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sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Star Wars - O Despertar da Força



Deixe-me começar essa resenha deixando uma coisa bem clara: Star Wars é a saga da minha vida. A maturidade pode ter me trazido consciência de que os filmes possuem sim suas falhas, mas desde moleque tenho paixão pelo universo criado por George Lucas e que agora continua nas mãos da Lucasfilm e da Disney, que esse ano nos trazem o filme mais aguardado do nosso tempo: O Despertar da Força.

Há cerca de um mês postei aqui uma análise de como poderia ser o filme (http://blogdochup.blogspot.com.br/2015/11/tentando-desvender-star-wars-force.html), e agora que o assisti é engraçado voltar pra esse texto e ver o que acertei ou errei. E não tão engraçado ver que alguns dos meus pedidos não foram atendidos...

A primeira coisa que temos de deixar claro é: para o bem ou para o mal, O Despertar da Força cumpre o que promete.

"Vinícius, como assim 'para o bem ou para o mal'?". Permita-me explicar, e me perdoe se soar chato, mas este não é um filme perfeito. Assisti eufórico, me exultei e saí satisfeito, mas há falhas sim. No meu texto de especulações já tinha deixado claro minhas preocupações se esse filme seria um mero "Uma Nova Esperança" em 2015. E embora ele é muito mais do que isso, não deixa de reciclar (muitos) elementos do primeiro filme da saga. Personagem confiando a um robozinho fofo algo importante para ficar longe dos vilões? Confere. Figura sinistra que seduziu o vilão do filme para o Lado Negro? Confere. Uma super-arma que destruirá planetas (nesse caso, sistemas)? Também. Relações familiares "reveladoras"? Sim. Está tudo lá, de novo. Isso gera conforto? Gera. Mas enquanto não me importava de reencontrar esses elementos dos filmes antigos, queria vê-los de forma mais dosada, ou sendo subvertidos. Talvez tenha faltado ousadia do Abrams, não sei... mas para algo eles ousaram. Algo que me destruiu. 

(Mas só assistindo pra vocês saberem)

Por outro lado, não há como amar cada referência (já tava pulando na cadeira quando Rey e Finn falaram sobre uma certa "sucata", e gritei junto com o resto do cinema quando a Millenium Falcom enfim apareceu). Cada aparição de um personagem clássico eram gritos e aplausos. 



O engraçado é como esse filme foi de certa forma transicional. Normalmente, analisando-se sob a ótica da "jornada do mito", temos a passagem da tocha, a transição entre o velho e o novo. Nesse caso, os nossos "guias" para esse velho universo (mas com ares de novo) foram justamente Han e Chewie, nossos mais adoráveis piratas espaciais - e que não à toa são os personagens antigos com mais tempo em tela aqui. Chewie com seus rosnados e sons característicos, que nos dizem tudo, e Han... ah, o que falar do meu personagem favorito? 30 anos depois e ainda o mesmo canalha, o mesmo "old dog", mas envelhecido, com uma sombra pairando sobre ele. Uma sombra que muitos já esperavam.

Mas quem rouba a cena mesmo são os novos protagonistas. Você tinha dúvidas de que uma catadora e um ex-Stormtrooper suportariam o fardo de levar essa saga para toda uma nova geração? Bom, não terá mais. Daisy Ridley e John Boyega são dois atores fantásticos, completos achados. A Rey de Ridley não é apenas linda e um amorzinho: ela é forte, ela é durona, ela é uma ótima pilota, ela não precisa de alguém segurando sua mão  na hora de fugir. Ela é a heroína que precisamos, aquela que ao lado de Imperatriz Furiosa e Jessica Jones mostra que lugar de mulher é onde ela quiser - inclusive em sua saga favorita. Apenas aceite isso. 

E ELA VAI LEVAR O CINEMA À LOUCURA NO TERCEIRO ATO. MAS NÃO VOU FALAR MAIS NADA!

O Finn (anteriormente FN-2187) de Boyega é feito de um material diferente. Ele não apenas traz humanidade a um exército de indivíduos arrancados de sua família e recondicionados com um único propósito (e espero que isso seja mais explorado adiante), mas como é um alívio cômico que sabe nos fazer rir, ao invés de nos irritar (Jar Jar, essa foi pra você). Além do mais, ele é um herói (se é um Jedi ou não, não cabe a mim te dar a resposta) e tem uma química maravilhosa com a Rey - de parceiros de luta, de amigos e - quem sabe futuramente? - de um casal.



Poe Dameron é um bom personagem, meio presunçoso mas completamente habilidoso no que faz, mesmo carecendo de mais tempo de tela (apesar de ser crucial no primeiro ato do filme). O mesmo não pode ser dito da Capitã Phasma da nossa eterna Brienne de Tarth, Gwendoline Christie. Para uma personagem que prometia ser badass, ela aparece muito pouco para nos causar alguma impressão. Mas já sabemos que ela voltará no EP. VIII (isso não é spoiler, já foi confirmado antes mesmo do filme lançar). E o que falar de BB-8? Se você achou R2-D2 adorável, vai simplesmente se apaixonar por essa bola e querer ter um pra si. Sério, que coisa fofa! MEU DEUS DÁ VONTADE DE MORDER! 



Mas o que seria de uma saga sem seus vilões, não é? Novamente "reciclando" um conceito de uma Nova Esperança, temos duas lideranças com abordagens distintas, obedecendo a uma figura maior. Falarei primeiramente de uma dessas lideranças e da tal figura maior. O General Hux foi uma grata surpresa. Nós vimos muito pouco dele durante a campanha de marketing de filme, e as comparações com Moff Tarkin eram inevitáveis. Mas eis que temos um homem duro, implacável, e que possui uma retórica inabalável. É marcante a cena em que ele discursa para os exércitos de Stormtroopers em Starkiller, e não podemos deixar de pensar nas associações com o Nazismo, até nos gestos feitos pelos integrantes da Primeira Ordem (e realmente espero que eles trabalhem ainda a temática política que foi um dos pontos mais fortes da trilogia prequel, nessa relação República x Resistência x Primeira Ordem). Já o Líder Supremo Snoke se mostra até imponente, mas não diz muito a que veio. Quem ele é e como se relaciona com os personagens principais com certeza serão questões pertinentes a serem respondidas nessa nova trilogia; um mote principal, com certeza.



Mas eu sei de quem vocês querem que eu fale, e lhes garanto: Kylo Ren é um vilão impressionante. Vai soar heresia para muitos, mas na minha opinião ele já se igualou ao Vader - e o supera em termos de construção emocional. Ele passa imponência e medo, mas também uma fragilidade emocional como não se via (tô desconsiderando o Anakin da trilogia prequel). Muitos podem reclamar do fato dele sem máscara não passar essa mesma imponência até porque o Adam Driver é um ator feio, mas aí entra essa questão da complexidade emocional e psicológica de que falei. Ah, e pode ter a certeza: você vai terminar o filme xingando muito ele. Muito.

