizer nada, na verdade.
Acreditar que há uma hegemonia de pensamento, de comportamento ou de doutrina evangélica é, em parte, exatamente acreditar no que Silas Malafaia gosta de repetir, mas é, em parte, desconhecer a história. A diversidade de pensamento é a razão de existir da reforma protestante. E continuou sendo pelos séculos seguintes, quando as igrejas reformadas do século 16 deram origem ao movimento evangélico, estes aos pentecostais e estes aos neopentecostais, todos microdivididos até o limite do possível, graças, novamente, à diversidade de pensamento – sobre forma de governo, vocação e pequenos pontos doutrinários. Boa parte destas, sem organização central, sem “presidência” nem representante, com as decisões sendo tomadas nas comunidades locais, por votação democrática.
Assim como não existe “os evangélicos” também não existe “os pentecostais”, nem “os assembleianos”: dizer que Malafaia é o “papa da Marina Silva” como disse Leonardo Boff, apenas porque ambos são membros da Assembléia de Deus, é ignorar que, por trás dos 12,3 milhões de membros detectados pelo IBGE, a Assembleia de Deus é rachada entre ministérios Belém, Madureira, Santos, Bom Retiro, Ipiranga, Perus e diversos outros, cada um com seu líder, sua politicagem e sua aplicação doutrinária. A Assembleia de Deus Vitória em Cristo de Malafaia, aliás, sequer pertence à Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil.
Ignorância parecida se manifesta em relação ao uso do termo “fundamentalista”, como sinônimo de “literalista”, aquele incapaz de metaforizar as verdades morais dos textos sagrados. A teologia cristã debate há dois mil anos sobre a observação, interpretação e aplicação dos escritos sagrados, quais são alegóricos e quais são históricos, quais são “poesias” e quais são literais. O deputado Jean Wyllys, colunista da Carta Capital, do alto de alguma autoridade teológica presumida, já chegou à sua conclusão: o que não for leitura liberal, é fundamentalista e, portanto, uma ameaça às minorias oprimidas. (Liberalismo teológico é uma corrente teológica do final do século 19 que lançou uma leitura crítica das escrituras, completamente alegorizada, negando sua autoridade sobrenatural, a existência dos milagres, e separando história e teologia).
Só que isso simplesmente não é verdade. Dentro da multifacetação das igrejas de tradição evangélicas, há as chamadas “inclusivas”, mas há diversas igrejas históricas, tradicionais, teologicamente ortodoxas, que acreditam nos absolutos da “sola scriptura” da Reforma Protestante, mas que têm política acolhedora e amorosa com as minorias. Algumas criaram pastorais para tratar da questão homossexual, outras trabalham para integrá-los em seus quadros leigos; outros, como disse o pastor batista Ed René Kivitz, estão mais dispostos a aprender como tratar “uma pessoa que está diante de mim dizendo ter sido rejeitado por sua família, pelo meu pai, pela minha igreja” do que discutir a literalidade dos textos do Velho Testamento.
O panorama da questão pode ser melhor entendido em Entre a cruz e o arco-íris: A complexa relação dos cristãos com a Homoafetividade (Editora Autêntica), livro qual tive a honra de editar. Nele, o pastor batista e sociólogo americano Tony Campolo, ex-conselheiro do presidente Bill Clinton, diz: “Se você vai dizer à comunidade homossexual que em nome de Jesus você a ama (...) não teria que lutar por políticas públicas que demonstrem que você as ama? Pode haver amor sem justiça? Eu luto pela justiça em favor de gays e lésbicas, porque em nome de Jesus Cristo eu os amo.” Campolo, entretanto, faz distinção entre direitos e casamento: “O governo não deve se envolver nem declarar, de forma alguma, o que é casamento, quem pode ou não se casar”, ele disse. “Governo existe para garantir os direitos das pessoas. Casamento é um sacramento da igreja – governos não devem decidir quem deve ou não receber esse sacramento.” Campolo acredita que esta será a visão dominante entre cristãos americanos “em cinco ou seis anos”.
