Mostrando postagens com marcador ASOIAF. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ASOIAF. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Os aspectos da liderança - ASOIAF e as lições sobre o poder e governança pt. 3.

[Contém spoilers d'As Crônicas de Gelo e Fogo. Você foi avisado.]

Bom, aqui estamos de volta com a temática do poder em ASOIAF. Minha intenção era trabalhar em dois posts apenas, mas é um assunto que rende bastante, até porque é um dos temas principais da série. E é claro que eu não poderia falar dele sem mencionar dois personagens importantíssimos pra história.

Ascensão: A Aranha e Mindinho e suas ações em Westeros

Petyr Baelish e Varys são dois dos mais icônicos e misteriosos personagens da saga. É impossível dizer exatamente quem são, até pelo fato de não serem narradores. Talvez de Mindinho conheçamos mais, graças às lembranças de Catelyn Stark em seu castelo Correrrio, uma vez que ambos eram grandes amigos na infância. O passado de Varys é desvendado um pouco mais no quinto livro através de sua amizade com Illyrio, magíster da Cidade Livre de Pentos. Mesmo assim é pouco para definir o que querem, como agem e como conseguiram chegar aonde chegaram. Duas figuras donas de passados misteriosos e até trágicos que alcançam o alto escalão do poder de Westeros. 

E cada um, a seu modo, tem seus jogos a jogar.


A tragédia do amor romântico: o que Mindinho quer?

"Só os deuses sabem que jogo Mindinho está jogando." Varys em A Guerra dos Tronos 

Do que conhecemos de Petyr, sabemos que ele foi apaixonado por Catelyn na infância, a ponto de querer lutar pela mão dela com Brandon Stark, sendo derrotado de forma humilhante. Aquele garotinho cresce e se torna um homem frio e astuto, bem diferente daquela criança. Quando Catelyn o reencontra ele é o Mestre da Moeda do reino, tendo ascendido graças a Jon Arryn. Apesar de oferecer ajuda a Ned Stark não hesita em traí-lo, e mais tarde descobrimos que foi ele quem elaborou o plano de envenenar Joffrey, bem como a aliança Tyrell-Lannister. E acima de tudo: usando a Lysa Arryin (irmã de Cat e com quem tinha um caso), faz com que ela envenene o marido Jon, a morte que desencadeia todos os eventos da série.

Por que tramar tantos planos ardilosos? Quais são os objetivos de Mindinho? Através de suas interações com Sansa Stark no terceiro e quarto livros descobrimos (um pouco) mais de suas intenções, mas ainda assim não sabemos o suficiente - estamos longe disso. Ao final d'O Festim descobrimos que Mindinho "dará" o Norte a Sansa através do seu casamento com o herdeiro da Casa Arryn. Então tudo o que ele fez é por isso? Duvido.

Se há um personagem que não pode ser chamado de vilão, por mais que mereça, é Petyr. Ele é um fdp de ordem maior, mas é impossível não admirar e até gostar desse maldito. O fato de Cat "friendzoná-lo" traz até um processo de identificação com muitos leitores, especialmente os masculinos (não que isso justifique uma guerra civil, é claro). Essa rejeição foi muito importante pra tornar o homem que ele é, e tem consequências profundas. De uma forma até mesmo doentia, podemos ver que ele projeta a imagem de Catelyn em Sansa, e cada vez fica mais claro que há um interesse sexual da sua parte pela garota, apesar do disfarce de "pai e filha" que usam ao longo d'A Tormenta e d'O Festim, numa clara ligação "Humbert-Lolita", da obra de Vladimir Nabokov. 

É difícil, praticamente impossível, delinear onde termina a face amigável de Petyr Baelish e começa a sombria de Mindinho, tampouco suas intenções. A meu ver, eu imagino que ele provocará a queda das grandes Casas atuais e a ascensão de novas - estas com senhores que ele possa controlar nas sombras, às vezes sem mesmo saber que estão sendo controlados. Ou seja, ele seria um "master of puppets" mais do que já é. Mas o futuro de Mindinho é obscuro. Parte de mim quer que ele viva no final, outra que Sansa aprenda muito e muito com ele e o mate. Quem pode dizer? O futuro ao deus da morte (aka Martin) pertence.

"Chaos isn't a pit. Chaos is a ladder." Mindinho


Teias e mais teias: a rede de Varys e Illyrio e o provável retorno dos dragões

Se mesmo com a quantidade de informações que temos de Petyr ainda é insuficiente traçar uma trajetória futura para ele ou suas intenções, o caso é ainda mais extremo com Varys. Sabemos que ele é da Cidade Livre de Myr, integrava uma trupe de pantomineiros e foi vendido a um homem que o castrou num ritual de invocação de alguma força maligna, o que o faz abominar a magia (ou pelo menos é o que diz, embora trame planos que envolvam aquela que detém os seres mágicos mais poderosos do mundo, como falarei mais abaixo). Sendo um ladrão, é descoberto e vai para Pentos, onde firma uma amizade e uma parceria com o jovem Illyrio, evoluindo de um senhor dos ladrões para um ladrão de informações, cuja fama em descobrir segredos e espionar atravessa o Mar Estreito e chega aos ouvidos de um certo rei louco, e é assim que ele se torna Lorde Varys, a Aranha.

A maioria dessas informações são dadas no quinto livro, nas interações entre Illyrio e Tyrion. Sabemos que ao fim do terceiro livro Varys resgata Tyrion da morte e o coloca em um navio rumo a Pentos, livrando-o de ser executado pela acusação de ter envenenado Joffrey. Aparentemente Varys só liberta Tyrion porque Jaime o obriga. Mas, será mesmo que é só por isso? Ainda mais considerando que durante a fuga o anão aproveita para matar Tywin e sua prostitua Shae, o que é claro inicia a derrocada dos Lannister vista ao longo do quarto e quinto livros. Muito antes, nós vemos o eunuco "ajudar" Ned. Entretanto ele corrobora com alguma das mentiras de Mindinho (como a posse de um punhal usado por um assassino para tentar matar Bran Stark, alegando pertencer a Tyrion, cuja prisão por Catelyn - que tinha ido a Porto Real em busca da verdade e ouve tal mentira dos dois - desencadeia diretamente a Guerra dos Cinco Reis), embora aparentemente ambos façam seus próprios jogos. Além disso o vemos ter uma conversa com Illyrio em um canto escondido da Fortaleza Vermelha, que evidencia uma suposta conexão com Viserys e Dany. Por que tantas artimanhas?

