É muito difícil eu dizer isso de um filme, mas desta vez é realmente preciso: "Trapaça" é superestimado. É inegável que David O. Russell é um ótimo diretor, assim como é louvável sua "renascença", mas seu mais recente filme não é apenas fraco se comparado com seus concorrentes na corrida de prêmios que culmina no Oscar, como também em relação aos anteriores do diretor, "O Vencedor" e "O Lado Bom da Vida".
Aliás, tanto "O Lado Bom..." quanto "Trapaça" tem o feito de terem sido indicados nas quatro categorias de indicação ao Oscar. Mas analisando agora, será realmente merecido? Afinal de contas, são filmes que funcionam melhor pelos conjuntos, não por uma atuação aqui ou acolá. No caso de "Trapaça", esse caso é ainda mais explícito. Bale faz uma boa atuação como Rosenfield, e é impossível não se impressionar com mais uma metamorfose física desse cara. Mas ser indicado ao prêmio de Melhor Ator? Acho que não. O mesmo vale pra Cooper e Adams (esta está mais linda do que nunca, é realmente o papel mais sexy de sua carreira): competentes, mas não excepcionais. Lawrence se destaca no seu papel de uma esposa bipolar e instável (além de linda como sempre), rendendo o maior número de risadas (escassas, aliás), mas definitivamente não é a estrela do show. Jeremy Renner, Louis C.K. e Robert DeNiro - numa participação especial - também têm destaque, mostrando como esse é um filme coletivo, onde o todo vale mais do que a soma de suas partes.
Se por um lado o elenco é o grande destaque do filme, por outro a história não empolga. O filme ora se arrasta, ora avança dignamente, mas à exceção de momentos particulares (como a cena do jantar com os mafiosos e o final, um plot twist digno) não é 100% envolvente. O maior mérito do roteiro é levar à máxima o preceito diversas vezes abordado aqui, "as pessoas veem o que querem ver", ao ponto do próprio espectador ser enganado pelos golpistas no final. Outro ponto positivo é a trilha sonora bastante jazzística de Danny Elfman, que também conta com diversos sucessos do fim dos anos 70.
Mas ainda assim, não há como notar que ao longo do filme Russell tá tentando emular um diretor em especial. Seja através da trilha sonora rica, da ambientação, dos costumes e diversos outros elementos nota-se diversas referências ao grande Martin Scorcese. O próprio personagem de DeNiro, um matador a serviço da máfia, evoca o tipo "chefão do crime" que o marcou em The Godfather pt. II e nos filmes de Scorcese.
Como outros já apontaram por aí, "Trapaça" parece uma versão mais comportada, divertida e glamourosa dos filmes do consagrado diretor. Contudo, não deixa de ser inferior. Basta comparar com "The Wolf of Wall Street", também lançado esse ano. Tendo assistido ambos os filmes, posso afirmar com propriedade: "The Wolf" é infinitamente superior. Mesmo sendo consideravelmente mais longo, a sensação que tive foi a de que o tempo passou mais rápido o assistindo do que com "Trapaça".
No fim, este é um filme que se resume a algumas poucas palavras: "hype", "superestimado" e "caricato". É sempre mais do que parece ser, e no entanto é menos do que foi destinado a ser. Em um ano de concorrentes fortes no Oscar, esta é uma obra que, embora não sem suas (muitas) qualidades, não deixa de passar a impressão de que poderia ter sido melhor e mais enxuta.
A primeira coisa que me fez assistir a esse filme (admito -q) foi a Amy Adams, pois tenho só amores por ela, e também o Bale, que desde que assisti "O Operário" quis começar a prestar mais atenção na carreira dele.
ResponderExcluirFoi um ótimo filme, fiquei meio que "entediada" em alguns momentos, mas o final realmente surpreende e no fim eu gostei bastante. Mas como tu disse, talvez, não mereça essas indicações ao Oscar. Aliás, minha humilde opinião é que o Oscar é mais pra filmes de diretores glamurosos e atores em evidência, do que pra filmes realmente awesome, mesmo eu não tendo tanto conhecimento assim sobre cinema!
Parabéns pela resenha maravilhosa!!!!
Ah Taina, assim você me encabula!
ExcluirConcordo ipsis litteris contigo sobre essa questão do Oscar. É um prêmio bastante tendencioso, você o prevê pelas premiações que o antecedem (Globo de Ouro, Bafta, SAG Awards, etc.). Sinceramente? Sou mais o Saturn Awards, que é voltado pros tipos de filmes que eu gosto: fantasia, sci-fi, ação, aventura e tal. Esse sim é o melhor prêmio do cinema ever :v
E mais uma vez, obrigado pelos seus comentários que sempre acrescentam e muito aos meus textos!