Entre os evangélicos brasileiros há quem pense desde já como Campolo – distinguindo união civil de casamento. Há quem pense de forma ainda mais radical: que a união civil, com implicações patrimoniais e status de família, deveria valer não apenas para casais homossexuais, mas para irmãos, primos ou quem quer que se entenda como família. Há quem defenda o acolhimento dos gays nas igrejas, mas o celibato para eles. Quem, embora sabendo que mais da metade das famílias brasileiras já não são no formato pai-mãe-filhos, ainda luta para restabelecer esse padrão idealizado. Há, sim, quem acredite que o seu conjunto de doutrinas e o seu modo de vida são fundamentais. Há aqueles que, enquanto estamos discutindo aqui, está mais preocupado se a melhor tradução do grego é a João Ferreira de Almeida ou a Nova Versão Internacional. E há quem acorde diariamente acreditando ser porta-voz do “povo de Deus”, pague espaço em redes de televisão para multiplicar esse delírio (mas, a julgar pelo 1% de intenção de voto do Pastor Everaldo, somente ativistas gays e jornalistas desmotivados acreditam nesse discurso). Esses são “os evangélicos”.
Na fatídica sexta-feira em que o PSB divulgou seu programa de governo, enquanto Malafaia gritava no Twitter em CAPSLOCK furibundo, o pastor presbiteriano Marcos Botelho, postou: “Marina, que bom que vc recebeu os líderes do movimento LGBTs, receba as reivindicações com a tua coerência e discernimento de sempre e um compromisso com o estado laico que é sua bandeira. Vamos colocar uma pedra em cima dessa polarização ridícula entre gays e evangélicos que só da IBOPE para líderes políticos e pastores oportunistas.”
Botelho não representa “os evangélicos” porque não existe “os evangélicos”. Mas Marcos Botelho existe e é evangélico. Assim como existe William Lane Craig, o filósofo que convida periodicamente Richard Dawkins para um debate público, do qual este sempre se esquiva; existe o geneticista Francis Collins vencendo o William Award da Sociedade Americana de Genética Humana; existe Jimmy Carter, dando aula na escola bíblica no domingo e sendo entrevistado para a capa da Rolling Stone por Hunter Thompson na segunda-feira; existe o pastor congregacional inglês John Harvard tirando dinheiro do próprio bolso para fundar uma universidade “para a honra de Deus” nos Estados Unidos que leva seu sobrenome; existe o pastor batista Martin Luther King como o maior ativista de todos os tempos; existe o jovem paulista Marco Gomes, o “melhor profissional de marketing do mundo”, pedindo licença para “falar uma coisa sobre os evangélicos”. E existe o Feliciano, o Edir Macedo, a Aline Barros, o Thalles Roberto, o Silas Malafaia e o mercado gospel. Como existe bancada evangélica, mas existem os que lutaram pela “separação entre igreja e estado” na constituição, e existem os que acreditam que levar Jesus Cristo para a política é trabalhar não para si, mas para os menos favorecidos.
Existe o amor e existe a justiça, como existe o preconceito, o dogmatismo, o engano, o medo, a vaidade e a corrupção. Não porque somos evangélicos, mas porque somos humanos.