Uma resposta fácil seria dizer que ele almeja o retorno dos Targaryen. Afinal de contas ele envia Tyrion a Essos para que este una-se a um mercenário e seu filho, Griff e Young Griff, e seus subordinados, e encontre-se com Daenerys - isso sem contar que foi ele quem sugeriu que Sor Barristan fosse demitido, o que leva o homem a buscar Dany por ser a rainha de direito. Mas como descobrimos através de Tyrion, Griff é na verdade Jon Connington, ex-Mão do Rei de Aerys II e um grande amigo de Rhaegar, e seu suposto filho é ninguém menos Aegon Targaryen, o suposto filho morto de Rhaegar e assim um candidato com mais pretensão ao trono do que Dany, por ser filho do primogênito do deposto rei louco. O anão convence o rapaz a ir para Westeros e aproveitar das ruínas da Guerra dos Cinco Reis para tomar o continente, ao invés de oferecer uma proposta de casamento a tia quando não tem nada a oferecer a ela além de sua pretensão. 

Será que isso estava nos planos de Varys e Illyrio? Ou melhor, será que estes dois têm os mesmos planos? Ao final da Dança o eunuco mata Meistre Pycelle e Kevan Lannister, este que estava consertando as burradas da sobrinha Cersei cometidas n'O Festim, sendo que tais mortes e as suspeitas advindas corroerão a aliança Tyrell-Lannister, preparando o terreno para que Aegon ascenda ao trono - o que acredito eu, irá acontecer.

Digo que a ascensão dos Targaryen novamente ao trono é uma resposta fácil demais porque há bastantes evidências ao longo do quinto livro de que Aegon é na verdade um Blackfyre. Na linha do tempo de ASOIAF, a Casa Blackfyre foi um ramo dos Targaryen que tentou ascender ao trono, provocando diversas guerras civis que assolaram Westeros ao longo do século anterior, com o último descendente da linhagem masculina tendo sido morto por Sor Barristan na Guerra dos Reis de Nove Moedas, ocorrida quarenta anos antes dos eventos da série terem início. A teoria afirma que a linhagem feminina sobreviveu, com a falecida esposa de Illyrio, Serra, sendo uma Blackfyre e Aegon filho dos dois. Isso sem contar que eles têm o apoio da mais renomada companhia mercenária do mundo, a Companhia Dourada, que foi fundada pelos Blackfyre. Apoiariam os mercenários um membro de uma Casa inimiga de seus fundadores? Embora eu ache essa teoria bastante válida prefiro acreditar que o rapaz é um legítimo Targaryen, apenas pra que o circo pegue fogo, hehe.

"Vermelho ou negro, um dragão ainda é um dragão" Illyrio em A Dança dos Dragões

Além disso, lembram-se da teoria sulista que apontei no post anterior? Um fator importante a se considerar é que na história sabemos que Varys sussurrava nos ouvidos de Aerys que Rhaegar pretendia destroná-lo. Estria ele alertando de uma provável conspiração ou apenas alimentando as paranoias de seu suserano para garantir o esfacelamento da Casa Targaryen? Outra coisa interessante: Embora Varys seja conhecido por não ser confiável, ele é a única pessoa que avisa o rei louco para não abrir os portões a Tywin, o que poderia ter evitado o Saque de Porto Real. Entretanto Aerys preferiu ouvir Pycelle, que no íntimo sempre foi um aliado dos Lannister. Cara, ASOIAF dá tantas voltas em sua cabeça, com mais e mais segredos e revelações que te deixam boquiaberto. 

No fim das contas tudo o que sabemos é que as teias estão lá, sendo tecidas brilhantemente ao longo dos anos. 


Conclusão e pensamentos finais

Há uma gama de personagens misteriosos e de intenções ocultas em ASOIAF - Euron Greyjoy, Melisandre, Qyburn, Quaithe, etc. Porém nenhum deles está tão relacionado às conspirações e maquinações políticas da série quanto esses dois, que são os favoritos de muitos, inclusive de mim.

Embora Mindinho e Varys sejam talvez misteriosos em proporções iguais talvez, Varys pra mim é muito mais sinistro. O epílogo da Dança, que é onde ele mata Kevan e Pycelle, mostra uma faceta sombria dele que não tínhamos visto nos livros anteriores. Isso sem contar o fato de que ele permaneceu escondido na Fortaleza Vermelha desde a fuga de Tyrion. Tendo conhecimento das passagens secretas do castelo, o que poderá fazer nos próximos livros? Por outro lado estamos vendo mais de Mindinho através dos capítulos da Sansa. Até que ponto chegará a relação dos dois? Eu aposto num forte envolvimento sexual, no fim definitivo da inocência da doce menina. Já foi dito que veremos um capítulo polêmico dela no sexto livro, mas qual será a polêmica? Sansa se tornará uma jogadora tão boa quanto seu tutor, e chegará a saber que ele traiu o seu pai? São muitas perguntas, e parece que só dois livros não serão suficientes para respondê-las.

Mas nós esperamos. Apesar de toda a demora, o resultado de saírem duas ou mais obras-primas é garantido se vindos da mão do todo poderoso Martin. 

sábado, 12 de outubro de 2013

Os aspectos da liderança - ASOIAF e as lições sobre o poder e governança pt. 2.

[Contém spoilers d'As Crônicas de Gelo e Fogo. Você foi avisado.]

Bom, no post anterior usei as figuras de Daenerys e Tywin para fazer associação com o príncipe de Maquiavel. Aqui venho falar de uma das questões mais sensíveis e comentadas em ASOIAF: a governança por direito e legitimidade do poder. 

