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quinta-feira, 24 de março de 2016

Herege assumido! (Por Hermes C. Fernandes)




Quer mesmo saber? Sou herege! E digo isso com o peito cheio. Se quiser, pode me mandar pra fogueira agora mesmo. Estou pronto a morrer pela mensagem subversiva de que sou portador. Mesmo porque, não valeria a pena viver por algo pelo qual não me dispusesse a morrer.
Minha heresia?
Discordar do que tem sido feito em nome da ortodoxia.
Meu problema não é com a ortodoxia em si, mas com a práxis dos hipócritas que vivem o avesso do que afirmam crer. Esses me dão ânsia de vômito.
Por isso, resolvi chutar o balde e assumir de vez a postura de herege.*
Eles pregam a divindade de Jesus, porém tratam-no como se fosse um empregadinho. Chamam-no de Senhor, mas exigem que Se lhes submeta, atendendo às suas ordens, determinações e decretos.
Ensinam a divindade do Espírito Santo, mas ridicularizam-no com manifestações bizarras que não temem atribuir a Ele.
Pregam a salvação pela graça, e em seguida exigem que seus seguidores façam sacrifícios complementares para assegurar-lhes a condição de salvos ou garantir-lhes as bênçãos divinas.
Pregam que Jesus está às portas, mas levantam campanhas milionárias para construir catedrais suntuosas ou adquirir aviões, em vez de pregar a esperança de dias melhores e contribuir para amenizar as injustiças sociais.
Ensinam a generosidade só para colocá-la à serviço de sua própria avareza.
Cansei de fundamentalismo barato, intelectualmente preguiçoso, e ideologicamente comprometido com os poderes deste mundo. Cristãos que preferem ladear os poderosos, e desprezar os miseráveis e excluídos. Denunciam a pretensão socialista de que o Estado ocupe o lugar de Deus, mas fazem vista grossa ao Estado Neo-liberal que se presta ao papel de Diabo.
Prefiro a isenção profética! Não quero aliar-me a qualquer que seja a ideologia, pois todas são inequivocadamente imperfeitas. Prefiro ser porta-voz do Reino, a ser defensor de agendas ideológicas. Marx não me basta! Mas não será Olavo de Carvalho que me converterá num reacionário. Não me curvo ao Estado, mas também não me prostro ante o Capital. Ambos são potencialmente ídolos. Ambos exigem lealdade absoluta, coisa que só devo ao império de Cristo.
Livre comércio? Sim. Mas não ao custo da justiça. Justiça social? Sim. Mas não ao custo da liberdade.
Por favor, não me rotulem. Não sou penteca, mas também não morro de amores pelo tradicionalismo mofado que só serve ao orgulho denominacional idiota. Sou reinista! Só devo lealdade ao Rei dos reis!
Crer na contemporaneidade dos dons não me faz carismático nem pentecostal; crer na soberania divina não me faz calvinista; apreciar arte sacra não me faz idólatra, e negar-me a ajoelhar-me ante a uma imagem não me torna iconoclasta. Crer na intervenção divina em atendimento às nossas preces também não me faz um neo-penteca.
Se insistirem em me tachar, prefiro que me chamem de herege. Pelo menos serei identificado com os injustiçados, vítimas dos sistemas opressores que se arrogam detentores da verdade absoluta. Prefiro isso a ser identificado com os que oprimem, e em cujas mãos estão acesas as tochas da intolerância, prontas a atear fogo nos discordantes e rebeldes.
Se reeditarem a santa inquisição, a maioria dos líderes que explora seus rebanhos ficará de fora. E sabe por quê? Porque são todos ortodoxos e dogmáticos. Todos têm em comum a crença no concepção virginal de Cristo, em Sua ressurreição ao terceiro dia, em Sua ascensão**, na Criação em sete dias literais, etc. Nenhum deles pode ser acusado de heresia. Eles até poderiam escapar ilesos das chamas inquisitoriais, mas duvido que escapariam de outra chama!
Prefiro ser torrado nas fogueiras dos meus detratores a ter minha consciência chamuscada pela culpa, e minha alma alvejada pelas chamas do inferno.
Sou herege assumido, e quem não for... que acenda a primeira tocha!
*Heresia, do latim haerĕsis, por sua vez do grego αἵρεσις, "escolha" ou "opção".
** Coisas nas quais também creio.


domingo, 27 de setembro de 2015

Da ideologia, da contradição e da essência cristã.

"É tão intelectualmente desonesto defendermos uma ideologia que não conhecemos, como atacarmos uma ideologia que nunca examinamos. Estudar é fundamental. Livro na mão e pé na lama da favela produzem os melhores intelectuais. E a melhor teologia!

Falava outro dia no Congresso da Juventude Batista Brasileira, realizado em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, quando um grupo de jovens, ao término da minha mensagem, me procurou. Conversamos longo tempo. Gostei demais deles. Todos demonstravam grande inquietação quanto a serem considerados marxistas pelo simples fato de defenderem certas ideias, que na verdade, em seu modo de ver, representam apenas o que o cristianismo proclama. Eles me pareceram lidar com uma pergunta importante, que poucos ousaram responder: quanto do marxismo uma pessoa precisa acreditar para ser considerada marxista? Lembro-me de Dom Hélder Câmara: "Quando dou comida ao pobre dizem que sou santo, quando pergunto por que algumas pessoas são pobres dizem que sou comunista".

Outro tipo de injustiça também pode ser praticada. Considerar necessariamente inimigo do pobre quem rejeita o marxismo. Há muitos que almejam a economia de mercado, com todo seu estímulo à produção de riqueza e competição criativa, regulada pelos ideais de justiça do cristianismo. Eles não creem na revolução do proletariado, não estimulam a luta de classe, e, contudo, rejeitam a exploração do pobre, o lucro como a medida de todas as coisas e a ganância que esgota os recursos naturais do planeta.

Como o cristianismo não cabe nem nas ideologias de direita, nem nas ideologias de esquerda, gostaria de dizer aos que se sentem injustiçados, vítimas dos ataques mais ácidos de ambos os lados, que não ser compreendido é da natureza da verdadeira sujeição a Cristo. Faz parte da vida cristã ser objeto de contradição. O dia em que o mundo nos compreender há muito teremos deixado de viver como discípulos de Cristo.

O importante, seja você de direita, seja você de esquerda, é ser encontrado do lado do pobre, perto de quem o Senhor Jesus sempre esteve. E quando uma chacina como a de Osasco - que interrompeu a vida de 19 pessoas no dia 13 de agosto deste ano -, acontecer, jamais deixar de protestar. Porque você dificilmente será levado a sério se a defesa mais veemente das suas ideias não vier acompanhada da prática concreta da justiça e da misericórdia.

A ideologia sem obras é morta."

Antônio Carlos Costa

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Consciência.




Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas. Eu nunca concordei muito com essa frase.