No quesito técnico, o filme é um primor. Um dos aspectos mais notáveis e positivos foi a questão do ritmo apresentado. A verdade é: os filmes anteriores tem sim problemas de ritmo. A sequência em Hoth no ep. V é maior do que deveria, já que eles tinham que justificar o acidente do Mark Hamill; a sequência em Tatooine do ep. VI é exageradamente longa, com o plano de resgate de Solo na fortaleza de Jabba e a batalha sobre o poço de Sarlaac. O resgate de Palpatine no ep. III tinha de realmente consumir toda a meia hora inicial do filme? Acho que não. Mas aqui, neste sétimo episódio, em vinte minutos os personagens principais são introduzidos, o contexto é apresentado, a ação corre solta sem nunca soar muito apressada e tudo é feito com equilíbrio, sem soar exageradamente rápido ou demasiadamente enfadonho. E mesmo que o filme apresente algumas soluções muito rápidas (especialmente as referentes à Rey na segunda metade), cada ato é muito bem delineado e dosado, fazendo deste filme uma referência em questão de ritmo, ao lado de Mad Max. E sobre as lutas de sabre? Na medida certa, sem aquele "travamento" da trilogia antiga nem as piruetas da prequel. E vamos dar um desconto gente, os personagens tão aprendendo a manejar sabres de luz faz pouco tempo (o que não me impediu de gritar junto com todo mundo feito um louco na hora em que um dos personagens conseguiu usar a Força para pegar um sabre).

Abrams ainda peca com alguns de seus ângulos holandeses e seus flares, mas felizmente eles são muito poucos comparados aos seus filmes anteriores). A fotografia é excelente (me diz se não é de arrepiar a cena inicial de um Star Destroyer cobrindo um planeta inteiro), enquanto a trilha sonora do mestre John Williams, enquanto resgata muitos temas clássicos para o deleite dos fãs, não se destaca tanto com temas originais, à exceção do belíssimo tema criado para a Rey. Ainda assim, que esta lenda viva ainda muitos anos para continuar a compor para a franquia.

E é isso. Expectativas foram atendidas, fossem boas ou más. A questão é: O Despertar da Força é o filme que os fãs estavam esperando. Em sua grande maioria, foi o filme que eu queria. E mesmo que termine de forma tão inconclusiva, com excesso de perguntas e ganchos para serem respondidas nos próximos filmes (enquanto que Uma Nova Esperança era em sua maior parte um filme conclusivo em si mesmo), ele ainda é uma experiência marcante pra mim e tenho certeza de que está sendo para todas as gerações que acompanham com tanto amor essa saga maravilhosa, cujo legado se perpetua no cinema. Agora resta esperar pelos próximos episódios e as "Anthologies", e palmas pro Abrams, Disney e Lucasfilme que trouxeram um monstro de bilheterias!

Que a Força esteja conosco, amigos.



sábado, 13 de dezembro de 2014

As memórias da Terra-Média.

Fico feliz de que antes de assistir A Batalha dos Cinco Exércitos pude finalmente ler O Hobbit e O Senhor dos Anéis, depois de muito tempo postergando. Quando terminei a leitura dos livros comentei aqui algumas das minhas impressões sobre eles, palavras insuficientes pra descrever a grandeza desta obra, a magnificência dela. 

Talvez justamente por ter lido os livros depois de assistir os filmes fui menos crítico quanto a estes, embora hoje veja claramente que mesmo com a adição de muitos e interessantes materiais a esta trilogia d'O Hobbit (Dol Goldur, os prenúncios da ascensão de Sauron vista em LoTR), nada justifica a divisão em três filmes senão a fome por dinheiro dos estúdios. Isso ficou meio evidente em A Desolação de Smaug, que mesmo sendo um ótimo filme sofreu claramente daquela síndrome de "filme do meio" de uma trilogia, claramente sem um começo e fim definidos (apesar de que jogar o que devia ter sido seu clímax pro terceiro filme como sua cena de abertura tenha rendido um prólogo fenomenal para este e um cliffhanger incrível pra DoS). E Uma Jornada Inesperada, por mais que (aparentemente) seja o mais adorado pelos mais Tolkenianos, ainda sofre do fardo de sua lentidão e da infantilidade mal-disfarçada (vamos lembrar que o Hobbit foi um livro escrito pra crianças).

A Batalha dos Cinco Exércitos não compensa os erros dos anteriores, nem eleva a trilogia ao patamar de LoTR, mas wow, é um filme incrível. Mais curto (beeeem mais curto) que qualquer um dos outros ambientados na Terra-Média, ele possui duas metades distintas, além do já citado prólogo onde Smaug derrama em fogo sua fúria sobre a Cidade do Lago: a primeira trabalha toda a tensão dos exércitos que convergem pra Montanha Solitária em busca tanto de abrigo depois da calamidade quanto do tesouro que agora é reapossado pelos anões. E aqui eu preciso destacar todo o brilhantismo de Richard Armitage como Thorin, cada vez mais embebido da ganância e do poder, sofrendo da "doença do dragão". O personagem cresce significativamente, constituindo-se como uma figura trágica, um rei que é "menos do que foi". Digam o que quiserem, isso é um tapa na cara de quem diz que o Tolkien cria personagens unidimensionais. Com diferentes lados em posição, o conflito parece iminente, mas esta ainda é uma obra maniqueísta: os orcs chegam em torno dos 70 minutos, e então anões, elfos e homens se unem contra eles, marcando assim a batalha que dá título ao filme e o começo da segunda metade.

É sim um conflito grandioso, apresentando diversos elementos - as lutas às portas de Erebor, o conflito dentro das muralhas de Valle, intercalados com a própria companhia dentro da Montanha, sob as ordens de um Thorin cada vez mais conflituoso consigo mesmo. Ainda assim é uma batalha que infelizmente não alcança as glórias das de Helm's Deep ou os Campos de Pellenor da trilogia anterior (com esta última ainda se configurando como a maior cena de batalha da história do cinema), mas satisfaz. Ironicamente, seu melhor momento é justamente no final, onde os exércitos são deixados em um segundo plano pra vermos quatro anões, dois elfos e um hobbit lutarem contra o profano Azog e seus generais. 

(Aliás, quanta apelação pro Legolas hein? Na cena em que ele sobe as pedras a galera do cinema aplaudiu haha)

É aqui onde o filme atinge seus maiores feitos emocionais, mas não entrarei em mais detalhes pra não dar spoilers. Só posso dizer que um certo arco "filler" dessa trilogia é muito bem-resolvido, mesmo que de forma tão trágica (já esperada da minha parte), e o filme por fim consegue nos emocionar, trazendo um fim de certa forma agridoce. Ao final, em seus últimos minutos, o espectador/leitor vai sendo tomado de uma sensação nostálgica, na medida em que a obra vai fazendo suas conexões com O Senhor dos Anéis - conexões essas sugeridas ao longo dos três filmes, mas mais enfatizadas aqui. A última cena é a ponte entre as duas trilogias, quase uma convocação para que enfim as assistamos em ordem, como deve ser feito.

Como um amigo meu disse, o maior erro de Jackson foi querer de fazer d'O Hobbit um outro Senhor dos Anéis. São obras muito diferentes em espírito e ambição, e eu não posso deixar de fazer algumas comparações com Star Wars (até mesmo em termos de recepção crítica e de bilheteria). Não execrarei o Hobbit como muitos leitores fizeram, mas creio que a ideia original de dois filmes realmente devia ter sido respeitada. Contudo, não posso deixar de notar que a trilogia ganhou com a adição de tantos detalhes, muitos provenientes de anotações de Tolkien e/ou do Silmarillion (livro este que ainda preciso ler), e aqui fica claro que Jackson tem sim um enorme carinho e dedicação ao universo de Tolkien. Devemos agradecê-lo por, mais de 15 anos atrás, ter tido a coragem de trazer às telonas uma saga que, mesmo moldando a fantasia moderna como a conhecemos, poderia ser considerada "infilmável". O resto dessa história todo mundo já sabe. Então, mesmo que o Hobbit seja uma saga menos memorável do que LoTR (pelo menos em termos de legado para o cinema), ainda merece ser assistida, desfrutada, e encontrou em A Batalha dos Cinco Exércitos um desfecho satisfatório, senão digno.