Ricardo Alexandre é jornalista e escritor, radialista e blogueiro, Prêmio Jabuti 2010, ex-diretor de redação das revistas Bizz, Época São Paulo e Trip. E é membro da Igreja Batista Água Viva em Vinhedo, interior de São Paulo.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Em retrospecto.

Amanhã o blog faz um ano de existência.

Então, o correto seria escrever esse texto amanhã, correto? Sim, mas provavelmente isso não vai ser possível. Sábado meu notebook, após meses travando e desligando sozinho e me tirando a paciência, parou de ligar. Tive de mandá-lo pra assistência. Estou escrevendo esse texto de um lugar como a lan house que salvou a minha pele nos meus primeiros anos em Aracaju, com a diferença de que esta é de graça e fica na biblioteca da UFS. E eu poderia escrevê-lo amanhã, neste mesmo local? Não. Sexta-feira é o único dia em que não tenho horário livre das 13h às 15h. 

Como se vê, minha falta de sorte continua firme e forte.

Inicio de facto esse texto admitindo uma dura verdade: o blog perdeu um pouco de sua importância pra mim ao longo de 2014. Passei a recorrê-lo cada vez menos para minhas reflexões. Na sua descrição está escrito "o expurgo de um coração partido", mas ele já não está mais partido. Está curado, graças a Deus. Quando eu terminar esse texto vou editar a descrição. Espero nunca mais ter de colocá-la de novo.

É estranho pensar que eu negligenciei o blog este ano, quando tinha muito mais motivos para recorrer a ele. Faltam 4 meses pra 2014 acabar, mas já posso dizer que este foi o ano mais difícil da minha vida. Pra não dizer o pior.

É, continuo mal na universidade. O dinheiro continua apertado. Mais dificuldades surgem, umas provocadas por minha imaturidade e incompetência, outras que estão além de minha compreensão e do meu controle. A raiva, a mesquinhez, a falta de iniciativa, o estresse, a tristeza, a angústia, o desespero, essas coisas queimam dentro de mim e me dominam tantas vezes. A carne, essa maldita carne, muitas vezes me domina e cega. Sobressai-se ao Espírito e seus frutos.

Sinto falta dos amigos que fiz no primeiro semestre, os que tiveram competência para seguir em frente. Fiquei pra trás, e quantas vezes esse sentimento de inferioridade latejou em minha mente. Como se eu precisasse de mais motivos pra me sentir inferior ou diminuído. Outras amizades tiveram de ser reavaliadas. 

(E outras maravilhosas surgiram. Nem tudo são espinhos e minha vida)

Quantas vezes quis me confessar para alguém tudo o que estava passando ou sentindo, e no entanto travei, guardei em meu coração, corroendo-o. As coisas mais difíceis de serem ditas...

A dualidade do ser engenheiro e ser escritor. Tenho condições de avaliar se Engenharia Civil é realmente o curso que quero? Considerando o que (não) fiz, acho que ainda não. Mas o que pensar, quando você faz um teste vocacional (um confiável, porque convenhamos que esses testes vocacionais da internet às vezes são mais falsos do que notas de 3 reais) que te identifica como uma pessoa analítica com vocação pra História e Letras? Como se eu já não estivesse confuso o suficiente.

Paralelamente o livro começou a ganhar feedback. Não apenas dos meus leitores betas, mas de uma editora, a Chiado, que se mostrou plenamente interessada em publicá-lo. Da minha parte eu assinaria aquele contrato na hora em que o li, mas meus pais e tios - que me bancariam - decidiram que era melhor procurar mais editoras antes de chegar a uma resposta final. Tive de aceitar, mas não sem resignação. O livro vai ter de esperar. Eu vou ter de esperar.

Mas estou cansado. Cansado desse semestre, cansado dessa rotina, cansado desse controle quase paranoico sobre meus gastos, cansado de repetir os velhos erros e não ter iniciativa para mudá-los, de esperar por algum momento mágico onde esteja bem. Eu olho para os céus e clamo por socorro, mas tantas vezes só encontro silêncio. E tu, ó Pai, é o único para quem eu posso dirigir minha raiva, o meu desespero, o meu choro. 

Mas mesmo nos momentos mais sombrios ainda encontramos alguma luz. Ou ela é posta para nós, de uma maneira inesperada, e de repente nos revoluciona, vira nossas vidas de cabeça para baixo. E nos instiga a ser alguém melhor.

Disse muitas coisas, mas nem estas palavras seriam capaz de expressar tudo o que passei  e vivenciei, para o bem ou para o mal. Espero que o blog não seja apenas um local de confissão de um universitário dramático, mas sempre um espaço de análise das coisas do mundo, do Espírito, daquilo que habita dentro de mim e que vale a pena ser exposto. Por fim deixo um agradecimento àqueles que se dispõe a ler esses textos e assim conhecerem mais de mim ou do que e como penso. 