Mas Ele pode se valer de todo e qualquer momento para nos ensinar. E posso dizer que passei por isso hoje. Há situações que em sua essência podem aparentar ser banais, mas cujas consequências podem nos trazer necessárias - e dolorosas - verdades.

Hoje eu colei na prova de Física. É. "Nossa, logo você, Vinícius, que era um aluno tão exemplar e bem-quisto, uma referência, fazendo uma coisa dessas?". É, logo eu. Era isso ou tirar 0, porque não sabia nada. Mas no fim das contas não adiantou muito, porque o professor pegou minha cola e deve ter me dado um zero do mesmo jeito.

Não fiz nenhum alarde. E por que faria? Eu sabia que aquilo era errado no momento em que decidi fazê-lo, então ter sido pego e perder nessa prova - com todas as suas implicações, incluindo a chance agora praticamente nula de passar nela nesse semestre e atrasar ainda mais o curso - era o que eu realmente merecia. Paguei o preço, e aceitei-o. 

No caminho para casa fiquei matutando várias coisas. Se contaria para minha mãe ou não (no fim contei, e vi que era o melhor a se fazer), um pouco no impacto desse zero pro curso, em culpa, nessas coisas. Chegando em casa fui pro quarto. Hora do desabafo. Mas sinceramente não sabia muito o que dizer.

Felizmente as palavras vieram. Enfim ia compreendendo que havia chegado numa situação-limite da minha existência: aquele ato de colar, tão supérfluo e natural pra tantos alunos (mas que nunca o fora pra mim), era apenas um reflexo do tipo de pessoa que vinha me tornando: um péssimo aluno, um péssimo cidadão, um péssimo cristão. Vivendo de relativismos morais, de conveniência, de hipocrisia. Negligenciando a Palavra, negligenciando e contradizendo meus princípios. Sabia que não podia mais viver essa vida. Sabia que precisava mudar.

Fui para a Palavra, pedindo orientação do Espírito para me guiar a uma passagem que falasse ao meu coração. E a achei, lá em Tiago, não à toa meu livro favorito da Bíblia. foram duas, na verdade:

"Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria.
Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade.
Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica.
Porque onde há inveja e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa.
Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia.
Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz." Tiago 3.13-18


"Portanto, submetam-se a Deus. Resistam ao diabo, e ele fugirá de vocês.
Aproximem-se de Deus, e ele se aproximará de vocês! Pecadores, limpem as mãos, e vocês, que têm a mente dividida, purifiquem o coração.
Entristeçam-se, lamentem e chorem. Troquem o riso por lamento e a alegria por tristeza.
Humilhem-se diante do Senhor, e ele os exaltará." Tiago 4:7-10


Lendo essas duas passagens, fui tomado pelas lágrimas. E por que não seria? Afinal de contas aquela era uma palavra rhema, ou seja, a Palavra de Deus revelada e aplicada pelo próprio Espírito Santo a mim naquele momento. Não foi por acaso que eu caí exatamente naqueles dois textos. Eles tinham algo a me dizer, e logo vi do que se tratava: sabia que se precisava pedir alguma coisa a Deus, era justamente a Sua sabedoria: eu necessito dela, todos nós necessitamos, justamente pelos seus atributos. 

Ah, mas nós somos tão donos de nós mesmos, não é? Certamente foi o que pensei na hora da prova. Achei que estava no controle da situação, mas veja no que deu. E é claro, não foi a primeira vez e infelizmente não será a última. Faz parte de nós, essa ilusão de que podemos ser senhores de nosso destino. Mas o que foi que disse uma vez em um dos meus textos aqui no blog? "Fazemos planos, e eles viram pó".

Quantas vezes fui um tolo. Movido por inveja, sentimentos tão contraditórios como o orgulho e a inferioridade. Quantos momentos de crise, de dúvida, de incerteza quanto ao futuro. De se olhar no espelho e parecer não se reconhecer mais. A criança que um dia fui se orgulharia do rapaz que sou? Talvez não. Mas quero viver de forma que este rapaz ao menos sinta orgulho do homem do amanhã. 

Para isso preciso ser Mais Nele. E então chegamos ao que Tiago fala no capítulo 4. Está muito claro o que é preciso fazer, a Quem preciso entregar meu futuro, minhas escolhas. O meu eu precisa morrer cada vez mais, o mal precisa ser expurgado do meu coração, este precisa ser limpo e consertado, e só assim terei o direito de portar o nome de Cristo em minha vida. Afinal de contas, como diz a letra da linda música do vídeo lá de cima, se tenho a Ele, tenho a verdade, "no 'assim diz o Senhor' e não no 'eu acho que'".

Que esse não seja um momento de quebrantamento isolado e passageiro, onde o velho Vinícius volte à tona e se esqueça daquilo que o Espírito obrou nele. Mas que seja uma mudança contínua e constante, que se faça refletir não só em mim, mas naqueles à minha volta. E que impere a vontade do Deus vivo, Aquele que me amou primeiro, e não a vontade deste ser tão falho. Que seja a voz Dele a falar em minha consciência e me torne assim uma pessoa melhor, vivendo desta Verdade que ilumina e alimenta dia após dia.

"Eu tive muitas coisas que guardei em minhas mãos, e as perdi; mas tudo o que eu guardei nas mãos de Deus, eu ainda possuo." Martin Luther King

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Pela extinção da carrocracia.


Esta é a foto de minha mão direita aberta. Da ponta do mindinho até a ponta do polegar, ela mede vinte centímetros. A maioria das mãos, não importa as diferenças entre elas, sejam de homens ou mulheres, tem medidas similares: 20 cm da ponta do mindinho à ponta do polegar, quando espalmadas. Guarde esta informação. Retornarei a ela mais adiante.

Recentemente, numa discussão tuiteira, o comediante Marcelo Tas criticou o programa eleitoral do candidato à presidência, Eduardo Jorge (PV). Em sua propaganda, Eduardo Jorge recomenda às pessoas que usem menos os carros.

Ao que parece, Tas entendeu que o candidato havia dito para as pessoas não usarem carros. Entendeu errado, e este tipo de coisa acontece. Após disparar uma ironia contra Eduardo Jorge, perguntando como fariam as pessoas que não têm “vida mansa” como a do candidato, Tas obteve como resposta um singelo soco com luva de pelica: ele, Eduardo Jorge, é médico sanitarista. E se move como a maioria das pessoas no Brasil: pega metrô, ônibus, anda a pé, usa bicicleta. Eduardo Jorge, elegantíssimo, nem sequer levantou a seguinte bola: teriam os brasileiros sem carro uma “vida mansa”? Fica subentendido, contudo, e a resposta todos nós sabemos: a última coisa que alguém que só pode andar de transporte público tem é uma “vida mansa”.