Tendo fugido de Westeros quando ainda era um bebê, tudo o que Dany sabe do continente vem de seu irmão Viserys, que gradativamente perde sua sanidade em suas tentativas desesperadas de retomar o trono que perdeu. Ao mesmo tempo em que vemos através da ótica de Ned Stark uma visão gloriosa do (ex)guerreiro Robert Baratheon que destronou o rei louco e assumiu o trono, a visão de Dany é menos favorável, vendo o homem como o "Usurpador" e Stark e Lannister como seus "cães". Afinal de contas os Targaryen reinavam há quase 300 anos e legitimamente o trono pertence a eles.

Será mesmo?

Rebelião de Robert: motivos e teorias

Essa ótica desfavorável à rebelião do Robert acaba sendo passada a muitos fãs. Afinal de contas, derrubar uma dinastia de quase três séculos não é de todo um ato nobre. E os motivos, serão? Considerando o quanto o reino estava em decadência por causa do péssimo reinado de Aerys após o rapto deste em Valdocaso (que é apontado como a gota d'água para sua loucura), o rapto de Lyanna Stark, noiva de Robert, pelo príncipe Rhaegar, e a subsequente morte de Lorde Rickard Stark e de seu filho mais velho Brandon pelas ordens de Aerys, parece perfeitamente sensato que tantos senhores tenham se unido  para derrotá-lo.

Lembremos que de início a intenção de Robert não era ser proclamado rei. Contudo ele foi visto como o mais apto para tomar o trono após a queda Targaryen, uma vez que tinha ligações coma  família pelo lado paterno, o que o tornava primo distante de Aerys e Rhaegar. Contudo, são justificativas pífias para legitimar um direito que poderia ser concedido a qualquer um naquele instante. E mesmo a vitória sobre os senhores do dragão não deu a Robert o que ele mais queria: Lyanna. Mesmo inconsciente de que ela possivelmente não o amava, a perda da amada se reflete em sua figura trágica, transformando o outrora invencível guerreiro num péssimo rei.

Mas... será que o rapto de Lyanna foi realmente o motivo para toda uma rebelião?

Parece-me cada vez mais claro, assim como a vários outros leitores, que vários senhores das Grandes Casas podiam estar envolvidos em uma conspiração secreta para derrubar Aerys muito antes do rapto da noiva de Robert Baratheon. Isso é evidenciado em momentos como n'O Festim dos Corvos onde um meistre aponta como a Cidadela esteve por trás da morte dos últimos dragões Targaryen, evidenciando que a ordem pode ser mais ativa no papel político de Westeros do que se pensa, e n'A Dança, onde a Senhora Dustin revela seu desprezo pelos "ratos cinzentos":

— Se eu fosse rainha, a primeira coisa que faria seria matar todas aquelas ratazanas cinzentas. Correm por todo o lado, vivendo das sobras dos senhores, chiando umas com as outras, sussurrando aos ouvidos dos seus
amos. Mas quem são realmente os amos e os servos? Todos os grandes senhores têm o seu meistre, todos os senhores de menor gabarito aspiram a ter um. Se não se tem um meistre, isso é visto como querendo dizer que se é de pouca importância. As ratazanas cinzentas leem e escrevem as nossas cartas, mesmo para senhores que não sabem ler, e quem poderá dizer com certeza que não estão a distorcer as palavras para os seus próprios fins? (...)

"Foi isso que aconteceu ao Lorde Rickard Stark. O nome da sua ratazana cinzenta era Meistre Walys. E não é inteligente o modo como os meistres respondem só pelo primeiro nome, mesmo aqueles que tinham doisquando chegaram à Cidadela? Assim, não podemos saber quem realmente são ou de onde vêm… mas se se for sufi cientemente decidido ainda se pode descobrir. Antes de forjar a sua corrente, o Meistre Walys era conhecido como Walys Flowers. Flowers, Hill, Rivers, Snow… damos esses nomes a crianças bastardas para as assinalar como o que são, mas elas são sempre rápidas a verem‐se livres deles. Walys Flowers tinha uma rapariga de Torralta como mãe… e um arquimeistre da Cidadela como pai, segundo se dizia. As ratazanas cinzentas não são tão castas como nos gostariam de levar a crer. Os meistres de Vilavelha são os piores de todos. Depois de Walys forjar a corrente, o seu pai secreto e os amigos dele não perderam tempo a despachá‐lo para Winterfell para encher os ouvidos do Lorde Rickard com palavras envenenadas doces como o mel. O casamento Tully foi ideia dele, não tenhais dúvidas, ele…"

Se ficar comprovado que a Cidadela manipulou os grandes senhores para fomentar uma rebelião contra Aerys, teremos muito pano pra manga. Espero que o próximo livro traga mais respostas.

De qualquer modo a inoperância do rei louco pode ser vista como uma justificativa para sua destronação? Consideremos que na linha do tempo houve um precedente "legal" para a escolha de um rei sem os termos de sucessão. À morte de Maekar em 233 DP (Depois do Pouso), um Conselho foi formado para eleger o novo rei. Acabou que este foi seu quarto filho, Aegon V, dito "O Improvável" por ser o quarto filho de um quarto filho. Creio que o objetivo fosse instaurar um novo Conselho que tirasse Aerys do trono e desse-o a Rhaegar (que supostamente podia estar envolvido na conspiração), mas os eventos subsequentes ao rapto de Lyanna levaram a uma mudança de planos. Enfim, fica claro que o direito de uma dinastia podia ser contestado em face de um mau reinado, como era o caso, uma vez que havia prerrogativas legais para fazer tais mudanças.

Mas quando se conquista, há realmente tanta importância a prerrogativas e direitos?

Afinal de contas, a quem Westeros pertence?

Muito se é criticado a Robert pelo que ele fez, afinal de contas ele "tomou o trono dos Targaryen que lhes era de direito e por isso quero que a Dany volte a Westeros e tome o que é dela com fogo e sangue!". Entretanto, será Robert tão diferente de Aegon I, o Conquistador, que com um pequeno exército e seus três dragões conquistou Westeros três séculos antes, unificando seis dos sete reinos em um só? Porque a atitude de Aegon é melhor vista do que a de Robert?