E assim estaremos sempre voltando às páginas de Tolkien e às obras de Jackson. Lá e de volta outra vez.

sábado, 23 de agosto de 2014

A Terra-Média e eu.

Ontem terminei de ler O Senhor dos Anéis. Duas semanas atrás, peguei os livros e O Hobbit emprestados com o Jefferson para finalmente ler, após anos e anos dizendo a mim mesmo que já devia ter feito isso há mais tempo.
Ontem eu os terminei. E se houve em mim quaisquer arrependimentos por não tê-los lidos antes, era ínfimo diante de toda a admiração e paixão que nutro por essa obra magnânima.
Admito que estava com receio. Receio de achar a linguagem de Tolkien enfadonha, me perder em suas longas descrições, receio de achar que não proporcionaria a experiência que milhões de pessoas tiveram ao longo desses mais de 70 anos de existência da saga da Terra-Média. Bem, convenhamos: algumas partes cansam. Os hobbits na floresta, Frodo e Sam viajando pra Mordor. Muitas e muitas viagens, e sendo eu um cara pragmático e mais voltado para uma leitura objetiva e direta, senti realmente um cansaço nessas partes. Além de que, pelo fato de estarmos falando de um livro só dividido em três volumes, em alguns momentos ele acaba por ser bastante anti-climático. Ou alguns aspectos da própria linguagem utilizada nas conversas e pensamentos. Ou o excesso de canções.
Mas felizmente, e tenho orgulho em dizer isso, nenhum desses supostos aspectos negativos diminuiu minha visão em relação à obra. Não, eu posso dizer com certeza: DEVOREI esses livros. Li O Hobbit e A Sociedade do Anel em cinco dias cada, e As Duas Torres e O Retorno do Rei em três dias cada. Nem todos os dias eram possíveis, por causa da rotina da universidade, das minhas obrigações, mas sempre que possível lá estava eu lendo alguma passagem. Cada ida e volta da UFS, sentado no ônibus (e se possível, até mesmo a pé), lá estava eu lendo. Naquela aula chata também (sim, confesso). Em casa. Em suma, em todos os espaços que me permitiam a leitura. Estava completamente imerso naquele mundo.
No entanto, não foi exatamente a história que me fez ver a amplitude e a complexidade da Terra-Média, mas sim os longos apêndices do Retorno do Rei, onde Tolkien mostra todo o seu cuidado com a história, os reinos, as raças, as eras, as línguas, os calendários, a escrita. Como um filólogo, ele realmente se preocupou em tratar das diferentes linguagens usadas pelos povos da saga, com tanto esmero que é impossível no fim das contas não acreditar que esse mundo existe. Nem que seja na mente e coração de cada leitor. A verossimilhança da Terra-Média e de seus personagens é incontestável.
E os personagens? Ah, são tantos para se amar, odiar, admirar, desprezar. Do Frodo heróico e "seu" Sam (não posso negar que vi ali muito mais do que amizade e lealdade, mas nada que mude minha visão de que no fim das contas é Sam o grande herói, dando a seu mestre a força e o incentivo necessários quando tudo parece estar perdido), a cumplicidade de Merry e Pippin e suas consequentes interações com os antigos Ents, Gondor e Rohan (ah, o Denethor trágico e o Théoden gentil... esses personagens me marcaram, especialmente o último e sua relação paternal com Merry), a beleza e o complexidade de personagens femininas como Éowin e Galadriel, a sabedoria e os mistérios de Gandalf, a pioneira amizade de Legolas e Gimli, a majestade de Aragorn, a arrogância e queda de Boromir, o caráter digno de Faramir, o asco que Gollum nos traz, as maquinações e traições de Saruman (culminando num dos finais mais agridoces que já li), o nosso amado e divertido Bilbo e os Treze Anões... essa galeria de personagens tão complexos, memoráveis até os nossos dias e que assim o serão por anos e anos.
Por fim, chego ao peso que LoTR tem sobre a literatura fantástica. Se você é fã do gênero mas ainda não os leu, te digo uma coisa: não, você NÃO TEM a obrigação de lê-los. Mas por favor, leia, e assim entenderá o legado, o que essa saga significa para o gênero, goste ou não. E se, mesmo que no nosso mundo estejamos cansados de dualismos e maniqueísmos, de "jornadas dos heróis", entenda que de forma alguma esses livros se resumem a isso. Tolkien criou um mundo que até hoje nos influencia, nos move, nos encanta, nos entristece, um mundo como jamais existiu outro igual e que ainda é a base de muitos. E se há aqueles que insistem nas comparações ASOIAF x LoTR, só digo duas coisas: ambas as sagas são reflexos de seus tempos. E ambas são atemporais à sua maneira.

"Não gosto de nada por aqui - disse Frodo, - pedra ou poço, água ou osso. Terra, ar e água, tudo parece amaldiçoado. Mas nessa direção vai nossa trilha.
-É, é isso mesmo - disse Sam. - E de modo algum estaríamos aqui se estivéssemos mais bem informados antes de partir. Mas suponho que seja sempre assim. Os feitos corajosos das velhas canções e histórias, Sr. Frodo: aventuras, como eu as costumava chamar. Costumava pensar que eram coisas à procura das quais as pessoas maravilhosas das histórias saiam, porque as queriam, porque eram excitantes e a vida era um pouco enfadonha, um tipo de esporte, como se poderia dizer. Mas não foi assim com as histórias que realmente importaram, ou aquelas que ficam na memória. As pessoas parecem ter sido simplesmente embarcadas nelas, geralmente seus caminhos apontavam naquela direção, como se diz. Mas acho que eles tiveram um monte de oportunidades, como nós, de dar as costas, apenas não o fizeram. E, se tivessem feito, não saberíamos, porque eles seriam esquecidos. Ouvimos sobre aqueles que simplesmente continuaram nem todos para chegar a um final feliz, veja bem; pelo menos não para chegar àquilo que as pessoas dentro de uma história, e não fora dela, chamam de final feliz. O senhor sabe, voltar para casa, descobrir que as coisas estão muito bem, embora não sejam exatamente iguais ao que eram como aconteceu com o velho Sr. Bilbo. Mas essas não são sempre as melhores histórias de se escutar, embora possam ser as melhores histórias para se embarcar nelas!(...)

Pois este mundo, o princípio de todas as coisas, foi o primeiro passo para a construção do gênero literário do qual sou mais adepto, tal qual o conhecemos. E por isso lhe sou eternamente grato, Tolkien.

domingo, 27 de julho de 2014

"There is no rock in this world but our God."



"Ações falam mais alto do que palavras."


Como descrever a importância do Petra pra mim e pro rock cristão em geral? Uma banda que, nos idos de 1970, usou um estilo musical tido como "do diabo" para, vejam só, falar de Deus e da Palavra. Foram necessários mais de dez anos para o Petra obter o reconhecimento comercial e crítico de que eram dignos. Reconhecimentos esses obtidos definitivamente com Beyond Belief, seu registro mais aclamado e frequentemente considerado sua magnum opus.