E que venham ainda mais anos d'As Coisas que Sei.

domingo, 27 de julho de 2014

"There is no rock in this world but our God."



"Ações falam mais alto do que palavras."


Como descrever a importância do Petra pra mim e pro rock cristão em geral? Uma banda que, nos idos de 1970, usou um estilo musical tido como "do diabo" para, vejam só, falar de Deus e da Palavra. Foram necessários mais de dez anos para o Petra obter o reconhecimento comercial e crítico de que eram dignos. Reconhecimentos esses obtidos definitivamente com Beyond Belief, seu registro mais aclamado e frequentemente considerado sua magnum opus.

Meu pai costuma brincar dizendo que ele perdeu um show do Petra em 1995 por causa do meu conhecimento. Felizmente isso foi compensado tornando seu filho um fã da banda. Mas assim como aconteceu com o Queen há dois anos atrás, mesmo conhecendo a banda há tanto tempo só nos últimos meses (graças ao Spotify) tenho realmente adentrado o universo de seus discos, seus shows, suas letras. Todo aquele amor que tive pela banda cresceu e cresce exponencialmente.

A frase que inicia esse texto é tirada da letra da música Seen and Not Heard, e para aqueles que acompanham meu blog ou até me conhecem pessoalmente, devem achá-la familiar. Pois bem, aprendi-a com meu "painho" Zica (na versão "aquilo que você faz fala mais alto do que aquilo que você fala") e a tomei como um lema para minha vida, um princípio moral, um norte. Ontem, eu estava no subway com meus colegas e sem saber como a discussão foi parar em religião. Eu e mais dois tentávamos convencer o outro acerca da importância do cristianismo. Mas nossas palavras não foram suficientes. Então eu lancei a ele, "espero que meu exemplo de vida fale mais a você do que o que eu digo". Ou algo assim.

Sabe, enquanto que eu sempre me importei mais com a música do que com a letra, nos últimos tempos sinto que não posso aplicar isso à música cristã. Não quando não sinto Deus falando naquela canção, quando me canso dos clichês "gospels". E meu amigo, se tem uma coisa no qual o Petra sabe ser excelente além de sua musicalidade é em suas letras. Claro que as traduções não podem ajudar, mas Bob Hartman, guitarrista e principal compositor/letrista da banda ao longo de seus quarenta anos de história, sabe como poucos trazer para as canções da banda a essência da Verdade, do Evangelho. Que quando têm de ser críticas são, que quando têm de ser gratificantes ou confessionais, também são.

Se tudo o que eu disse te convenceu a ouvir a banda, comece por Beyond Belief. Se não, escute-o do mesmo jeito e tire suas próprias conclusões. 



É impossível não sentir aquele "instiga" a gritar "hey-ey-hey-ey-ey" que surge nos primeiros segundos de Armed and Dangerous, a primeira música do álbum. Uma deliciosa mistura de hard rock com AOR (Adult-Oriented Rock), gêneros que dominaram os anos 1980 e são plenamente evidentes aqui, mesmo que seja uma obra de 1990. Estamos diante de um hino de guerra, uma convocação nítida em suas letras: "The enemy will tremble, as young and old assemble, a mighty army up in arms". É uma música que resume o tom do álbum, especialmente na sonoridade: os vocais poderosos do sempre sensacional John Schillit, a guitarra tão pesada e melódica de Bob Hartman, o baixo pungente de Ronny Cates e o dinamismo dos teclados "80-nescos" de John Lawry com a bateria memorável de Louie Weaver (são eles dois quem mais contribuem pro aspecto AOR do disco). E a partir daí as coisas só melhoram.