É uma ideia que tenho alimentado há algum tempo. Os feitos de Aegon são cantados e louvados, ao passo em que pedras e mais pedras são atiradas contra Robert - especialmente por muitos do fandom Targaryen. Não me levem a mal, curto demais os Targaryen e sou fã da Dany, mas é preciso abdicar do orgulho cego resultante do amor pelos personagens e raciocinar algumas coisas importantes. Veja bem, Robert tinha um precedente para sua revolta. Mesmo se a "conspiração sulista" for real, os senhores tinham um precedente de certa forma "justo" pra fazê-la. Mas, qual o motivo de Aegon? Por que fazer o que fez? Exatamente como Sor Jorah Mormont diz a Dany:

"Perdoe-me, mas seu antepassado, Aegon, o Conquistador, não conquistou seis reinos por direito. Não tinha direito sobre eles. Conquistou porque pôde."

Essa frase mata a charada toda. Na verdade invalida todos esses argumentos dela de que deve voltar a Westeros porque o trono é seu por direito. Até porque, quem se importa com o que ela está fazendo? Ok, temos os Martell que secretamente tem conspirado em favor dela ao longo dos anos, mas apenas porque Elia Martell, irmã do príncipe Doran e esposa de Rhaegar, foi estuprada e morta no Saque de Porto Real, assim como sua filha Rhaenys. Uma vez que seu filho Aegon foi revelado pra estar vivo e já está em Westeros pronto para tomar o continente, o apoio da Casa pode mudar. E ainda mais quando chegar a notícia de que Quentyn, filho de Doran, foi morto pelos dragões de Dany. Além disso, como expliquei no post anterior, talvez ela não seja a rainha que Westeros precisa agora, enquanto não adaptar-se inteiramente ao lema de sua Casa, "fogo e sangue". Se ela tomar o continente, será como uma conquistadora, e não como "a herdeira de direito".

"Westeros foi o reino do pai dela. Deixe que Meereen seja o seu." A Dança dos Dragões

Essa questão de direitos me parece bastante simples, não importa quanto as pessoas dizem que a Dany merece o trono por ter sido o pai dela. Robert não é pior do que Aegon, que não é pior do que os ândalos ou os primeiros homens. Esses povos foram invasores estrangeiros que invadiram o continente ao longo dos milhares, sendo responsáveis pelo quase extermínio dos primeiros habitantes de Westeros, os filhos da floresta. São esses os legítimos donos do continente, já que essa questão de legitimidade importa tanto.

A rígida justiça de Stannis e seus direitos

Uma vez que os filhos de Robert com Cersei Lannister não são realmente seus e sim frutos do incesto, o verdadeiro herdeiro dele é seu irmão Stannis. É claro, os prognósticos não lhe são favoráveis: seu caráter rígido e gélido inspiram pouco amor, sua justiça férrea não é bem vista por uma sociedade hipócrita e por vezes amoral, a mulher vermelha que o acompanha, a sacerdotisa Melisandre, é uma fanática religiosa que inspira tanto admiração quanto desprezo, e suas forças são ínfimas. Em muitos aspectos, Stannis é o espelho invertido de Aegon. Lutando ferrenhamente por seus direitos e disposto a trazer uma justiça violenta aos Sete Reinos, o que é claro lhe dá muitos inimigos. Um homem trágico, de um fim provavelmente trágico, mas nem por isso deixa de ser um dos meus favoritos.

A razão pela qual torço por Stannis é simples: ele é o rei de quem Westeros precisa. Acima de direitos, legitimidade e razões afins, sua noção prática e dura de justiça é a ideal para um reino que sangra por causa de jogos de poder de homens e mulheres inescrupulosos. Mais do que isso, ele é astuto e usa os recursos que tiver. Graças a Melisandre, ele tem consigo um apoio mágico/religioso deveras útil, embora questionável. Afinal de contas este é um homem justo, mas não é a justiça que encontramos no honrado Ned. Isso fica claro quando a sombra de Melisandre mata Renly, seu irmão caçula e que também tinha se lançado na disputa ao trono, no segundo livro. É um ato truculento e controverso, e não digo que concordo que tenha sido feito. Mas o próprio Stannis demonstra várias vezes que aquilo o marcou profundamente, e é algo que levará pelo resto de sua vida. 

Ainda mais inestimável do que o apoio de Melisandre porém, é o de Sor Davos, que serve muitas vezes como a bússola moral de Stannis. Graças a este homem é que ele entende que precisa lutar por seu reino, e por isso o vemos salvando a Muralha dos selvagens no terceiro livro. Na Dança ele não tem nem Davos nem Melisandre, mas continua em sua campanha para trazer o Norte à sua causa, e há de se dizer que ele tem obtido sucesso em sua empreitada, com Winterfell sendo o próximo passo. Acredito que a campanha de Stannis crescerá favoravelmente no próximo livro, mas isso significa que será ele o detentor do trono? Acho que não, por mais que isso me entristeça. No entanto, continuo na torcida por ele.

Mais do que o "rei ideal", eu vejo que o reinado de Stannis teria sido perfeito se ele e Renly tivessem unido suas forças. Sendo o primeiro um rei para guerra, ele certamente seria capaz de acabar com a Guerra dos Cinco Reis em pouco tempo com o apoio dos Tyrell e do irmão, e se nomeasse este como seu herdeiro poderíamos ver o caçula Baratheon usando suas habilidades diplomáticas e conciliatórias (uma característica mais comum a Robert do que a Stannis, certamente) para garantir a paz após a guerra, a calmaria que sucede sua tempestade, em seu reinado. A aliança dos dois seria fatal aos inimigos, e teria mudado muitos rumos. Mas nenhum estava disposto a ceder um pelo outro, tampouco se aliar, ainda mais com a questão de direito envolvida. Se tivessem olhado além do orgulho e de legitimidades desnecessárias... ah, como teria sido tudo diferente.

Conclusão e pensamentos finais

Enfim, fica claro que a posse do trono por razões legais é um aspecto muito frágil e controverso na saga. Uma vez que não há leis escritas em Westeros e sim um aparente "contrato social" estabelecido praticamente, torna-se quase que impossível determinar a legalidade daquele que se senta no Trono. Ainda mais considerando a situação atual, onde temos um pretendente Targaryen tomando as terras da Tempestade, Stannis no Norte e o filho de um incesto no trono, além das campanhas incessantes dos Greyjoy.