Meu pai costuma brincar dizendo que ele perdeu um show do Petra em 1995 por causa do meu conhecimento. Felizmente isso foi compensado tornando seu filho um fã da banda. Mas assim como aconteceu com o Queen há dois anos atrás, mesmo conhecendo a banda há tanto tempo só nos últimos meses (graças ao Spotify) tenho realmente adentrado o universo de seus discos, seus shows, suas letras. Todo aquele amor que tive pela banda cresceu e cresce exponencialmente.

A frase que inicia esse texto é tirada da letra da música Seen and Not Heard, e para aqueles que acompanham meu blog ou até me conhecem pessoalmente, devem achá-la familiar. Pois bem, aprendi-a com meu "painho" Zica (na versão "aquilo que você faz fala mais alto do que aquilo que você fala") e a tomei como um lema para minha vida, um princípio moral, um norte. Ontem, eu estava no subway com meus colegas e sem saber como a discussão foi parar em religião. Eu e mais dois tentávamos convencer o outro acerca da importância do cristianismo. Mas nossas palavras não foram suficientes. Então eu lancei a ele, "espero que meu exemplo de vida fale mais a você do que o que eu digo". Ou algo assim.

Sabe, enquanto que eu sempre me importei mais com a música do que com a letra, nos últimos tempos sinto que não posso aplicar isso à música cristã. Não quando não sinto Deus falando naquela canção, quando me canso dos clichês "gospels". E meu amigo, se tem uma coisa no qual o Petra sabe ser excelente além de sua musicalidade é em suas letras. Claro que as traduções não podem ajudar, mas Bob Hartman, guitarrista e principal compositor/letrista da banda ao longo de seus quarenta anos de história, sabe como poucos trazer para as canções da banda a essência da Verdade, do Evangelho. Que quando têm de ser críticas são, que quando têm de ser gratificantes ou confessionais, também são.

Se tudo o que eu disse te convenceu a ouvir a banda, comece por Beyond Belief. Se não, escute-o do mesmo jeito e tire suas próprias conclusões. 



É impossível não sentir aquele "instiga" a gritar "hey-ey-hey-ey-ey" que surge nos primeiros segundos de Armed and Dangerous, a primeira música do álbum. Uma deliciosa mistura de hard rock com AOR (Adult-Oriented Rock), gêneros que dominaram os anos 1980 e são plenamente evidentes aqui, mesmo que seja uma obra de 1990. Estamos diante de um hino de guerra, uma convocação nítida em suas letras: "The enemy will tremble, as young and old assemble, a mighty army up in arms". É uma música que resume o tom do álbum, especialmente na sonoridade: os vocais poderosos do sempre sensacional John Schillit, a guitarra tão pesada e melódica de Bob Hartman, o baixo pungente de Ronny Cates e o dinamismo dos teclados "80-nescos" de John Lawry com a bateria memorável de Louie Weaver (são eles dois quem mais contribuem pro aspecto AOR do disco). E a partir daí as coisas só melhoram.



Em seguida vem uma das minhas favoritas de sempre, I Am On the Rock". Sim meu leitor, foi da letra dela que saiu o título deste texto. As letras falam das dificuldades que enfrentamos no mundo, das adversidades que surgem em nossas vidas e que podem sim nos fazer desanimar e perder a esperança; no entanto, se estamos firmados sobre a rocha viva que é Jesus não há o que temer (em tempo: Petra é rocha em grego). Eu amo o riff de guitarra nesta canção, os solos excepcionais de Hartman e novamente me sinto instigado a cantar com os membros da banda as letras. 



Eis que chega Creed. Cara, o que dizer desta canção. Muito provavelmente a declaração de fé mais poderosa, pungente e assombrosa que já vi em toda a minha vida. Creed é credo em inglês, e é disso que ela trata em suas letras, começando por palavras tão arrebatadoras como essas: "I believe in God The Father, maker of heaven and earth, and in Jesus Christ, his only Son, i believe in the virgin birth". Cantadas por um infalível John Schillit, elas são acompanhadas de teclados atmosféricos, seguidos de um baita baixo e bumbo antes que guitarra e bateria completa entrem, trazendo o peso devido a essa música tão maravilhosa. 

"This is my creed
The witness I have heard
The faith that has endured
This truth is assured
Through the darkest ages past
Though persecuted, it will last
And I will hold steadfast to this creed"(8)



A quarta música carrega o nome do álbum e, ah... Pode existir outra mais clássica (indagação difícil num álbum de tantos clássicos pra nós fãs)? Mas caramba, aquele riff que abre a música é eterno. Sempre abro um sorriso quando na minha playlist random ela se inicia. Acho que só esse sentimento que ela me passa, desde seu título ("além da fé"). Porque você sabe né, a fé é o fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se veem.

"There's a higher place to go, beyond belief, beyond belief
Where we reach the next plateau, beyond belief, beyond belief"(8)


E assim, encerrando essa primeira parte de minha longa resenha sobre esse disco (que eu não esperava que fosse ficar tão grande, mas é sempre a mesma coisa quando escrevo no blog), falarei da música que encerra o lado A do disco (sim, ele foi lançado ainda na época dos vinis). Seu nome é nada mais do que "Love". Você pode pensar que essa vai ser uma baladinha oitentista meia-boca, mas se Creed é uma declaração poderosa de fé, Love é uma declaração poderosa de amor. E não qualquer amor, mas o ágape, aquele que faz um Pai entregar seu Filho por amor de toda a humanidade. O amor que vemos em I Coríntios 13, aquele que é paciente, bondoso. 

"In this world where push turns to shove
We have strength to rise above
Through the power of His love"Toquem essa música no meu funeral, por favor. Mais importante: VIVAM essa música, dia após dia.(continua na parte 2...)



sexta-feira, 25 de julho de 2014

Planeta dos Macacos - O Confronto

"Macaco não mata macaco."


Bom, o que dizer? E pensar que há um mês eu nem estava tão interessado nesse filme. Mas caramba, o que eu vi hoje me impressionou! Não apenas superou o (ótimo) primeiro - tarefa, convenhamos, nada fácil - como figura fácil fácil entre os melhores do ano. "Somos todos macacos"? Depois desse filme, é difícil responder. É um mundo definitivamente assustador esse em que símios ascendem como uma civilização poderosamente organizada enquanto os homens regressam à barbárie.
Este blockbuster nos faz pensar, coisa rara pra essas produções, vamos admitir. Mesmo com os esforços de César e Malcolm em promover a paz entre as duas espécies, há aqueles dos dois lados que não podem abrir mão de seus ódios e preconceitos. Isso me faz refletir bastante sobre nossos dias, onde judeus e palestinos se matam e mísseis derrubam aviões na Ucrânia.
Ambos os lados querem sobreviver, ambos os personagens (homem e macaco) querem o melhor para os seus semelhantes. Mas até que ponto isso é possível sem interferir no direito do outro? Como o filme mostra, o limite para isso é tênue e inevitavelmente será quebrado. O confronto anunciado no título é construído lentamente, através de discursos inflamados de ódio, momentos de tensão, traições e por fim, um golpe de estado. E então vem a guerra, e as consequências dela ainda vão repercutir e muito.
Dito essas coisas, não posso deixar de elogiar o trabalho de atuações, tanto as de capture motion quanto as humanas. Não achei o trabalho dos atores tão mal assim, embora o mais memorável seja realmente do Malcolm de Jason Clarke, mas é óbvio que o destaque são os macacos perfeitamente construídos em CGI. A evolução da tecnologia é assombrosa. Se em Rise of Planet of Apes os efeitos visuais e a captura de movimentos já eram louváveis, aqui são mais ainda. Academia, não ignore o trabalho do Andy Serkis! Seu César está mais velho, mais sábio, mais cansado - ele se importa com seu povo, e é por isso que não quer agir precipitadamente. Por outro lado, o Koba de Toby Kebbel é tremendamente assustador: ouso dizer, o melhor vilão do ano até agora. Mesmo assim, suas ações tem justificativas. E esse é um dos maiores méritos do filme: nenhuma ação é tomada do nada, objetivando apenas o caos, mas sempre há um "porquê". Humanos perderam muito, macacos querem se proteger deste mundo pós-apocalíptico e hostil. Ambos os lados tem suas razões.
E essas razões que enfim, levarão à guerra.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

A Humana Barbárie.