Em seguida vem uma das minhas favoritas de sempre, I Am On the Rock". Sim meu leitor, foi da letra dela que saiu o título deste texto. As letras falam das dificuldades que enfrentamos no mundo, das adversidades que surgem em nossas vidas e que podem sim nos fazer desanimar e perder a esperança; no entanto, se estamos firmados sobre a rocha viva que é Jesus não há o que temer (em tempo: Petra é rocha em grego). Eu amo o riff de guitarra nesta canção, os solos excepcionais de Hartman e novamente me sinto instigado a cantar com os membros da banda as letras. 



Eis que chega Creed. Cara, o que dizer desta canção. Muito provavelmente a declaração de fé mais poderosa, pungente e assombrosa que já vi em toda a minha vida. Creed é credo em inglês, e é disso que ela trata em suas letras, começando por palavras tão arrebatadoras como essas: "I believe in God The Father, maker of heaven and earth, and in Jesus Christ, his only Son, i believe in the virgin birth". Cantadas por um infalível John Schillit, elas são acompanhadas de teclados atmosféricos, seguidos de um baita baixo e bumbo antes que guitarra e bateria completa entrem, trazendo o peso devido a essa música tão maravilhosa. 

"This is my creed
The witness I have heard
The faith that has endured
This truth is assured
Through the darkest ages past
Though persecuted, it will last
And I will hold steadfast to this creed"(8)



A quarta música carrega o nome do álbum e, ah... Pode existir outra mais clássica (indagação difícil num álbum de tantos clássicos pra nós fãs)? Mas caramba, aquele riff que abre a música é eterno. Sempre abro um sorriso quando na minha playlist random ela se inicia. Acho que só esse sentimento que ela me passa, desde seu título ("além da fé"). Porque você sabe né, a fé é o fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se veem.

"There's a higher place to go, beyond belief, beyond belief
Where we reach the next plateau, beyond belief, beyond belief"(8)


E assim, encerrando essa primeira parte de minha longa resenha sobre esse disco (que eu não esperava que fosse ficar tão grande, mas é sempre a mesma coisa quando escrevo no blog), falarei da música que encerra o lado A do disco (sim, ele foi lançado ainda na época dos vinis). Seu nome é nada mais do que "Love". Você pode pensar que essa vai ser uma baladinha oitentista meia-boca, mas se Creed é uma declaração poderosa de fé, Love é uma declaração poderosa de amor. E não qualquer amor, mas o ágape, aquele que faz um Pai entregar seu Filho por amor de toda a humanidade. O amor que vemos em I Coríntios 13, aquele que é paciente, bondoso. 

"In this world where push turns to shove
We have strength to rise above
Through the power of His love"Toquem essa música no meu funeral, por favor. Mais importante: VIVAM essa música, dia após dia.(continua na parte 2...)



sábado, 21 de junho de 2014

Ele se sentia como se não pertencesse a esse mundo.


"Eu descobri em mim mesmo desejos para os quais nada nesta Terra pode satisfazer. A única explicação lógica é que eu fui feito para outro mundo." C.S. Lewis


Ele se sentia como se não pertencesse a esse mundo. Como se fosse uma peça que não se encaixasse neste complexo quebra-cabeça social. Não se sentia disposto a atender certas convenções sociais, a trair sua individualidade em prol de aceitação dos outros. Quando tentava, falhava. Era maior do que ele.

Quando lhe ofereciam uma bebida, ele gentilmente recusava. Quando o chamavam para sair, muitas vezes simplesmente não tinha saco pra isso, mesmo que fosse com seus melhores amigos. Principalmente se sabia que iriam sair pra encher a cara. O que ganhava com isso, se beber nunca fora do seu feitio, por diversos motivos - não apenas o religioso, como muitos pensavam? 

Outros brincavam e zoavam com ele por ser bv. Diziam que iam arrumar uma garota pra perder logo esse bv. Inadmissível, inconcebível um cara com 18 anos nunca ter beijado alguém na boca na vida! Outros amigos, mais extremos, até brincavam dizendo que o levariam num puteiro. Ele era todo sorrisos, rindo dessas brincadeiras, dessas zombarias, dessas piadas. Mas no fundo sentia-se nervoso, incapaz de imaginar como reagiria se o pressionassem a tal. Daria para trás e seria ridicularizado por arregar na hora? Ou agiria como queriam que agissem, pegando a garota pra alegria da galera? Por isso evitava sutilmente. Contava com a auto-depreciação para abordar tal tema, buscando fazer com que o respeitassem por isso, com que não o forçassem a nada.