Tas não se deu por satisfeito e acusou Eduardo Jorge de hipocrisia, ameaçando postar uma foto do Eduardo dentro de um carro. Convenhamos, ameaça ridícula, considerando que em momento algum o candidato negou andar de carro. Ele não disse "não andem de carro nunca". Ele pediu o que qualquer pessoa minimamente saudável e razoável já sabe: use menos o carro. Ponto.

O que significa este pedido? Este ano, por ocasião do Encontro Da Nova Consciência em Campina Grande [PB], tive a oportunidade de assistir a uma das palestras mais interessantes deste evento, considerando todas as que já vi desde que – muitos anos atrás – passei a frequentá-lo. O psicólogo Lucas Jerzy Portela deu uma conferência excelente sobre os problemas físicos e psíquicos desencadeados pela carrocracia.

Não pretendo detalhar, nem reproduzir perfeitamente o que Lucas disse. Vou sintetizar as coisas mais importantes, na minha opinião:

1. O uso excessivo de carros causa diversos males físicos e psicológicos.
2. O Brasil peca por se nortear em torno de uma veneração ao veículo automotivo por combustão: o carro.

Quais as soluções apontadas por Lucas? Sim, ele deu várias soluções práticas, e em nenhum momento estabeleceu um manual ou guia que devesse ser seguido, com fórmulas prontas ao estilo de imperativos categóricos kantianos. O que ele solicita [na verdade, não ELE apenas; o movimento pela libertação da carrocracia é muito mais amplo do que a existência do palestrante] é que as pessoas sejam razoáveis para o bem de sua própria saúde. E ser razoável significa pensar.

Por exemplo: se o lugar para onde você vai fica a dois quilômetros de onde você está, como você deveria se locomover? A não ser que você tenha restrições de movimento ou quaisquer outros problemas que justifiquem o carro, você deveria ir a pé. Não faz sentido ir de carro, ônibus ou táxi. Caminhar estes dois quilômetros vai fazer bem para sua saúde. Isso satisfaz inclusive outro ponto salientado por Lucas: a atividade física deveria ser processual, não pontual. Nós deveríamos estar em atividade física constante, ao invés de apenas dedicar uma hora por dia a isso.

Vamos a um exemplo prático e alguns contrastes: da minha casa até minha academia, são 800 metros. Eu vou a pé, todos os dias. Subo uma escadaria considerável e vou caminhando, já me aquecendo. Na volta, são mais 800 metros. 1,6 km de caminhada, sem contar o tempo na academia.

Eu conheço quem mora a 500 metros da minha mesma academia e vai até ela de carro. Além de ser mais um carro nas ruas [e um carro desnecessário, convenhamos], a pessoa ocupa uma vaga de estacionamento que poderia ser de outra pessoa que vem de um lugar mais distante. Um argumento possível “ir de carro é mais seguro” simplesmente não cola, pelo menos não NESTE trajeto. Seria mais honesto se estas pessoas assumissem: “sou viciado(a) em meu carro”. E, claro, tentassem reformular a maneira de usar tal veículo.

Não se trata de instituir o Império da Bicicleta, a Tirania do Pedestre, ou algo assim. A depender da distância e do que se encontre no trajeto [ladeiras imensas, chuva torrencial etc], faz mais sentido usar outros veículos. Fazer valer a razoabilidade é algo ao alcance de qualquer pessoa com inteligência normal e que não esteja profundamente adoecida pelo transtorno compulsivo carrocrático. O que se pede, é: pense no seu movimento pela cidade.

Quando vou para a USP [três vezes na semana], considerando o aperto do horário, eu vou de táxi. 17 reais até onde devo ir. Volto de ônibus, já que na volta não há pressa, o ônibus não vai lotado, e me deixa bem perto de casa.

Fiz uma experiência considerando meu trajeto até a escola onde aperfeiçoo meu inglês. Medi três vezes cada possibilidade.

De táxi, da minha casa até a escola, eu pago 24 reais e levo 30 minutos, às vezes mais, em decorrência do tráfego. É uma loteria.
De ônibus+metrô, eu pago 4,65 reais e levo redondos 20 minutos. O máximo que já levei foram 25 minutos.

Qual o sentido de pagar cinco vezes mais e ainda chegar 10 minutos depois? O conforto de estar sozinho num táxi? O glamour de ouvir o taxista derramando suas opiniões sobre a existência? [comigo quase sempre acontece, eu devo ter uma magnífica cara de machista pra ter que ouvir as piadas que eles contam e outros comentários, sendo que só eles riem até sucumbirem ao silêncio constrangedor que imponho].

Não faz sentido no meu caso, principalmente considerando que o ônibus e o metrô não estão lotados no horário que eu vou para a escola. Se eu vou num horário em que o ônibus está lotado, pego o táxi até o metrô: 12 reais até a estação. Com mais 3 reais, pego o metrô e corto todo o congestionamento, e ainda ajuda a tornar as ruas menos congestionadas. Em 4 estações, chego à escola.

Cada caso, evidentemente, é um caso. O fato é: temos carros, temos ônibus, podemos andar a pé, temos metrôs, há quem use bicicleta. Com tantos recursos à disposição, alguns bem razoáveis a depender do horário, ainda há quem use APENAS o carro. Exclusivamente o carro. SEMPRE.

E é nesta parte que alguém vai dizer “pra você é fácil falar! Eu moro na Zona Oeste e trabalho na Zona Leste! De transporte público minha vida seria uma merda!”. Se você pensou em usar este argumento, simplesmente pare e leia tudo novamente. Eu não estou dizendo que carro é proibido, mau e feio, não estou dizendo que carros são o demônio. Eduardo Jorge também não disse isso em momento algum. Se sua situação pede um carro, use-o.

[Lucas, o psicólogo, chega a ser mais duro sobre isso. Em sua palestra, ele disse que não faz o menor sentido morar tão longe do trabalho. Sugere que, se for seu caso, mude de casa, ou de trabalho. Claro, falar é fácil e nem todo mundo pode se dar a este luxo. Mas faz sentido considerar isso. Sua qualidade de vida aumentará substancialmente, se você conseguir morar perto do trabalho. A diferença será percebida em seu corpo e sua mente]

Pois voltemos aos 20 centímetros. É o tamanho de nossas mãos espalmadas. Olhe pra sua mão. Abra-a. Vislumbre a distância do mindinho ao polegar.

Em recente projeto informado pela prefeitura de São Paulo, Haddad anunciou que irá transformar o canteiro central da Avenida Paulista numa ciclovia permanente. Exatamente: aquele canteiro inútil, ele será um pouco mais elevado e será uma ciclovia permanente. Além disso, passará a fibra ótica por baixo da avenida, retirando da Alameda Santos aquele aspecto horroroso de varal de quinta categoria. Sim, porque até os de Nápoles são mais charmosos.

Esta nova ciclovia vai tomar algum pedaço do trajeto dos carros? Sim. VINTE CENTÍMETROS DE CADA LADO. Isso mesmo, a extensão de sua mão espalmada.