Quando me aventurei a tratar desse assunto me senti ambicioso e ousado. Até porque meu conhecimento de história é bom, mas nem de longe quanto alguns amigos e conhecidos meus, a quem devo muitas das impressões postas aqui. No mais, são ideias e concepções acumuladas por intermédio de conversas e reflexões, assim como leituras de teorias e tópicos de blog. Não é algo 100% original, mas aqui vão os devidos créditos.

E já que eu não tratei de tudo o que poderia tratar, o próximo post será sobre dois dos mais enigmáticos personagens da histórias: Mindinho e Varys. 

Os aspectos da liderança - ASOIAF e as lições sobre o poder e governança pt. 1.

[Contém spoilers d'As Crônicas de Gelo e Fogo. Você foi avisado.]

– Posso deixá-lo com um pequeno enigma, Lorde Tyrion? – não esperou resposta. - Numa sala estão sentados três grandes homens, um rei, um sacerdote e um homem rico com o seu ouro. Entre eles está um mercenário, um homem pequeno, de nascimento comum e sem grande inteligência. Cada um dos grandes pede a ele para matar os outros dois. "Faça isso", diz o rei, "pois eu sou seu governante por direito". "Faça isso", diz o sacerdote, "pois estou ordenando em nome dos deuses". "Faça isso", diz o rico,"e todo este ouro será seu". Agora, diga-me: Quem sobrevive e quem morre?
(...)
- O poder reside onde os homens acreditam que reside. Nem mais, nem menos.
- Então o poder é um truque de mímica?
- Uma sombra na parede - Varys murmurou. - Mas as sombras podem matar. E muitas vezes, um homem muito pequeno pode lançar uma sombra muito grande."

Esse interessante diálogo entre Lorde Varys e Tyrion Lannister no livro "A Fúria dos Reis" é decerto um dos mais interessantes de toda a saga d'As Crônicas. Nesta conversa, somos conduzidos à reflexão acerca do maior objetivo dos jogadores dos Tronos: o poder. Mas de onde ele emana? Como o eunuco afirma, ele emana de onde as pessoas acreditam que possa emanar. O poder, sendo tão mutável e variável, é obtido de diversos meios, da forma com o que convir. E isso é brilhantemente retratado na série, através da disputa pelo Trono de Ferro, do uso da religião como uma aliada, do caráter bélico dos dragões.

Mindinho: "Conhecimento é poder".
Cersei (após ordenar diversas ordens aos soldados, incluindo ameaçar matar Mindinho): "Poder é poder."

Temor e amor: os ensinamentos maquiavélicos sob a ótica dos governantes em ASOIAF

A Rainha Dragão, sua governança em Meereen e consequências

"É melhor ser temido ou amado?" Com essa pergunta, Nicolau Maquiavel oferece sua interessante, brilhante e singular visão sobre o caráter de um devido governante em sua magnum opus, "O príncipe". E é visível que Martin traz essa visão para dentro de sua obra, refletindo-a em duas figuras distintas: Daenerys Targaryen e Tywin Lannister. A primeira, pretendente de uma dinastia caída que almeja retornar a Westeros e tomar o que é seu "com fogo e sangue", e o segundo o Senhor do Rochedo e Mão do Rei dos reis Aerys II e de Joffrey I e Tommen I. 

Em seu processo de tomar Westeros Dany toma as cidades dos escravagistas, modificando todo um sistema baseado na escravidão há milhares e milhares de anos. Tais cidades, herdeiras do império Ghiscari (cuja relação conflituosa com a antiga Valíria, o império de origem dos Targaryen, é facilmente associada à Roma e Cartago no nosso mundo), se veem subservientes a esta nova dominante de diferentes formas. Em Astapor, ela reorganiza as lideranças e massacra os Grandes Mestres. Em Yunkai, ela poupa os Grandes Mestres em troca da libertação dos escravos. E em Meereen decide se tornar rainha. Até aí tudo bem, mas a final do terceiro livro começamos a entender as implicações de suas escolhas.

Isso é ainda mais explorado no quinto livro, "A Dança dos Dragões". Os capítulos de Dany neste livro têm sido alvo de diversas críticas, com muitos afirmando que trata-se de um retrocesso, que ela no livro apenas quer dar pro Daario (seu amante) que ela se revela uma terrível rainha. Confesso que pensava assim de certa forma no início, mas as releituras subsequentes me fizeram mudar meus pontos de vista. Não só as releituras, como principalmente um blog excelente chamado "The Meerenese Blot", que se dedica a desmistificar essas maldosas impressões, que cegam muitos leitores do verdadeiro objetivo de Martin com a personagem. Como o autor do blog afirma, a subtrama de Meereen serve para mostrar a luta de Dany contra si mesma. Por que ele afirma isso? Por causa de uma frase de Willian Faulkner que Martin leva como máxima na obra (e que já mostrei aqui em um post anterior sobre ASOIAF): "o coração em conflito consigo mesmo é a única coisa sobre a qual vale a pena escrever". 

Ao longo da Dança a personagem cada vez mais cede em favor de um reinado estável. Para evitar mais mortes pelos assassinos conhecidos como a Harpia, ela concorda em casar com um meereneense. Para garantir que não seja vista como uma estrangeira truculenta concorda que práticas na cidade, desprezíveis aos seus olhos, sejam retomadas. Para evitar a guerra contra os yunkaítas e tantos outros inimigos, concorda que a escravidão do lado de fora das muralhas de Meereen seja restabelecida. Como um dos personagens afirma: "aquele que ser o rei dos coelhos deve por as orelhas de abano". Dany sacrifica mais e mais de si mesmo, por mais relutante que esteja, em prol do que ela mais sonha: paz. Mas será isso suficiente? Até porque, quando ela sobe em seu dragão Drogon e some da cidade, a guerra se torna inevitável.