Eu não sei se sou um pacifista. Na verdade eu nunca me identifiquei como tal.

Mas nesses últimos dias, tenho sido conduzido a reflexões poderosas acerca da natureza da guerra, dos homens e do que é ser humano em geral. Tudo por causa da minha leitura de "Cartas no Front", talvez o livro mais emocionante que já tenha lido em minha vida. Nunca cheguei tão perto de derramar lágrimas em uma leitura como foi nesses últimos três dias (manly tears, é claro). Sério, acho que todo mundo deveria ler esse livro.

O que mais me emocionou e cativou em "Cartas do Front" foi que ele trouxe o lado humano da guerra. Para além de ideologias, motivações escusas, discursos políticos e ambições de  poderosos, temos os relatos de homens e mulheres longe de suas famílias, de seus amigos, longe de suas vidas, levados para o horror, a barbárie, toda a completamente desumanidade, para experiências que mudarão sua vida e o moldarão para o bem e o mal. 

Cada indivíduo é único, em sua singularidade e modos de enxergar o mundo e a realidade à sua volta. Esse é um dos maiores trunfos do livro: os diferentes pontos de vista muitas vezes refletindo os mesmos medos, desejos, anseios, sentimentos. Estamos acostumados a ver os grandes conflitos mundiais sob a ótica dos vitoriosos, mas através desse livro aprendemos que um nazista não é menos humano do que um americano. Que nem todo iraquiano é um terrorista, que se autodenominar cristão não lhe dá o direito de julgar um estrangeiro, de se sentir melhor do que o "inimigo". É uma experiência para abrir os olhos frente à muitas coisas da vida.

Passam-se as guerras, mudam-se os cenários, mas o homem continua a ser o homem. Alguns encontram sua fé, outros se reduzem ao niilismo, mas o homem - a despeito dos riscos de uma progressiva perda de humanidade, dos quais muitos são acometidos - continua a ser homem.

Uma das coisas mais lindas e emocionantes que eu li nele foi o modo como indivíduos que foram inimigos ferrenhos durante esses conflitos acabaram encontrando uma paz entre si mesmos e profundas amizades que se estendem por anos. Quando o autor, Andrew Carroll, visita Saravejo e ouve a história da morte do pai de seu guia, afirma contundentemente "Meu Deus, você deve odiar os sérvios". Ao que seu guia, Amir, responde:

"Não! Não e não. Já houve ódio demais. estou cheio de tudo isso. Minha namorada é sérvia. Muitos sérvios em Saravejo e em toda a Bósnia sofreram(...). Uma hora isso precisa acabar. Já houve o bastante. Tem que acabar". 

E quando Andrew, marcado por aquela profunda demonstração de compaixão, pergunta a Amir como ele poderia tê-la diante de tantos horrores que teve de encarar, a resposta é: "Somente quem passou por isso pode realmente entender como é ruim".

Outras passagens reforçam esses atos de reconciliação: o memorial das vítimas em Stalingrado, na Rússia, executa canções de Schumann (um compositor alemão) como um aceno para os alemães que também perderam milhares de seus homens nessa batalha; um piloto americano mantém contato com um piloto japonês mesmo sessenta anos após o ataque de Pearl Harbor; o filho de um outro piloto americano casa-se com a filha de um soldado japonês; um capitão austríaco mantém uma amizade de mais de quarenta anos com o capitão americano que tão bem cuidou e tratou dele após prendê-lo, escrevendo ainda uma carta de condolências à viúva de seu captor e amigo quando este morre. 

Quem pode entender esses tão estranhos e formidáveis laços, que surpassam toda e qualquer chance de ódio? Quem pode entender a mente de um homem que sobrevive à guerra, mas carrega feridas na alma que a muito custo serão tratadas? O cinema e a literatura estão cheios de histórias que romanceiam a guerra, de outras que tratam desses combatentes traumatizados, mas o diferencial deste livro é trazer a tona o sentimento genuíno que perpassa gerações e chega até nós. Somente quem esteve no campo de batalha pode nos dar a verdadeira ideia daquilo que enfrentaram. De encarar a morte com seus olhos. De sofrer nas mãos de inimigos bárbaros, mas também de receber ajuda da onde menos se espera, quebrando paradigmas, preconceitos. Acima de patriotismos, bandeiras e crenças, um inegável senso de respeito, confiança e lealdade, laços indefectíveis que se perpetuam ao longo dos anos, junto com as memórias boas e ruins daqueles que lutaram ao seu lado ou contra você. É impossível entender essas camaradagens. É impossível entender a guerra ou que os motiva, o que as faz serem tão destrutivas (mesmo quando seu objetivo é a paz), ou o que a faz produzir frutos tão inesperados. 

“Os veteranos que ofereceram cartas tão reveladoras esperavam que elas pudessem ter um valor catártico para homens e mulheres que servem hoje nas Forças Armadas. Ninguém pode entender verdadeiramente a vida militar – as constantes pressões, a separação dos entes queridos, tanto a excitação quanto o terror de seguir para o combate, o choque devastador de perder um companheiro – como aqueles que já passaram por isso. Os mais antigos veteranos simpatizam profundamente com a atual geração de soldados e querem que saibam que há algum conforto em perceber que outros também suportaram as mesmas dificuldades."

O verdadeiro sentido da guerra é expresso em pungentes passagens como essa:

"Embora a maioria das pessoas acredite saber o que é a guerra, será que sabe mesmo? – estando tão distante das frentes de batalha, será possível saber?
Só se sabe o que é a guerra quando se veem os aviões em formação no começo da manhã, voando em direção aos alvos... e se vê esta mesma formação voltando à noite. Mas o número já não é mais o mesmo! Doze partiram, nove voltaram. Fica-se ali, parado, olhando para o alto, observando-se afastarem-se, na direção do horizonte, e então desaparecer. O que de fato aconteceu? Aqueles que mergulharam em chamas... terão morrido como nos filmes? Creio que não. Não com um sorriso nos lábios e um brilho alegre nos olhos, mas talvez com a terrível e dolorosa consciência de que tudo chegava ao fim! É preciso ver a leva de feridos voltando da frente de batalha... acima de tudo, ver a luz se apagar nos olhos desses homens. Jovens tremendo devido à exaustão nervosa e chorando como bebês. São, ou foram, homens fortes, que não tiveram ou que jamais terão a chance de viver uma vida normal... As pessoas podem acreditar que sabem como é a guerra. Esse conhecimento é ilusório. Tenho um corpo despedaçado pela guerra, tomado de pavor até o fundo da alma. Quando estava nos EUA, a guerra era distante, irreal. Eu lia, via as fotos, mas agora eu sei."