Desespero, agonia: Haddad quer destruir São Paulo. Os donos de carros estão sendo oprimidos, coitadinhos. Vi de tudo subir em meu feed de notícias, hoje, desde reclamações mais moderadas até as completamente loucas: matem Haddad. Odiei o projeto. Ele vai acabar com a Paulista. Haddad quer oprimir os donos de carros [risos].

Meus caros, ninguém precisa oprimir donos de carros. Eles fazem isso uns com os outros, mutuamente, sempre que agem de maneira louca.

É claro, toda essa reclamação não é pelos vinte centímetros. Só mesmo muita má vontade e ódio a priori pra achar que vinte centímetros a menos de cada lado irá piorar ainda mais o tráfego da Avenida Paulista. Aliás, é ódio a priori que parece funcionar contra Haddad e suas ideias: ele é do PT, odeiem-no. Queria eu que Kassab ou qualquer outro prefeito do PSDB tivesse feito isso que Haddad agora ousa fazer. Aquele canteiro ridículo no meio da Paulista, um espaço inutilizado, se converterá em nova opção de trajeto veicular. Eu acho é ótimo.

A castração dos 20 centímetros do espaço para carros, sendo tomada como uma castração simbólica dos pintos carrocráticos, reflete apenas a má vontade diante de uma coisa que não muda o já existente: há um canteiro central largo e inútil na Avenida Paulista.

O que piora o tráfego da Paulista não são estes 20 centímetros a menos de cada lado. São NOVOS CARROS. O que piora o tráfego da Paulista é gente sem noção que anda de carro por ali, sendo que poderia caminhar, pegar o metrô [a linha verde é ótima]. Ou passar a usar a ciclovia a ser inaugurada.

Pausa. Novo exemplo, pra ficar bem ilustradinho: uma das pessoas que estuda na mesma escola de inglês que eu, mora ao lado da estação Brigadeiro. Nossa escola fica pertinho da estação Consolação. Esta pessoa tem a minha idade. E vai de carro. DE CARRO. Ela poderia ir a pé, ela poderia ir de metrô, mas não, ela vai de carro. Não, ela não é aleijada. Ela é viciada. Em carro. Ela é louca. E esnobe. Um dia, perguntei a ela: "mas por que você vem de carro?". Ela respondeu: "porque eu posso".

Porque eu posso. Então tá, né? Só existe a senhora no mundo. Maluca.

O argumento de que São Paulo não é uma cidade europeia para ter tantas ciclovias procede de algum modo. De fato, São Paulo não é Europa, parem de compará-la a Londres, isso ofende Londres. Ela foi feita para copiar Chicago e sua carrolândia. O relevo de altos e baixos não ajuda a quem quer andar a pé ou de bicicleta. Mas você não precisa andar de bicicleta por toda a cidade, ora!

Mas a principal diferença entre Sampa e as cidades europeias não está no relevo. Está na mentalidade. As Américas em geral, do norte ao sul, consideram o carro um símbolo de status e de poder. Europeus são diferentes, neste ponto. Europeus andam, e como andam! Mesmo com o metrô maravilhoso deles. Eles andam. A imagem de gente de 70 anos, magra e definida, andando de bicicleta, é banal em várias cidades europeias.

Desde que vim morar em Sampa, há quase dez anos, só ouço reclamações sobre o trânsito, dos próprios paulistas natos. Alternativas estão sendo dadas. A minha parte eu fiz: podendo ter carro, não o tenho. Não faz sentido em minha vida, não faz sentido em meus trajetos, se preciso de um, pego um táxi. Gasto menos do que gastaria se tivesse carro. Você precisa ter um? Então tenha. Mas reveja seus hábitos, verifique se você faz alguma coisa parecida com as que descrevi neste post enorme. A Europa, que tantos admiram, precisa primeiro ser trazida para dentro de você. Se você fizer isso, talvez os 20 centímetros saiam não apenas da Avenida Paulista. Sairão, também, da sua cintura americana carrocrática.

Alexey Dodsworth Magnavita

domingo, 7 de setembro de 2014

Afinal, quem são "os evangélicos"?