Às vezes era a carne que falava mais alto. Não precisava da pressão dos amigos; o desejo vinha por si só, o pensamento de como seria sua vida se não tivesse perdido aquele maldito bv logo. A carne mortificava a santidade, era alimentada no lugar desta. Brincadeiras aqui e ali mostravam alguém que parecia disposto a deixar sua espiritualidade de lado por um momento efêmero. Mas o juízo voltava, não apenas sobre isso mas sobre várias coisas. Pelo amor ou pela dor ele recobrava a razão. Lembrava-se das palavras, dos valores que lhe foram ensinados. Da sua singularidade. Lembrava-se de Quem tinha de seguir, Quem devia ser o seu modelo de comportamento. "Devo focar Nele", pensava. "O resto é consequência e eu não devo nada a esse mundo".

Ele não era perfeito; ninguém o é. É só que sua hipocrisia era mais escancarada em alguns momentos do que em outros. O que às vezes era supostamente uma ideia progressista que adotava na verdade era apenas uma máscara para se justificar, para justificar pensamentos que sabia serem incorretos. Ele não mentia para si mesmo; e justamente por conhecer a verdade de seus atos e seu interior tantas vezes deturpado era que o sentimento de culpa e remorso era tão intensificados. Algumas vezes eles não precisavam voltar porque ele não voltava aos mesmos erros. Outras vezes...

Ele também não era fixo a uma panelinha. Descobriu que podia ser amigos de várias pessoas, todas tão diferentes entre si. Mas nunca se sentia inteiramente parte de um grupinho. Às vezes faziam planos que não o incluíam (ou ele se excluía). Alguns dos grupos com os quais andava eram de pessoas com os mesmos perfis, mas ele não sentia como se compartilhasse dos mesmos perfis que elas. E por mais forte que fosse a amizade deles, sempre sentia que essas diferenças pesavam em vários momentos.

Ele sabia que nem tudo em sua vida significava escolher um meio-termo. Nem tudo podia se resumir a neutralidade. Ele não era rancoroso, mas guardava muitas coisas - muitas inúteis. Pensava mais do que agia, e sua mente criava um monte de situações, muitas totalmente nonsense (era dos que criavam diálogos em sua cabeça). Também observava bastante, juntando as pistas de certos assuntos aqui e ali. As pessoas podiam zoá-lo pelas costas. Mas ele saberia. Infelizmente só saberia e provavelmente nunca teria a coragem de ir além disso.

Mas mais do que tudo, ele temia por sua (e)terna contraditariedade. Em muitos casos ele sabia que aquele era apenas um termo bonito para hipocrisia mesmo. Também se achava superestimado por muitos, reflexo de uma auto-estima baixa e um temperamento melancólico. De certas pessoas queria mais atenção. Ao mesmo tempo por diversos momentos queria fugir do mundo, imergir em sua solidão que às vezes era tão amigável e calorosa. Ela não o fazia mal, não como as palavras de outros (e principalmente, de si mesmo) o faziam. 

Ele sabia que não era o mesmo de quatro ou cinco anos atrás, mas ao passo em que alguns aspectos mudara para melhor, também sabia que em outros essas mudanças tinham sido negativas. Sentia que às vezes andava em gelo fino, os valores seus contra os valores - ou a falta de valores - dos outros. Moralidade contra amoralidade e contra moralismo. Às vezes, ele contra o mundo. Outras, ele lado a lado com o mundo. E assim ia, sabendo que seu maior inimigo era a si mesmo. E que seu maior amigo residia no alto.