Eu comecei esse texto dizendo que não sabia dizer se era um pacifista. Mas termino-o dizendo - e isso com base em tudo que extraí desse emocionante e catártico livro, dos seus incontáveis relatos que variam do mais leve humor ao mais sombrio desespero - que talvez o seja. Ninguém pode dizer o que esses homens e mulheres passaram, sejam soldados ou civis. Por vezes vejo em alguns dos relatos essas pessoas desejam que as gerações futuras encontrem a paz e não precisem mais guerrear  por motivo nenhum. O que diriam de nós se vissem o que nos tornamos? Que não cumprimos suas expectativas, tornando-nos cada vez mais mesquinhos, ignorantes, arrogantes e superficiais? Que estamos perdendo quaisquer valores que um dia nos foram passados, convertendo-nos em seres amorais e gananciosos? Creio que se mais pessoas lessem esse livro e se dessem conta do impacto que ele pode causar, poderia sim haver uma mudança. Afinal de contas, "Livros não mudam o mundo. Pessoas mudam o mundo. Livros só mudam as pessoas".

Por fim termino com mais uma passagem da obra, que reflete o senso de esperança que foi depositado em nós, o chamado que devemos atender.

"Chegaste a um mundo repleto de imensos problemas. Com inúmeros tormentos e condições deploráveis. Numa época em que graves e grandiosas questões dominam a mente humana e a guerra, a terrível guerra, enche as nações de desolação e pesar. Esse, no entanto, é o nosso bom e velho mundo. Há tanta grandiosidade e beleza ao nosso redor e em toda parte da natureza. Espero sinceramente que, à medida que tua pequena vida se expanda, sejas capaz de abraçar e reter, com extraordinário vigor, uma parcela dessa beleza, desse prazer e dessa felicidade junto de ti. E desejo que vivas para testemunhar os problemas que nos atormentam assentados sobre princípios de justiça e correção. E os homens aprenderão a não mais guerrear".

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

"Dead or alive, you're coming with me!"



"Missão dada (mesmo no exterior) é missão cumprida." AdoroCinema


Remakes geralmente são vistos com maus olhos, ainda mais se estivermos falando de um clássico, cultuado e adorado por muitos. Robocop é um desses filmes, uma obra icônica do cinema com sua hiper-violência, humor negro e sátira social. Bom, eu nunca o assisti (só assisti uma de suas sequências, que eu não lembro qual), então não posso dizer se é melhor ou não do que o remake de Padilha. Mas falando dessa nova versão isoladamente, digo que é um filme ótimo - e que não merece críticas tão injustas.

Vamos analisar os maiores detratores dele - os críticos americanos e os fã xiitas. No RottenTomatoes o filme está oscilando entre 49 e 50%. Aí você para e se pergunta: "meu Deus, por quê?". E a resposta é simples: eles não se cansam de ficar comparando o novo com o original de 1987. "Ah, não é tão violento por causa da classificação PG-13""Ah, o uniforme é preto e não cinza""Ah, ele não tem uma mão verdadeira""Ah, ele é MAIS ÁGIL do que o antigo Robocop".

Fãs xiitas, vão se lascar, ok?

A verdade é que o maior dilema de um remake está entre encontrar o equilíbrio entre não ser uma fotocópia do original e não ser uma versão nada a ver. E o Robocop de Padilha consegue isso. Adaptado a uma nova realidade, com novas temáticas e personagens (afora o protagonista, nenhum outro existe - nem mesmo com o mesmo nome - no original do holandês Paul Vernhoeven), ele é sim um filme diferente - mas as citações, elementos e singelas homenagens (como a quote que dá título a esse texto) podem sim agradar a muita gente que prefere o antigo.

E por mais que esta nova versão seja adaptada às massas como um legítimo blockbuster, possui o mérito de ser ousada, inteligente e crítica- tudo de uma forma sutil, é claro. O roteiro, assinado por Joshua Zetmer e com contribuições de Padilha, além de tratar em primeiro plano a relação homem/máquina, trás ainda ótimas críticas à política imperialista e hipócrita norte-americana, bem como a manipulação da mídia. 

Isso é evidente na sensacional abertura do filme, onde somos apresentados a Pat Novak (um Samuel L. Jackson inspirado como nunca), um apresentador direitista e que é a favor do uso das máquinas em solo americano, já que os EUA são o único país do mundo que proíbe a atuação militar delas. O que é irônico, porque o país é mostrado usando em Teerã para promover a "paz", mas o que se vê é imposição da ideologia yankee e subjugação de um outro povo, o que leva a um ataque suicida de homens-bombas iranianos que é rapidamente cortada da transmissão do programa de Novak, mostrando como ele é apto a manipular os fatos em favor do que defende. Aliás, muitos apontaram e eu retifico: Novak me lembra Datena, Marcelo Santana e muito desses apresentadores brasileiros que vemos nesses programas "verte-sangue" por aí, como Cidade Alerta, Balanço Geral e outros. Programas esses que me dão nojo, e que utilizam estratégias similares às mostradas no filme. Seria Padilha mandando uma indireta? Pode ser, mas ao que parece esse tipo de apresentador não é restrito ao nosso país. E mesmo se tratando de um filme passado em 2028, ele mostra um futuro bastante real e plausível, que encontra ecos nos presentes dias, onde vemos o EUA chutando as portas das casas árabes e de tantas outras nações para enfiar a sua "democracia" e "American Way of Life".

A outra temática do filme, a dicotomia homem-máquina, é tratada com bastante ênfase ao longo da produção. Vemos um Alex Murphy (um Joel Kinnaman que, apesar de ser um ator desconhecido, me agradou e convenceu bastante no papel principal) que é cada vez reduzido a uma máquina sem sentimentos, apenas para ser o produto perfeito da corporação OmniCorp (não se esqueça de notar o fato da fábrica da corporação estar localizada na China, assim como as grandes empresas fazem hoje por razões de mão-de-obra barata). Entretanto ao longo do filme o inevitável acaba acontecendo: o lado humano prevalece, principalmente graças à família de Murphy, um elemento ausente no original. A própria temática desse conflito interno do protagonista é maior explorada do que no de Vernhoeven.

Se por um lado Kinnaman pode ser estranho ao espectador por se tratar de um ator pouco conhecido, o elenco coadjuvante não podia ser melhor. Além da atuação épica de Samuel L. Jackson, destaco o sempre talentoso Gary Oldman no papel do Dr. Norton, responsável por criar Robocop, e Michael Keaton com suas usuais canastrice e canalhice, criando o CEO da Omnicorp que é o mais perto que temos de um vilão no filme. 

Por que digo isso? Por que vi em outra resenha uma das (poucas) falhas do filme é não criar um vilão presente o suficiente. O Raymond Sellars de Keaton é um empresário ganancioso e astuto, disso não há dúvida, mas é tão estranhamente carismático (justamente por ser tão canastrão e canalha como só Keaton pode ser) que nem mesmo quando toma atitudes "vilanescas" no clímax do filme acaba convencendo muito. Temos os policiais corruptos e o criminoso Vallon que armam a explosão que fere Murphy gravemente, o desprezível Mattox interpretado por Jackie Earle Hearley e até os drones e demais robôs pertencentes à empresa, mas não diria que eles são os grandes antagonistas. Robocop enfrenta tantos inimigos que no fim das contas nenhum deles se destaca tanto assim, a não ser Sellars.