É interessante ver essa disparidade entre a Dany "conquistadora" da Tormenta de Espadas e a Dany" humana" da Dança dos Dragões, e é dessa suposta diferença que vêm as maiores críticas. Especialmente porque o sonho de muita gente é vê-la em Westeros. Só pra constar, esse não é meu sonho: quero vê-la erguer seu próprio império em Essos. Mas voltando ao assunto: essa suposta disparidade revela que Dany possui culhões pra ser esse governante cujo perfil é traçado por Maquiavel em "O Príncipe". Um governante ideal que inspira confiança e amabilidade aos seus súditos, capaz de atendê-los quando necessário e ser atento às suas necessidades, mas que também sabe como governar com mão de ferro e ser duro quando tem de ser duro, justo quando o momento pede justiça. Talvez a trama de Dany seja sobre amadurecimento do caráter ideal de governança, mas é fato que até agora ela tem se mostrado muito mais "amada" do que "temida". Isso é evidente em passagens como no primeiro livro onde ela tenta ser uma jovem de ser estuprada (o que em nada adianta, pois após a morte de seu marido Khal Drogo e a subsequente dissensão de seu khallasar a garota é estuprada e morta). Na Dança Dany reflete sobre os astaporis sofrendo da terrível doença chamada "égua descorada" que vêm até ela pedindo ajuda, questionando-se se não criou milhares de "Eroehs". Muitas de suas decisões que ela toma são moralmente questionáveis (assim como a de Jon Snow na Patrulha da Noite), mas quais alternativas ela tem, na verdade? Martin genialmente a põe em labirintos e lugares sem saída, fazendo com que ela tenha de tomar a decisão com menores riscos, mas não exatamente a melhor. E isso mostra como estar exatamente no topo do mundo não é bom quando milhares de vidas estão em suas mãos.

Se Dany ainda não foi lapidada para ser uma governante com mão de ferro, como pode ser a rainha ideal para uma Westeros que sangra e agoniza?

O Senhor do Rochedo, um rei oculto

Ao passo em que Dany é conhecida (e criticada) por sua piedade, tal característica definitivamente não é associada a Tywin Lannister. Poucos personagens são tão odiados e admirados em igual medida quanto ele, e confesso que não sei direito o que pensar deste homem. Se por um lado o odeio pelo tratamento frio e às vezes amoral que dá aos filhos (especialmente Tyrion), o admiro pela sua suprema inteligência e habilidade enquanto jogador. Tendo herdado o controle de sua Casa ainda jovem, Tywin governou com extrema mão de ferro para limpar o nome de sua família após a governança vergonhosa de seu pai Tytos. Com vinte anos ele destruiu os Reynes de Castamere que se sublevaram ao seu pai, o mesmo acontecendo com os Tarbeck. Isso o fez ser nomeado Mão do Rei por Aerys II, "O Rei louco". Quando fica claro que ele é quem governa os Sete Reinos com sua eficiência fenomenal logo a inveja do seu rei passa a acometê-lo (além do fato de que Aerys nutria desejos pela esposa de Tywin, Joanna - com a possibilidade de ser pai dos seus filhos, embora seja uma teoria na qual não acredito). Sofrendo com essa inveja insana por vinte anos, é de se entender porque Tywin reservou ao último momento a decisão de apoiar ou não Aerys na sua guerra contra o rebelde Robert Baratheon, gerando o saque de Porto Real e a morte do rei louco pelas mãos de seu filho Jaime.

Quando a série se inicia, toda uma visão negativa aos Lannister é formada na mente de muitos. Mas se não há vilões nesta série, por que os Leões do Rochedo são associados como tal? A subversão em nossas mentes é feita sutilmente pelo Martin ao longo dos livros, mostrando que estes personagens não são quem parecem ser na superfície. De fato, há uma passagem na Tormenta em que Kevan, irmão de Tywin, defende-o de forma emocionante e brilhante. Trata-se de um homem cruel, mas a vida o tornou cruel - tirando o resto de sua humanidade quando Joanna morre no parto de um filho anão. Sua "crueldade" em desprezar Tyrion, armar o RW, saquear a capital do reino e outros atos tão "vis" não diminuem sua inteligência soberba, que fazem dele um dos personagens mais fascinantes de toda a série.

"... Lembro-me da primeira vez que o meu pai me levou à corte, Robert teve de ir de mãos dadas comigo. Eu não podia ter mais de quatro anos, o que significa que ele devia ter cinco ou seis. Depois concordamos que o rei tinha sido tão nobre como os dragões eram temíveis. Anos mais tarde, nosso pai disse-nos que Aerys tinha se cortado no trono naquela manhã, e por isso a sua Mão tomara o lugar dele. O homem que tanto nos impressionou foi Tywin Lannister."”  Stannis Baratheon

Entretanto, é claro que estes atos vis e sua governança rígida fazem com que pouco amor seja inspirado por Tywin (não que ele se importe se as pessoas o amam ou não). Como o próprio Jaime reflete no Festim dos Corvos, mesmo no Oeste ele era mais temido do que amado, e as pessoas não haviam esquecido o Saque a Porto Real. Twyin foi o rei que Westeros precisava em tempos de guerra, e graças às suas estratégias a dinasta Baratheon-Lannister ainda se mantém no poder na série, mas por quanto tempo? Arrivistas e inimigos não faltam. Embora eficiente e indefectível na política, Tywin falhou como pai, e mesmo que seja compreensível que sua melhor parte tenha morrido com Joanna isso não o torna um patriarca melhor. Ele governou por intermédio de reis, e foi mais rei do que aqueles a quem serviu, mas talvez ainda não seja o governante ideal que Maquiavel teoriza, apenas nos tempos de caos como os vividos nos livros atualmente.

"Os homens são idiotas, Jaime. Até mesmo aqueles que nascem de mil em mil anos."  Genna Lannister sobre Tywin

Conclusão e pensamentos finais

Sendo o Senhor do Rochedo e a Rainha Dragão os dois lados da mesma moeda, pergunto: quem melhor governaria Westeros? É uma pergunta quase retórica. Por mais que eu seja fã da Dany, não vejo os Sete Reinos como o destino dela, e foram seus capítulos na Dança que me fizeram crer nisso. Twyin governou o continente por vinte anos, além do seu período como Mão de Joffrey e Tommen, onde praticamente conseguiu o fim da Guerra dos Cinco Reis com cartas e penas. Entretanto, ela ainda pode vir a ser uma governante que saiba transitar tranquilamente entre o amor e o temor quando cada um for exigido de si, ao passo que Tywin não tem mais essa chance.