*texto originalmente publicado na Carta Capital: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/afinal-quem-sao-201cos-evangelicos201d-2053.html
Homofóbicos, cortejados pela presidente, fundamentalistas. Massa de manobra de Silas Malafaia, conservadores, determinantes no segundo turno das eleições. De tanto que se falou sobre os evangélicos nas últimas semanas, nos jornais e nas redes sociais, talvez caiba uma pergunta: afinal, quem são “os evangélicos”?
A resposta mais honesta não poderia ser mais frustrante: os evangélicos são qualquer pessoa, todo mundo, ou, mais especificamente, ninguém. São uma abstração, uma caricatura pintada a partir do que vemos zapeando pelos canais abertos misturado ao que lemos de bizarro nos tabloides da internet com o que nosso preconceito manda reforçar. Dizer que “o voto dos evangélicos decidirá a eleição” é tão estúpido quanto dizer a obviedade de que 22,2% dos brasileiros decidirão a eleição. Dizer que “os evangélicos são preconceituosos”, significa dizer o ser humano é preconceituoso. É não dizer nada, na verdade.
Acreditar que há uma hegemonia de pensamento, de comportamento ou de doutrina evangélica é, em parte, exatamente acreditar no que Silas Malafaia gosta de repetir, mas é, em parte, desconhecer a história. A diversidade de pensamento é a razão de existir da reforma protestante. E continuou sendo pelos séculos seguintes, quando as igrejas reformadas do século 16 deram origem ao movimento evangélico, estes aos pentecostais e estes aos neopentecostais, todos microdivididos até o limite do possível, graças, novamente, à diversidade de pensamento – sobre forma de governo, vocação e pequenos pontos doutrinários. Boa parte destas, sem organização central, sem “presidência” nem representante, com as decisões sendo tomadas nas comunidades locais, por votação democrática.
Assim como não existe “os evangélicos” também não existe “os pentecostais”, nem “os assembleianos”: dizer que Malafaia é o “papa da Marina Silva” como disse Leonardo Boff, apenas porque ambos são membros da Assembléia de Deus, é ignorar que, por trás dos 12,3 milhões de membros detectados pelo IBGE, a Assembleia de Deus é rachada entre ministérios Belém, Madureira, Santos, Bom Retiro, Ipiranga, Perus e diversos outros, cada um com seu líder, sua politicagem e sua aplicação doutrinária. A Assembleia de Deus Vitória em Cristo de Malafaia, aliás, sequer pertence à Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil.
Ignorância parecida se manifesta em relação ao uso do termo “fundamentalista”, como sinônimo de “literalista”, aquele incapaz de metaforizar as verdades morais dos textos sagrados. A teologia cristã debate há dois mil anos sobre a observação, interpretação e aplicação dos escritos sagrados, quais são alegóricos e quais são históricos, quais são “poesias” e quais são literais. O deputado Jean Wyllys, colunista da Carta Capital, do alto de alguma autoridade teológica presumida, já chegou à sua conclusão: o que não for leitura liberal, é fundamentalista e, portanto, uma ameaça às minorias oprimidas. (Liberalismo teológico é uma corrente teológica do final do século 19 que lançou uma leitura crítica das escrituras, completamente alegorizada, negando sua autoridade sobrenatural, a existência dos milagres, e separando história e teologia).
Só que isso simplesmente não é verdade. Dentro da multifacetação das igrejas de tradição evangélicas, há as chamadas “inclusivas”, mas há diversas igrejas históricas, tradicionais, teologicamente ortodoxas, que acreditam nos absolutos da “sola scriptura” da Reforma Protestante, mas que têm política acolhedora e amorosa com as minorias. Algumas criaram pastorais para tratar da questão homossexual, outras trabalham para integrá-los em seus quadros leigos; outros, como disse o pastor batista Ed René Kivitz, estão mais dispostos a aprender como tratar “uma pessoa que está diante de mim dizendo ter sido rejeitado por sua família, pelo meu pai, pela minha igreja” do que discutir a literalidade dos textos do Velho Testamento.
O panorama da questão pode ser melhor entendido em Entre a cruz e o arco-íris: A complexa relação dos cristãos com a Homoafetividade (Editora Autêntica), livro qual tive a honra de editar. Nele, o pastor batista e sociólogo americano Tony Campolo, ex-conselheiro do presidente Bill Clinton, diz: “Se você vai dizer à comunidade homossexual que em nome de Jesus você a ama (...) não teria que lutar por políticas públicas que demonstrem que você as ama? Pode haver amor sem justiça? Eu luto pela justiça em favor de gays e lésbicas, porque em nome de Jesus Cristo eu os amo.” Campolo, entretanto, faz distinção entre direitos e casamento: “O governo não deve se envolver nem declarar, de forma alguma, o que é casamento, quem pode ou não se casar”, ele disse. “Governo existe para garantir os direitos das pessoas. Casamento é um sacramento da igreja – governos não devem decidir quem deve ou não receber esse sacramento.” Campolo acredita que esta será a visão dominante entre cristãos americanos “em cinco ou seis anos”.
Entre os evangélicos brasileiros há quem pense desde já como Campolo – distinguindo união civil de casamento. Há quem pense de forma ainda mais radical: que a união civil, com implicações patrimoniais e status de família, deveria valer não apenas para casais homossexuais, mas para irmãos, primos ou quem quer que se entenda como família. Há quem defenda o acolhimento dos gays nas igrejas, mas o celibato para eles. Quem, embora sabendo que mais da metade das famílias brasileiras já não são no formato pai-mãe-filhos, ainda luta para restabelecer esse padrão idealizado. Há, sim, quem acredite que o seu conjunto de doutrinas e o seu modo de vida são fundamentais. Há aqueles que, enquanto estamos discutindo aqui, está mais preocupado se a melhor tradução do grego é a João Ferreira de Almeida ou a Nova Versão Internacional. E há quem acorde diariamente acreditando ser porta-voz do “povo de Deus”, pague espaço em redes de televisão para multiplicar esse delírio (mas, a julgar pelo 1% de intenção de voto do Pastor Everaldo, somente ativistas gays e jornalistas desmotivados acreditam nesse discurso). Esses são “os evangélicos”.
Na fatídica sexta-feira em que o PSB divulgou seu programa de governo, enquanto Malafaia gritava no Twitter em CAPSLOCK furibundo, o pastor presbiteriano Marcos Botelho, postou: “Marina, que bom que vc recebeu os líderes do movimento LGBTs, receba as reivindicações com a tua coerência e discernimento de sempre e um compromisso com o estado laico que é sua bandeira. Vamos colocar uma pedra em cima dessa polarização ridícula entre gays e evangélicos que só da IBOPE para líderes políticos e pastores oportunistas.”
Botelho não representa “os evangélicos” porque não existe “os evangélicos”. Mas Marcos Botelho existe e é evangélico. Assim como existe William Lane Craig, o filósofo que convida periodicamente Richard Dawkins para um debate público, do qual este sempre se esquiva; existe o geneticista Francis Collins vencendo o William Award da Sociedade Americana de Genética Humana; existe Jimmy Carter, dando aula na escola bíblica no domingo e sendo entrevistado para a capa da Rolling Stone por Hunter Thompson na segunda-feira; existe o pastor congregacional inglês John Harvard tirando dinheiro do próprio bolso para fundar uma universidade “para a honra de Deus” nos Estados Unidos que leva seu sobrenome; existe o pastor batista Martin Luther King como o maior ativista de todos os tempos; existe o jovem paulista Marco Gomes, o “melhor profissional de marketing do mundo”, pedindo licença para “falar uma coisa sobre os evangélicos”. E existe o Feliciano, o Edir Macedo, a Aline Barros, o Thalles Roberto, o Silas Malafaia e o mercado gospel. Como existe bancada evangélica, mas existem os que lutaram pela “separação entre igreja e estado” na constituição, e existem os que acreditam que levar Jesus Cristo para a política é trabalhar não para si, mas para os menos favorecidos.
Existe o amor e existe a justiça, como existe o preconceito, o dogmatismo, o engano, o medo, a vaidade e a corrupção. Não porque somos evangélicos, mas porque somos humanos.

Ricardo Alexandre é jornalista e escritor, radialista e blogueiro, Prêmio Jabuti 2010, ex-diretor de redação das revistas Bizz, Época São Paulo e Trip. E é membro da Igreja Batista Água Viva em Vinhedo, interior de São Paulo.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Em retrospecto.

Amanhã o blog faz um ano de existência.

Então, o correto seria escrever esse texto amanhã, correto? Sim, mas provavelmente isso não vai ser possível. Sábado meu notebook, após meses travando e desligando sozinho e me tirando a paciência, parou de ligar. Tive de mandá-lo pra assistência. Estou escrevendo esse texto de um lugar como a lan house que salvou a minha pele nos meus primeiros anos em Aracaju, com a diferença de que esta é de graça e fica na biblioteca da UFS. E eu poderia escrevê-lo amanhã, neste mesmo local? Não. Sexta-feira é o único dia em que não tenho horário livre das 13h às 15h. 

Como se vê, minha falta de sorte continua firme e forte.

Inicio de facto esse texto admitindo uma dura verdade: o blog perdeu um pouco de sua importância pra mim ao longo de 2014. Passei a recorrê-lo cada vez menos para minhas reflexões. Na sua descrição está escrito "o expurgo de um coração partido", mas ele já não está mais partido. Está curado, graças a Deus. Quando eu terminar esse texto vou editar a descrição. Espero nunca mais ter de colocá-la de novo.