Tecnicamente, o filme é um primor. É bom ver que Padilha mantém sua câmera trêmula e frenética vista nos dois Tropa de Elite - um sinal de que ele conseguiu aproveitar do seu estilo mesmo tendo de se submeter às regras de Hollywood, ao ponto de trazer os companheiros brasileiros Daniel Rezende pra edição e Pedro Bronfman pra trilha sonora. Esta aliás se destaca por revisitar o tema de Basil Poleudoris do primeiro filme e por canções como "Fly me to the Moon" de Frank Sinatra e "If I Had Only a Heart" do Homem de Lata d'O Mágico de Oz - canções inseridas no devido contexto. Há uma boa dose de violência, mesmo que quase nenhum sangue por causa da classificação etária. Por outro lado, temos uma cena fascinante e perturbadora que é a que mostra o quão danificado ficou Alex e o que restou de seu corpo após a explosão.

Há algumas cenas em particular que me chamaram a atenção, além da abertura em Teerão exibida pelo programa de Novak: uma singela cena onde vemos um homem com braços mecânicos executar um solo de violão (que serve de introdução para a construção do conflito homem/máquina); a cena onde Robocop vê o filho pela primeira vez após a explosão, já transformado em máquina; e é claro, a cena do depósito, onde temos o policial enfrentado Mattox e seus robôs ao som de "Hocus Pocus" do Focus (que você pode ouvir lá em cima no vídeo). Como um fã de rock progressivo, fico emocionado.

Então é isso. Sei que a resenha ficou grande pra caramba, mas realmente eu gostei muito do filme e não há como negar que estou orgulhoso de ver Padilha entrando com o pé direito e muita ousadia em Hollywood. Os gringos podem dizer que estamos superestimando o filme por ser dirigido por um brasileiro, mas quer saber? Dane-se se eles acham isso. Ou os 50% do RottenTomatoes. Robocop é um dos melhores reboots dos últimos tempos, e mesmo que as bilheterias sejam modestas já é certeza de que temos uma nova franquia aí. E que mantenha o mesmo padrão de qualidade e crítica!

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Scorcese wannabe.

É muito difícil eu dizer isso de um filme, mas desta vez é realmente preciso: "Trapaça" é superestimado. É inegável que David O. Russell é um ótimo diretor, assim como é louvável sua "renascença", mas seu mais recente filme não é apenas fraco se comparado com seus concorrentes na corrida de prêmios que culmina no Oscar, como também em relação aos anteriores do diretor, "O Vencedor" e "O Lado Bom da Vida".

Aliás, tanto "O Lado Bom..." quanto "Trapaça" tem o feito de terem sido indicados nas quatro categorias de indicação ao Oscar. Mas analisando agora, será realmente merecido? Afinal de contas, são filmes que funcionam melhor pelos conjuntos, não por uma atuação aqui ou acolá. No caso de "Trapaça", esse caso é ainda mais explícito. Bale faz uma boa atuação como Rosenfield, e é impossível não se impressionar com mais uma metamorfose física desse cara. Mas ser indicado ao prêmio de Melhor Ator? Acho que não. O mesmo vale pra Cooper e Adams (esta está mais linda do que nunca, é realmente o papel mais sexy de sua carreira): competentes, mas não excepcionais. Lawrence se destaca no seu papel de uma esposa bipolar e instável (além de linda como sempre), rendendo o maior número de risadas (escassas, aliás), mas definitivamente não é a estrela do show. Jeremy Renner, Louis C.K. e Robert DeNiro - numa participação especial - também têm destaque, mostrando como esse é um filme coletivo, onde o todo vale mais do que a soma de suas partes.

Se por um lado o elenco é o grande destaque do filme, por outro a história não empolga. O filme ora se arrasta, ora avança dignamente, mas à exceção de momentos particulares (como a cena do jantar com os mafiosos e o final, um plot twist digno) não é 100% envolvente. O maior mérito do roteiro é levar à máxima o preceito diversas vezes abordado aqui, "as pessoas veem o que querem ver", ao ponto do próprio espectador ser enganado pelos golpistas no final. Outro ponto positivo é a trilha sonora bastante jazzística de Danny Elfman, que também conta com diversos sucessos do fim dos anos 70.

Mas ainda assim, não há como notar que ao longo do filme Russell tá tentando emular um diretor em especial. Seja através da trilha sonora rica, da ambientação, dos costumes e diversos outros elementos nota-se diversas referências ao grande Martin Scorcese. O próprio personagem de DeNiro, um matador a serviço da máfia, evoca o tipo "chefão do crime" que o marcou em The Godfather pt. II e nos filmes de Scorcese. 

Como outros já apontaram por aí, "Trapaça" parece uma versão mais comportada, divertida e glamourosa dos filmes do consagrado diretor. Contudo, não deixa de ser inferior. Basta comparar com "The Wolf of Wall Street", também lançado esse ano. Tendo assistido ambos os filmes, posso afirmar com propriedade: "The Wolf" é infinitamente superior. Mesmo sendo consideravelmente mais longo, a sensação que tive foi a de que o tempo passou mais rápido o assistindo do que com "Trapaça". 

No fim, este é um filme que se resume a algumas poucas palavras: "hype", "superestimado" e "caricato". É sempre mais do que parece ser, e no entanto é menos do que foi destinado a ser. Em um ano de concorrentes fortes no Oscar, esta é uma obra que, embora não sem suas (muitas) qualidades, não deixa de passar a impressão de que poderia ter sido melhor e mais enxuta.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O Dragão Renasce e uma nova história me cativa.

Finalmente, após muitas idas à Saraiva (é o único jeito de ler livros na minha atual condição, and i regret nothing)eu terminei O Olho do Mundo. E preciso compartilhar todas as emoções que tive lendo essa obra fantástica com vocês.

Primeiro, deixe-me dizer que desde que li A Crônica do Matador Rei nenhuma série me chamara tanto a atenção assim. É uma coisa visceral, mais forte do que eu. Eu sabia que ia ler um livro incrível, e não estava errado. Os críticos que diziam ser essa a maior obra de fantasia desde O Senhor dos Anéis, eles estavam certos. Aliás, se você ama o universo de Tolkien vai amar A Roda do Tempo. Não, Robert Jordan não copiou a Terra-Média - há referências, situações, personagens, um bocado de coisas que lembram realmente LOTR, mas não ao nível de plágio, não mesmo. Ouso dizer que Jordan criou um mundo tão fascinante e complexo quanto, o tipo de universo no qual você imerge sem perceber e só quer saber mais e mais dele, vê-lo em toda a sua extensão. É absolutamente épico.

Devido a minha influência de ASOIAF, eu realmente fiquei extasiado quando soube que esses livros usavam o modelo de pov (point of view). Entretanto, isso é feito de uma forma diferente. 80% do livro é narrado por Rand Al'Thor, o protagonista, e só há uma mudança de narrador lá pra página 300, quando seu amigo Perrin e a Sabedoria Nynaeve também passam a narrar alguns capítulos. Imagino eu que os demais personagens (e outros por aparecer na saga)terão seus momentos  de narrativa nos próximos livros. (Ps.: o fato do livro ter terminado com uma nova narradora foi brilhante, e só me deixa ansioso pelas continuações).

Acho que nem preciso entrar em detalhes sobre a história. Mas ela é completamente envolvente, apesar do tamanho deste calhamaço. Segredos permeiam os personagens (alguns nem sabem de seus próprios segredos), o que é claro, te faz devorar ainda mais a história.A escrita de Jordan é sem igual, ao mesmo tempo em que revela uma simplicidade fascinante e envolvente também é bastante detalhista (sem soar chato ou excessivamente minucioso), mas como quer que seja ela é viciante. O modo como ele conta as histórias do passado deste mundo que criou é um dos pontos mais fortes do livro. Minha paixão por História faz com que eu seja cativado pelos contos dos grandes impérios e personagens mostrados ao longo d'O Olho do Mundo. 