No fim das contas, ele sabia que sua vida era mais do que sua auto-estima ou seus relacionamentos ditavam. E que todo esse sentimento de "desfuncionalidade" era reflexo de uma verdade óbvia: 

Seu mundo nunca fora este. 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Casas.




Pois Deus preferiu essa carne; não quis os templos que posso construir com minhas mãos.


Na EBD (Escola Bíblica Dominical) de ontem, o pastor Sandro nos fez uma pergunta: o que é a igreja? "Corpo de Cristo", respondi. "Comunhão", respondeu alguém. E outras respostas, tímidas, vieram. Essa pergunta veio acompanhada de outra: se alguém de fora, do mundo, viesse a você e te perguntasse o que é a igreja, o que responderia?

Algumas horas depois, e esta canção do Palavrantiga me veio à cabeça. Talvez eu nunca tenha comentado por aqui (ou feito esparsamente), mas Palavrantiga é uma das minhas bandas cristãs favoritas e suas letras instigantes, poéticas e ricas têm sido uma das melhores que tenho ouvido nos últimos tempos. "Casa" é a primeira música do seu primeiro álbum, e trata exatamente disso: somos a morada de Deus (ou devemos ser, uma vez que assumimos o compromisso de sermos cristãos), permitimos que sejamos habitat do Espírito Santo. Vivenciamos Deus aqui dentro, não em estruturas, liturgias e legalismos.

Hoje, no discipulado, uma nova questão foi lançada pelo pastor. Em Lucas 1.33, o anjo diz à Maria acerca de Jesus: "E reinará eternamente na casa de Jacó, e seu reino não terá fim". Ora, que reino é esse? Ele é, respondeu o pastor a nós, o mesmo expresso na oração do Pai Nosso: "venha a nós o vosso reino". Este reino somos nós. E isso converge para sermos casa de Deus, morada do Espírito Santo.

Porque se somos casa, então a igreja é isso: uma aglomeração de casas. Um substantivo que se designa tanto ao indivíduo quanto ao grupo. O que é igreja? É a sua vida quem responde isso. É sua comunhão com o Espírito, é o coração contrito, são as ações que revelam a verdade da Palavra. Ora, pois discursamos aos quatro ventos que Deus habita em nós, que vida infeliz é essa que não reflete tal discurso?

Somos morada do nosso amado. Zelemos então pela permanência Dele, atendendo a Sua vontade. 

"Só Jesus não salva", por Pablo Massolar

SÓ JESUS NÃO SALVA!