No próximo post falarei acerca de uma certa teoria, dos direitos de governança e legitimidades.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

There are no men like me. Only me.

A subversão na escrita de George R.R. Martin é um dos muitos reflexos da genialidade do autor e do quanto ele acertou ao escolher uma estrutura de capítulos narrados em 3ª pessoa limitada, contando com o uso de vários narradores. Aqui eu quero focar no personagem no qual essa subversão de mentalidade é mais explícita: o Regicida, Jaime Lannister.

Esse texto contém spoilers d'As Crônicas de Gelo e Fogo.

Ao longo dos livros há um natural processo de desconstrução da imagem que criamos a respeito deste personagem no início. Sob a personalidade amoral e arrogante, típica de um guerreiro inigualável, esconde-se um homem deveras complexo e multifacetado, nem herói nem vilão. Um dos mais humanos personagens das Crônicas - e o meu favorito, ao lado de seu irmão Tyrion.

Quando conhecemos Jaime, sabemos quem ele é através da ótica de Ned Stark. Os atritos entre Stark e Lannister ocorrem há anos, desde que o Regicida fez por merecer seu apelido: matando o último rei Targaryen, Aerys II, "O Rei Louco". Ned é um homem honrado, e um regicídio é algo com o que não pode lidar - mesmo que o rei em questão tenha provocado a morte de seu pai e de seu irmão mais velho. Ele não é o único a pensar assim: as pessoas  em geral não têm uma boa impressão do filho do poderoso Tywin Lannister.

Pior: através dos olhos de Bran vemos cometer o abominável ato do incesto com a irmã Cersei. E quando o garoto é pego ele simplesmente diz "as coisas que faço por amor" e o joga de uma torre, para deixá-lo paralítico. Como não odiar um homem que mata seu rei, transa com a própria irmã e joga crianças de torres? E os Lannister são pintados como vilões aos nossos olhos, exceto Tyrion. Inevitavelmente Jaime conquista o ódio da maioria dos leitores. Como eu.

Contudo Martin está apenas preparando terreno para suas reviravoltas...

Jaime... meu nome é Jaime...

A partir do terceiro livro, A Tormenta das Espadas Jaime se torna um dos narradores da história, narrando 9 dos 82 capítulos deste livro. E então vem a surpresa. Ele não é nada do que esperávamos. Quer dizer, ele ainda fez o que fez, e não se ressente de sua amoralidade e orgulho, mas no fundo este não é o vilão que pensávamos que fosse. Na verdade para muitos a mudança de mentalidade em relação a ele já vem desde o livro anterior, A Fúria dos Reis, onde ele tem um diálogo fantástico com Catelyn Stark acerca de juramentos e hipocrisias. Como o Comediante em Watchmen, este é um homem que tem total e completa noção do mundo podre em que vive, fazendo parte desse podre.

Como seus irmãos, ele julga estar suficientemente protegido pelo nome Lannister, até mesmo em momentos de adversidade. E eis que... os mercenários conhecidos como Bravos Companheiros (ou como Saltimbancos Sangrentos) cortam sua mão direita. A mão da espada, a mão da luta, a mão que dá prazer a Cersei. A mão que significa tudo o que ele é. Tendo perdido seu bem mais valioso, como ele poderá viver? Se faz necessário reinventar, reavaliar seus próprios conceitos, e se Jaime já não é aquele homem que pensávamos que fosse, a partir daí passa por um processo de metamorfose que o definirá não só como um novo homem em termos de espírito e personalidade, mas como um favorito de muitos fãs, fãs estes que o demonizavam e o vilanizavam. Como está escrito na sinopse do quarto livro, O Festim dos Corvos, "Todos sabem que o Regicida é um homem sem honra. Ou será que estão todos errados?"

Para muitos, o momento definitivo da mudança de mentalidade quanto a ele reside na cena em que conta a Brienne de Tarth a verdade sobre o Saque de Porto Real e seu regícidio. Descobrimos que Aerys planejava queimar a cidade com fogovivo e assim matar seus 500.000 habitantes, apenas para que o usurpador Robert Baratheon pudesse ser rei de uma "cidade em cinzas". Sendo assim, seu ato mais infame é na verdade seu ato mais humanitário e glorioso. Ao invés de contar a verdade ele omite aquele fato, pois sabe que ninguém acreditará - e quando Ned Stark o vê com seus olhos frios de julgamento, fica claro que ele será julgado pelo resto da vida.

O que está em jogo aqui é nada mais do que nossos próprios julgamentos. Através de um personagem fictício Martin nos convida a uma das mais profundas reflexões possíveis: o quanto somos melhores que os outros para poder fazer pré-concepções? O que nos dá o direito de sermos tão julgadores? A subversão que pontuei no início do texto se refere exatamente a isso. O autor nos dá uma gama de personagens complexos que podem ser julgados das mais diversas formas. "Um ato bom não lava os maus, e um mau não lava os bons(...)". ASOIAF oferece uma gama de personagens complexos jamais vista na história da literatura, e essa ausência de vilões e mocinhos é um de seus maiores méritos, uma de suas marcas registradas. E Jaime é o exemplo perfeito disso.

Essa "confusão" que o autor faz conosco não se expressa apenas em relação ao ato do regicídio. Numa sociedade medieval onde os casamentos são arranjados e o amor é uma palavra banal que as pessoas parecem não entender, um dos relacionamentos mais sinceros é um... incesto. É Martin novamente explodindo nossas mentes, quebrando paradigmas. Usando uma das práticas mais abomináveis em diversas culturas para retratar um dos poucos casos de amor verdadeiro na série. Ou melhor amor meio-verdadeiro. Porque vemos que Jaime jamais amou ou dormiu com alguém que não fosse Cersei, é devoto a ela e pensar em sua amada é o que mais lhe motiva a viver ao longo dos infortúnios que enfrenta no terceiro livro. Mas a recíproca não é necessariamente verdadeira: Cersei ama o poder e a si mesma, e só ama o irmão porque ele é seu espelho invertido, não hesitando em dormir com outros homens se isso vai lhe trazer benefícios. Consequentemente, ao longo do Festim temos a desconstrução desse relacionamento quando as verdades vêm a tona. Eu torço para que Jaime fique com a Brienne no final - eles são tão opostos, mas fazem tão bem um ao outro, que se merecem. Mas é ASOIAF, galera. E não se pode haver expectativa de finais felizes nesta série, ainda mais na situação que Jaime se encontra agora.