E os personagens, mesmo que não exibam o "cinza" e as complexidades psicológicas dos de ASOIAF (que mantém-se no topo nesse quesito)são tremendamente apaixonantes. Como não se impressionar pelas habilidades do Guardião Lan, ou rir do mau humor constante de Nynaeve? Tremer diante dos sonhos com o Tenebroso, cujas poucas aparições já o firmam como um grande vilão da Alta Fantasia? Quero muito ver o que vai acontecer com nossos protagonistas e os vários coadjuvantes que aparecem e desaparecem.

Em suma, esse livro é uma obra-prima, altamente recomendada. Dá um pequeno calafrio de saber que vão chegar ainda mais 13 volumes, mas de onde quer que esteja meu saudoso Jordan, quero que saiba que você ganhou mais um fã.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Queen II - o melhor álbum que você jamais ouviu.



Fala aí galera, tudo bem? Eu sei que o blog não tá mais com aquela constância de antes, mas sempre na medida do possível tento postar alguma coisa aqui. Dessa vez quero abrir a seção "resenhas", tecendo comentários críticos acerca de obras musicais e cinematográficas que eu amo. Também vai ser um espaço de divulgação, principalmente dos meus gostos musicais, que podem ser vistos como "heterodoxos". Não, não sou hipster, mas já disse aqui que meus estilos sonoros não são lá apreciados pelo grande público. Mas como vou mostrar aqui, até mesmo grupos conhecidos pelas massas têm seus momentos underground.

Queen é um ótimo caso disso. Afinal de contas quem nunca ouviu "We Will Rock You", "We Are The Champions", "I Want to break Free", "Under Pressure" ou outros zilhões de sucessos dessa banda maravilhosa? Mas por outro lado... quem já ouviu "The March of the Black Queen"? Se não, escute no link acima, e aí você vai entender quando digo que essa música tem vocais melhores do que "Bohemian Rhapsody".

O Queen é uma de minhas bandas favoritas. Tive contato com eles desde moleque, graças (como sempre) ao meu pai. Ele tinha o VHS (VHS!) do "Greatest Hits II", com os clipes de seus sucessos dos anos 80 e 90. Então tenho uma lembrança vívida de clipes como "The Invisible Man" e "The Miracle", entre outros. E é claro, ouvi "We Will Rock You/We Are The Champions" e "Bohemian Rhapsody" em milhares de lugares diferentes. Mas a partir do ano retrasado, quando descobri que eles estavam incluídos na categoria"Prog Related" no site ProgArchives (onde eu costumo escrever resenhas), decidi conhecer mais da banda. E putz, meu mundo mudou.

Apenas escute os cinco primeiro álbuns do Queen e compare com o material da banda nos anos 80, onde já tinham seu sucesso comercial e crítico. Caraca, são muito diferentes. Antes de tudo, eu digo que amo tudo o que a banda fez (exceto 80% de Hot Space e Flash Gordon), mas meu coração prog é mais afeiçoado ao material inicial. A criatividade e ambição da banda, bem como o som pomposo e extremamente bem-produzido que sempre foi a marca deles é ainda mais evidente em seus dois melhores álbuns: "A Night at the Opera" e "Queen II". Mas se ANATO é repleto de hits marcantes ("Bohemian", "Love of My Life", "You're My Best Friend"), "Queen II" é extremamente desconhecido. Não obstante, é pra mim a obra-prima da banda.

Como naqueles tempos idos da década de 70 o tipo de mídia eram os eternos vinis ("bolachões") a banda aproveitou isso nomeando o lado A do vinil de "white side" e o B de "black side". O lado branco é composto de quatro músicas de Bryan May e uma de Roger Taylor. Estas faixas seriam mais "convencionais", apesar de se ver um senso de coesão brilhante. 

Ele abre com Procession, um curto instrumental marcado por uma espécie de batida cardíaca (o bumbo da bateria, na verdade) seguido das geniais harmonizações de guitarra de May (que é um de meus guitarristas favoritos). Ela conecta-se à Father to Son e uau, que música é essa? As harmonias vocais pelo qual a banda sempre foi conhecida estão a pleno vapor, e May destrói na guitarra, como sempre! Se você acha que Queen é uma banda de pop/rock, eu te digo que eles são todos os gêneros possíveis, e é isso que os torna tão perfeitos.

White Queen (As It Began) é uma doce e melodiosa canção, com alguma trabalho acústico de May que muito se assemelha a uma cítara e Freddie como sempre brilhando nos vocais. Same Day, One Day é a primeira música da banda cantada por May e que ótima voz ele tem! Suave, em contraste com a voz poderosa de Mercury, e eu destaco o solo final de guitarra - ou melhor, de três guitarras sobrepostas. Afinal de contas, overdubs e paredes de som são sinônimos pra essa banda. Finalmente o lado branco termina com The Loser in the End de Taylor, com seu vozeirão rouco e agressiva - não era à toa que ele pegava alguma das faixas mais pesadas da banda, além de ter um falsete maior que o do próprio Freddie! Essa faixa é um hard rock mais convencional, destoando da temática fantástica do álbum, mas ainda assim é muito boa.

Eis que chega o lado negro.

Seis músicas, a maioria delas interconectadas, como se fossem uma só. Quer algo mais progressivo do que isso? Fruto da genial mente do Sr. Mercúrio, um de meus cantores favoritos, assim como de milhões de pessoas. Ele era o cara mais ambicioso da banda, e explode nossas mentes com o lado negro, que pra mim é o ápice de sua criatividade. Basta ver os efeitos da primeira faixa, Ogre Battle. Pqp! Os vocais são fora deste mundo, a instrumentação é pesadíssima - praticamente como se fosse um trash/speed metal antes que estes gêneros existissem. A batalha do título é trazida a nós ouvintes de forma fenomenal. Em seguida vem The Fairy-Feller Master Stroke, uma faixa pra lá de erudita com uso intenso de cravos, castanholas, o clássico piano da banda e é claro, nossas queridas harmonizações vocais. A próxima música é a curta Nevermore, apenas piano e voz(es), uma doce e bela balada que serve mais como um interlúdio.

E então chegamos no épico do álbum: The March of the Black Queen. Não há como descrever essa canção. São tantas mudanças, seções, elementos, variações... acho que tudo que posso dizer é que a escutam e saibam do que estou falando. Pra mim a obra-prima de todas as canções da banda, junto com a também épica The Prophet's Song do ANATO. Ela conecta-se à balada Funny How Love Is, que apresenta mais um grande trabalho de harmonizações, embora não possui grandes variações. E por fim temos a canção mais conhecida do álbum, o single Seven Seas of Rhye. Quem já ouviu o primeiro álbum da banda certamente conhece a versão instrumental dela (que é mais como uma "prévia", por assim dizer). Imagine uma canção épica de fantasia com menos de três minutos. Pois é, Queen sabe fazê-la. Essa banda é única, cara.

Pois então, é isso. Eu realmente não tenho palavras suficientes pra descrever o amor que tenho por esse álbum e por essa banda. Mesmo que eles tenham se "rendido" à fama (e ainda assim tornaram-se ainda mais mitosos) o melhor deles ainda tá lá no começo de sua carreira, na minha sincera e humilde opinião. Conheçam esta outra faceta do Queen!