É estranho pensar que eu negligenciei o blog este ano, quando tinha muito mais motivos para recorrer a ele. Faltam 4 meses pra 2014 acabar, mas já posso dizer que este foi o ano mais difícil da minha vida. Pra não dizer o pior.

É, continuo mal na universidade. O dinheiro continua apertado. Mais dificuldades surgem, umas provocadas por minha imaturidade e incompetência, outras que estão além de minha compreensão e do meu controle. A raiva, a mesquinhez, a falta de iniciativa, o estresse, a tristeza, a angústia, o desespero, essas coisas queimam dentro de mim e me dominam tantas vezes. A carne, essa maldita carne, muitas vezes me domina e cega. Sobressai-se ao Espírito e seus frutos.

Sinto falta dos amigos que fiz no primeiro semestre, os que tiveram competência para seguir em frente. Fiquei pra trás, e quantas vezes esse sentimento de inferioridade latejou em minha mente. Como se eu precisasse de mais motivos pra me sentir inferior ou diminuído. Outras amizades tiveram de ser reavaliadas. 

(E outras maravilhosas surgiram. Nem tudo são espinhos e minha vida)

Quantas vezes quis me confessar para alguém tudo o que estava passando ou sentindo, e no entanto travei, guardei em meu coração, corroendo-o. As coisas mais difíceis de serem ditas...

A dualidade do ser engenheiro e ser escritor. Tenho condições de avaliar se Engenharia Civil é realmente o curso que quero? Considerando o que (não) fiz, acho que ainda não. Mas o que pensar, quando você faz um teste vocacional (um confiável, porque convenhamos que esses testes vocacionais da internet às vezes são mais falsos do que notas de 3 reais) que te identifica como uma pessoa analítica com vocação pra História e Letras? Como se eu já não estivesse confuso o suficiente.

Paralelamente o livro começou a ganhar feedback. Não apenas dos meus leitores betas, mas de uma editora, a Chiado, que se mostrou plenamente interessada em publicá-lo. Da minha parte eu assinaria aquele contrato na hora em que o li, mas meus pais e tios - que me bancariam - decidiram que era melhor procurar mais editoras antes de chegar a uma resposta final. Tive de aceitar, mas não sem resignação. O livro vai ter de esperar. Eu vou ter de esperar.

Mas estou cansado. Cansado desse semestre, cansado dessa rotina, cansado desse controle quase paranoico sobre meus gastos, cansado de repetir os velhos erros e não ter iniciativa para mudá-los, de esperar por algum momento mágico onde esteja bem. Eu olho para os céus e clamo por socorro, mas tantas vezes só encontro silêncio. E tu, ó Pai, é o único para quem eu posso dirigir minha raiva, o meu desespero, o meu choro. 

Mas mesmo nos momentos mais sombrios ainda encontramos alguma luz. Ou ela é posta para nós, de uma maneira inesperada, e de repente nos revoluciona, vira nossas vidas de cabeça para baixo. E nos instiga a ser alguém melhor.

Disse muitas coisas, mas nem estas palavras seriam capaz de expressar tudo o que passei  e vivenciei, para o bem ou para o mal. Espero que o blog não seja apenas um local de confissão de um universitário dramático, mas sempre um espaço de análise das coisas do mundo, do Espírito, daquilo que habita dentro de mim e que vale a pena ser exposto. Por fim deixo um agradecimento àqueles que se dispõe a ler esses textos e assim conhecerem mais de mim ou do que e como penso. 

E que venham ainda mais anos d'As Coisas que Sei.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Reflexões da derrota.


"O brasileiro não gosta do Brasil, ele gosta de ganhar. Se o Brasil ganha, ele tem orgulho e amor. Se perde, queima bandeira."


Hoje o Brasil foi vergonhosamente derrotado de 7 a 1 pela Alemanha. Depois da lesão que Neymar sofreu que o tirou da Copa e o cartão amarelo que afastou Thiago Silva, muitos de nós não esperávamos que a seleção ganhasse dos alemães, por mais que ainda nutríssemos certa esperança. Mas o que se viu foi muito pior do que qualquer um esperava. Nem o mais otimista dos alemães ou o mais pessimista dos brasileiros imaginava que hoje, no Mineirão, veríamos a maior goleada que a seleção brasileira tomou na história. Em casa. Foi um baque pra toda uma nação.

Ou melhor, pra quase toda uma nação.

Da derrota, erguem-se dois tipos, um tão detestável quanto o outro: o pseudo-cult que se acha melhor do que todos por não gostar futebol, e dos pseudo-patriotas que com a derrota do Brasil se acham no direito de expressar sua revolta, como se só agora valesse a pena questionar os problemas do Brasil (problemas que estes, e muitos de nós, meramente ignoraram durante toda a vida, não apenas durante a Copa). 

Os primeiros se veem realmente no direito de julgar todos os que são amantes do futebol, taxando o esporte de "coisa de alienado" como se fossem superiores por isso. O mais engraçado de tudo é que escolhem a seleção como um alvo. Houve desvios de verba? Torceremos contra a seleção. Há corrupção no Brasil? Torceremos contra a seleção. Minha unha tá encravada? Torceremos contra a seleção. Que a Copa podia ser usada como um poderoso instrumento político isso sempre foi bem óbvio, mas sinceramente isso não torna todo torcedor um alienado. Só que na cabeça desses elitistas é isso que há. O futebol, em si, torna-se um mero bode expiatório para pessoas que não apresentam nenhuma proposta concreta de mudança. Esse é o legado desse nosso maldito complexo de vira-lata, onde tudo o que vem de fora é melhor e nada no Brasil presta.

Claro que ninguém é obrigado a gostar de futebol. Mas filhão, não é torcendo contra a seleção que você vai fazer um hospital de primeiro mundo surgir do nada não, ok?

O segundo tipo é pra mim ainda mais desprezível. Isso porque esses indivíduos passaram os últimos dias com aquela euforia ufanista, gritando "eeeeeu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor..." e agora depredam patrimônios públicos, queimam bandeiras e praticam vandalismo, como se a derrota do Brasil hoje os tivesse feito "abrir" os olhos para os problemas que este país enfrenta (problemas esses para os quais muitos de nós temos fechado os olhos por toda a vida, não apenas por causa da Copa - lidem com isso). Sério, o que essa gente tem na cabeça? Resumir patriotismo, amor à sua própria nação, ao desempenho da seleção nas Copas? Que mente limitada a deles. E sabemos que não são poucos os que pensam assim - é uma mentalidade de milhões, o reflexo dos erros crassos que assolam nossa cultura do futebol. Daí vem a frase que usei no início do texto.

Ah, e nem preciso avisar que queimar a bandeira é crime contra o símbolo nacional, né? Só pra constar.