Conclusão e pensamentos finais

Pois então, por fim quero deixar registrado que venho sonhando em fazer uma análise completa do Jaime há um bom tempo, pelo fato de ele ser meu personagem favorito (sinto que mais que o irmão, ultimamente). Talvez nem todas as palavras usadas aqui tenham sido suficientes para registrar todas as minhas impressões acerca dele, principalmente porque ele é um personagem complexo demais e que renderia mais e mais discussões. Eu poderia dedicar um texto só pra relação dele com a irmã, de tão complexa que é. O que é unilateral em ASOIAF? Quase nada. Essa é uma série cujas releituras adicionam mais profundidade e entendimento, ao passo em que todas as leituras podem não lhe revelar de verdade o que está acontecendo. Em suas múltiplas camadas, revela um senso de coesão e inteligência que tem inspirado muitos por aí (eu inclusive). E espero grandes feitos pro Regic... Jaime.

sábado, 31 de agosto de 2013

O universo dentro de um livro, pt. 1 - ASOIAF e os reflexos dessa série em minha vida.

Pessoal, antes de tudo peço desculpas por não ter postado ontem. Foi um dia cheio de responsabilidades e pouquíssimo tempo tive para o computador (ou seja, não foi um dia comum pra mim). Mas enfim, here we are, e vamos continuar com mais postagens. Dado que meu último post anteontem foi sobre a minha relação com a escrita, acho válido que sua sequência seja sobre minha relação com a leitura e a importância desta em minha vida.

Já que no meu post anterior eu já dei pinceladas da minha relação com a literatura para explicar minha vocação para a escrita não vou me ater muito a essa parte. Mas bom, já expliquei que em certo período da minha vida deixei de ler no ritmo dos primeiros anos da segunda infância, embora nunca deixando realmente o hábito de ler. Por volta de 2007 e 2008 passei a criar interesse na fantasia, expressa em minhas leituras d'As Crônicas de Nárnia, Harry Potter e posteriormente Percy Jackson. Mas a série que definitivamente resgatou meu gosto pela leitura, seja a fantástica ou de tantos outros gêneros, foi As Crônicas de Gelo e Fogo.

Se você não esteve fora da Terra nesses últimos anos então deve ter ouvido falar da aclamada série Game of Thrones. Pois bem, As Crônicas de Gelo e Fogo (ou A Song of Ice and Fire, seu título original em inglês cuja abreviação, ASOIAF, é o modo como irei me referir a ela) são os livros que originaram o seriado. E você sabe né? O livro é sempre melhor que o filme/a série. E por Deus, nenhuma série revolucionou meus pontos de vista como ASOIAF.

O motivo pelo qual digo isso é que o autor, George R.R. Martin, genialmente subverte alguns dos mais clichês que sempre estiveram presentes na fantasia. Não há heróis ou vilões. Apenas pessoas falhas, com defeitos e qualidades, que podem se render ou se corromper, agindo em favor de seus próprios interesses ou obtendo a chance de agir em favor dos outros. A fantasia não é o foco, e sim um elemento integrante do universo onde a história se passa, com o foco sendo nas intrigas de poder, a disputa do Trono de Ferro que deu nome ao primeiro livro e à série. Contudo, a magia está lá, inicialmente aparecendo de forma meio que implícita, para gradualmente crescer e estabelecer sua importância dentro do contexto da série.  Como o próprio Martin gosta de fazer, eu parafraseio Willian Faulkner, que disse: "o coração em conflito consigo mesmo é a única coisa sobre a qual vale a pena escrever". 

E é claro, ninguém é imortal: qualquer um pode morrer. Já virou uma máxima chamar Martin de "assassino de personagens favoritos", e bom, isso é de certa forma verdade. Mas nenhuma morte é em vão; cada uma tem seu propósito, sua justificativa, seu peso pra série. Há abundância de elementos adultos: muita violência, sexo, palavrões. Não é coisa pra crianças. Ele lida com temas pesados, bastante atuais, embora a história se passe numa sociedade medieval. As personagens femininas são extremamente fortes e complexas, mesmo diante de uma sociedade machista e patriarcal. O uso de POVs (Points of View=Pontos de Vista) nos capítulos, oferecendo vários narradores à história, é um método genial, que nos faz saber o que pensam amigos e inimigos, tirando de nós até mesmo o direito de julgar personagens por suas ações, pois sabemos o que se passa em suas cabeças, sabemos o que o motivo, acabamos por nos afeiçoar a eles. Não raramente opiniões nossas sobre determinados personagens se alteram ao longo da série (cof cof Jaime Lannister cof cof), para o bem ou para o mal.

Como ASOIAF influencia em minha vida? Principalmente na minha escrita. Praticamente tomei pra mim o uso de POVs nos meus livros, especialmente em "As Terras do Caos", que segue uma linha parecida com a obra de Martin. Mesmo n'As Crônicas dos Guardiões (a série a qual pertencem "O Destruidor de Mundos" e "A Última Fronteira"), que é uma série infanto-juvenil e portanto suscetível aos clichês eu tento imprimir elementos mais sérios e sombrios, bem como o uso de plot twists (reviravoltas no enredo), em consonância com o que eu aprendi lendo ASOIAF. E não sou só eu: tem se visto realmente uma quebra de paradigmas na literatura fantástica nesses últimos anos, um reflexo da importância dessa série na literatura atual, que ao quebrar clichês deu a jovens e velhos autores a possibilidade de inovar num gênero conhecido por seus lugares-comuns.

Inicialmente minha intenção era tratar de toda a questão da literatura em um único post. Mas sempre que começo a falar de George R.R. Martin e sua magnum opus eu corro sérios riscos de devanear. Por isso no próximo post tratarei da importância da literatura em geral, não só em minha vida como para qualquer um.