Conheço todo tipo de gente que crê em alguma coisa. Sim! Todo tipo de gente e de fé. Tenho amigos evangélicos legais e também evangélicos alucinados adoecidos. Possuo amigos católicos praticantes, católicos não praticantes, espíritas, Nova Era, bruxos, umbandistas, deístas, budistas e até gente que não crê em nada além de si mesmo, nem em Deus! Também conheço os que apenas se convenceram acerca de alguma estrutura de fé e não enxergam um palmo a frente de seus olhos...
O interessante de se encontrar com pessoas e cabeças tão divergentes é que a gente vai aprendendo a discernir e respeitar o ser humano além da sua roupagem cultural e religiosa. É possível aprender (com certa limitação, é claro!) a ter um olhar mais apurado, voltado para o coração e não somente para o exterior, para a aparência, para as camadas mais superficiais do ser.
É um exercício diário tirar as escamas dos olhos e começar a perceber as sinceridades e também as emboscadas de quem tenta fazer contato (e contratos) com Deus por puro hábito mecânico, sem verdade, ou por medo mesmo.
O que percebo, com o aprendizado deste convívio, é que a religião, seja ela qual for, em algum ponto pode adoecer e aprisionar as pessoas em angústias e neuroses que vão se enraizando sem se perceber e sem se deixar tratar. A religião verdadeira não é encontrada em um simples ou complexo sistema de crenças. Não pode ser baseada na barganha ou no medo. Ela é experimentada no caminho diário, ritmo e curso natural da própria vida. Não só com palavras e aparências, mas com a prática do que se crê e da capacidade de se viver sem angústias em Deus e para Deus.
O problema é que muitos fazem do nome JESUS e da fé no nome de Jesus uma fé em si mesma, enclausurada e minimizada nas letras e na pronúncia. Ou seja, acredita-se no poder da junção ordenada das letras e no poder da entonação forte dos fonemas. Nada além disso.
Sem perceber, as pessoas passam a crer mais na formação correta da "palavra mágica" JESUS que no ser além das letras. A palavrinha JESUS não possui poder nela mesma nem pode salvar qualquer pessoa. Quem salva é Quem está acima da letra e da capacidade de se pronunciar em qualquer língua as sílabas do Nome Eterno.
O que estou dizendo é que a fé nas letras J-E-S-U-S nem sempre é fé na PESSOA Jesus e que pode-se crer na pessoa Jesus e viver um encontro real com Deus sem, necessariamente, saber, conhecer ou pronunciar a palavra Jesus.
O apóstolo João, em seu evangelho, a respeito do ser Jesus, diz que o "Verbo se fez carne e habitou entre nós", em outras palavras, em Jesus, Deus se fez "encontrável", se materializou, construiu uma casa entre os homens. Não se trata mais de um sistema de crenças, de dizer, cantar ou gritar o nome correto ou da forma certa, mas de poder encontrá-lo na vida hoje, agora e em qualquer tempo até sem palavras e ritos.
Outras vezes, do mesmo modo, as pessoas transferem a fé para o objeto de culto. É a fé no crucifixo, na vela, na oferenda, no sacrifício, no púlpito, no altar, no monte, no sagrado, no culto, na música e até em outras pessoas. Esta fé também não resolve e reduz a vida a uma relação empobrecida de "encontro" com Deus somente nestes ambientes e objetos, quando, na verdade, Deus está para além do que se vê e do que se toca. Esta é uma característica inegável de Deus! Nenhuma religião ou lugar do mundo pode prendê-lo ou domesticá-lo!
A fé verdadeira produz vida com abundante confiança, mesmo nos mais profundos momentos de tristeza e dor. Sem muletas, sem amuletos, sem lugares especiais. A fé é um encontro diário, livre e renovador com Deus até para quem não sabe como crer.
Não se trata de fazer de conta que a dor não exista. Também não é uma desculpa alienada para fingir que "está tudo bem". A fé vivida em sua forma mais genuína e livre capacita a gente para encarar de frente a dor, a perda e até a morte. Sem medo, sem fingimento, sem angústias. Pode-se até vacilar, perder as forças e apertar o nó na garganta, mas a gente levanta, segue em frente porque sabe de verdade que não existe fim para quem crê assim. O encontro é real e vivo!
Também, a Palavra de Deus vai entrando e se enraizando por todos os modos no nosso entendimento e ganhando cada vez mais chão e razão. Não somente através de um "livro sagrado", mas através das Boas Novas diárias, reveladas no papo com os amigos, nas festas em família, com gente querida, no andar com quem se ama, no se perceber perdoado e no oferecer perdão, pão e a mão.
Percebemos e aprendemos que Deus fala e vai falando sempre como Ele quer, às vezes usa quem nós mesmos julgamos não serem "dignos" disso. Outras vezes é no silêncio, na incerteza e na simplicidade que Deus se revela como amigo sempre presente.
A fé em Deus vai se moldando delicadamente como que pelas mãos de um habilidoso e caprichoso escultor. Até um certo ponto a massa é informe, não se sabe bem o que resultará dali. Mas o escultor tem um objetivo, ele vai amparando e apertando o barro para dar forma e o que era apenas um monte de barro vai ganhando qualidades, contornos e depois cores e detalhes mais particulares. Este processo de modelagem diária vai trans-formando a fé em algo real, palpável e eterno.
O Deus que não precisa de nomes para ser adorado o abençoe rica, poderosa e sobrenaturalmente!

*Texto extraído do blog Ovelha Magra (http://ovelhamagra.blogspot.com.br/)