Sinceramente? Não dá pra mensurar a pressão psicológica que a seleção deviam estar sofrendo da mídia, da comissão técnica, de si mesmos, tendo a responsabilidade de jogar - e ganhar - uma Copa em seu próprio país, no "país do futebol", 64 anos após algo como o Maracanaço. É fácil falar que eles foram uns chorões (no jogo contra o Chile e neste), difícil é entender o que mais estava em jogo naquele campo além da bola, toda as responsabilidade, o peso. O psicológico deles deve estar abalado pra caramba e precisa ser bastante trabalhado, até porque ainda falta disputar o terceiro lugar. Pra eles foi um fracasso, não importa o que a gente diga. Se tivessem trabalhado pra jogar por si e não por toda uma nação (uma nação tantas vezes ingrata, hipócrita e ignorante), o impacto da derrota certamente teria sido menor. Mas a derrota ainda estaria lá. É toda uma cultura futebolística aqui no Brasil que precisa ser mudada, desde suas bases


Olha, não dá pra mensurar a pressão psicológica que esses caras deviam estar sofrendo, da mídia, dos superiores, de si mesmos. É fácil falar que eles foram uns chorões, difícil é entender o que mais estava em jogo naquele campo além da bola. O psicológico deles tá fudido e precisa ser bastante trabalhado. Pra eles foi um fracasso, não importa o que a gente diga. Se tivessem trabalhado pra jogar por si, o impacto da derrota poderia ter sido menor, mas a derrota ainda estaria lá. É toda uma cultura futebolística aqui no Brasil que precisaria ser mudada lá nas suas bases.


O que sei é que o país do futebol não deve ter vergonha de sê-lo, nem se limitar a sê-lo. Ele só precisa de novas óticas num mar de dualismos forçados.

sábado, 21 de junho de 2014

Ele se sentia como se não pertencesse a esse mundo.


"Eu descobri em mim mesmo desejos para os quais nada nesta Terra pode satisfazer. A única explicação lógica é que eu fui feito para outro mundo." C.S. Lewis


Ele se sentia como se não pertencesse a esse mundo. Como se fosse uma peça que não se encaixasse neste complexo quebra-cabeça social. Não se sentia disposto a atender certas convenções sociais, a trair sua individualidade em prol de aceitação dos outros. Quando tentava, falhava. Era maior do que ele.

Quando lhe ofereciam uma bebida, ele gentilmente recusava. Quando o chamavam para sair, muitas vezes simplesmente não tinha saco pra isso, mesmo que fosse com seus melhores amigos. Principalmente se sabia que iriam sair pra encher a cara. O que ganhava com isso, se beber nunca fora do seu feitio, por diversos motivos - não apenas o religioso, como muitos pensavam? 

Outros brincavam e zoavam com ele por ser bv. Diziam que iam arrumar uma garota pra perder logo esse bv. Inadmissível, inconcebível um cara com 18 anos nunca ter beijado alguém na boca na vida! Outros amigos, mais extremos, até brincavam dizendo que o levariam num puteiro. Ele era todo sorrisos, rindo dessas brincadeiras, dessas zombarias, dessas piadas. Mas no fundo sentia-se nervoso, incapaz de imaginar como reagiria se o pressionassem a tal. Daria para trás e seria ridicularizado por arregar na hora? Ou agiria como queriam que agissem, pegando a garota pra alegria da galera? Por isso evitava sutilmente. Contava com a auto-depreciação para abordar tal tema, buscando fazer com que o respeitassem por isso, com que não o forçassem a nada.

Às vezes era a carne que falava mais alto. Não precisava da pressão dos amigos; o desejo vinha por si só, o pensamento de como seria sua vida se não tivesse perdido aquele maldito bv logo. A carne mortificava a santidade, era alimentada no lugar desta. Brincadeiras aqui e ali mostravam alguém que parecia disposto a deixar sua espiritualidade de lado por um momento efêmero. Mas o juízo voltava, não apenas sobre isso mas sobre várias coisas. Pelo amor ou pela dor ele recobrava a razão. Lembrava-se das palavras, dos valores que lhe foram ensinados. Da sua singularidade. Lembrava-se de Quem tinha de seguir, Quem devia ser o seu modelo de comportamento. "Devo focar Nele", pensava. "O resto é consequência e eu não devo nada a esse mundo".

Ele não era perfeito; ninguém o é. É só que sua hipocrisia era mais escancarada em alguns momentos do que em outros. O que às vezes era supostamente uma ideia progressista que adotava na verdade era apenas uma máscara para se justificar, para justificar pensamentos que sabia serem incorretos. Ele não mentia para si mesmo; e justamente por conhecer a verdade de seus atos e seu interior tantas vezes deturpado era que o sentimento de culpa e remorso era tão intensificados. Algumas vezes eles não precisavam voltar porque ele não voltava aos mesmos erros. Outras vezes...

Ele também não era fixo a uma panelinha. Descobriu que podia ser amigos de várias pessoas, todas tão diferentes entre si. Mas nunca se sentia inteiramente parte de um grupinho. Às vezes faziam planos que não o incluíam (ou ele se excluía). Alguns dos grupos com os quais andava eram de pessoas com os mesmos perfis, mas ele não sentia como se compartilhasse dos mesmos perfis que elas. E por mais forte que fosse a amizade deles, sempre sentia que essas diferenças pesavam em vários momentos.

Ele sabia que nem tudo em sua vida significava escolher um meio-termo. Nem tudo podia se resumir a neutralidade. Ele não era rancoroso, mas guardava muitas coisas - muitas inúteis. Pensava mais do que agia, e sua mente criava um monte de situações, muitas totalmente nonsense (era dos que criavam diálogos em sua cabeça). Também observava bastante, juntando as pistas de certos assuntos aqui e ali. As pessoas podiam zoá-lo pelas costas. Mas ele saberia. Infelizmente só saberia e provavelmente nunca teria a coragem de ir além disso.

Mas mais do que tudo, ele temia por sua (e)terna contraditariedade. Em muitos casos ele sabia que aquele era apenas um termo bonito para hipocrisia mesmo. Também se achava superestimado por muitos, reflexo de uma auto-estima baixa e um temperamento melancólico. De certas pessoas queria mais atenção. Ao mesmo tempo por diversos momentos queria fugir do mundo, imergir em sua solidão que às vezes era tão amigável e calorosa. Ela não o fazia mal, não como as palavras de outros (e principalmente, de si mesmo) o faziam. 

Ele sabia que não era o mesmo de quatro ou cinco anos atrás, mas ao passo em que alguns aspectos mudara para melhor, também sabia que em outros essas mudanças tinham sido negativas. Sentia que às vezes andava em gelo fino, os valores seus contra os valores - ou a falta de valores - dos outros. Moralidade contra amoralidade e contra moralismo. Às vezes, ele contra o mundo. Outras, ele lado a lado com o mundo. E assim ia, sabendo que seu maior inimigo era a si mesmo. E que seu maior amigo residia no alto.

No fim das contas, ele sabia que sua vida era mais do que sua auto-estima ou seus relacionamentos ditavam. E que todo esse sentimento de "desfuncionalidade" era reflexo de uma verdade óbvia: 

Seu mundo nunca fora este. 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

A Humana Barbárie.

Eu não sei se sou um pacifista. Na verdade eu nunca me identifiquei como tal.

Mas nesses últimos dias, tenho sido conduzido a reflexões poderosas acerca da natureza da guerra, dos homens e do que é ser humano em geral. Tudo por causa da minha leitura de "Cartas no Front", talvez o livro mais emocionante que já tenha lido em minha vida. Nunca cheguei tão perto de derramar lágrimas em uma leitura como foi nesses últimos três dias (manly tears, é claro). Sério, acho que todo mundo deveria ler esse livro.

O que mais me emocionou e cativou em "Cartas do Front" foi que ele trouxe o lado humano da guerra. Para além de ideologias, motivações escusas, discursos políticos e ambições de  poderosos, temos os relatos de homens e mulheres longe de suas famílias, de seus amigos, longe de suas vidas, levados para o horror, a barbárie, toda a completamente desumanidade, para experiências que mudarão sua vida e o moldarão para o bem e o mal. 

Cada indivíduo é único, em sua singularidade e modos de enxergar o mundo e a realidade à sua volta. Esse é um dos maiores trunfos do livro: os diferentes pontos de vista muitas vezes refletindo os mesmos medos, desejos, anseios, sentimentos. Estamos acostumados a ver os grandes conflitos mundiais sob a ótica dos vitoriosos, mas através desse livro aprendemos que um nazista não é menos humano do que um americano. Que nem todo iraquiano é um terrorista, que se autodenominar cristão não lhe dá o direito de julgar um estrangeiro, de se sentir melhor do que o "inimigo". É uma experiência para abrir os olhos frente à muitas coisas da vida.

Passam-se as guerras, mudam-se os cenários, mas o homem continua a ser o homem. Alguns encontram sua fé, outros se reduzem ao niilismo, mas o homem - a despeito dos riscos de uma progressiva perda de humanidade, dos quais muitos são acometidos - continua a ser homem.

Uma das coisas mais lindas e emocionantes que eu li nele foi o modo como indivíduos que foram inimigos ferrenhos durante esses conflitos acabaram encontrando uma paz entre si mesmos e profundas amizades que se estendem por anos. Quando o autor, Andrew Carroll, visita Saravejo e ouve a história da morte do pai de seu guia, afirma contundentemente "Meu Deus, você deve odiar os sérvios". Ao que seu guia, Amir, responde:

"Não! Não e não. Já houve ódio demais. estou cheio de tudo isso. Minha namorada é sérvia. Muitos sérvios em Saravejo e em toda a Bósnia sofreram(...). Uma hora isso precisa acabar. Já houve o bastante. Tem que acabar". 

E quando Andrew, marcado por aquela profunda demonstração de compaixão, pergunta a Amir como ele poderia tê-la diante de tantos horrores que teve de encarar, a resposta é: "Somente quem passou por isso pode realmente entender como é ruim".

Outras passagens reforçam esses atos de reconciliação: o memorial das vítimas em Stalingrado, na Rússia, executa canções de Schumann (um compositor alemão) como um aceno para os alemães que também perderam milhares de seus homens nessa batalha; um piloto americano mantém contato com um piloto japonês mesmo sessenta anos após o ataque de Pearl Harbor; o filho de um outro piloto americano casa-se com a filha de um soldado japonês; um capitão austríaco mantém uma amizade de mais de quarenta anos com o capitão americano que tão bem cuidou e tratou dele após prendê-lo, escrevendo ainda uma carta de condolências à viúva de seu captor e amigo quando este morre. 

Quem pode entender esses tão estranhos e formidáveis laços, que surpassam toda e qualquer chance de ódio? Quem pode entender a mente de um homem que sobrevive à guerra, mas carrega feridas na alma que a muito custo serão tratadas? O cinema e a literatura estão cheios de histórias que romanceiam a guerra, de outras que tratam desses combatentes traumatizados, mas o diferencial deste livro é trazer a tona o sentimento genuíno que perpassa gerações e chega até nós. Somente quem esteve no campo de batalha pode nos dar a verdadeira ideia daquilo que enfrentaram. De encarar a morte com seus olhos. De sofrer nas mãos de inimigos bárbaros, mas também de receber ajuda da onde menos se espera, quebrando paradigmas, preconceitos. Acima de patriotismos, bandeiras e crenças, um inegável senso de respeito, confiança e lealdade, laços indefectíveis que se perpetuam ao longo dos anos, junto com as memórias boas e ruins daqueles que lutaram ao seu lado ou contra você. É impossível entender essas camaradagens. É impossível entender a guerra ou que os motiva, o que as faz serem tão destrutivas (mesmo quando seu objetivo é a paz), ou o que a faz produzir frutos tão inesperados. 

“Os veteranos que ofereceram cartas tão reveladoras esperavam que elas pudessem ter um valor catártico para homens e mulheres que servem hoje nas Forças Armadas. Ninguém pode entender verdadeiramente a vida militar – as constantes pressões, a separação dos entes queridos, tanto a excitação quanto o terror de seguir para o combate, o choque devastador de perder um companheiro – como aqueles que já passaram por isso. Os mais antigos veteranos simpatizam profundamente com a atual geração de soldados e querem que saibam que há algum conforto em perceber que outros também suportaram as mesmas dificuldades."

O verdadeiro sentido da guerra é expresso em pungentes passagens como essa:

"Embora a maioria das pessoas acredite saber o que é a guerra, será que sabe mesmo? – estando tão distante das frentes de batalha, será possível saber?
Só se sabe o que é a guerra quando se veem os aviões em formação no começo da manhã, voando em direção aos alvos... e se vê esta mesma formação voltando à noite. Mas o número já não é mais o mesmo! Doze partiram, nove voltaram. Fica-se ali, parado, olhando para o alto, observando-se afastarem-se, na direção do horizonte, e então desaparecer. O que de fato aconteceu? Aqueles que mergulharam em chamas... terão morrido como nos filmes? Creio que não. Não com um sorriso nos lábios e um brilho alegre nos olhos, mas talvez com a terrível e dolorosa consciência de que tudo chegava ao fim! É preciso ver a leva de feridos voltando da frente de batalha... acima de tudo, ver a luz se apagar nos olhos desses homens. Jovens tremendo devido à exaustão nervosa e chorando como bebês. São, ou foram, homens fortes, que não tiveram ou que jamais terão a chance de viver uma vida normal... As pessoas podem acreditar que sabem como é a guerra. Esse conhecimento é ilusório. Tenho um corpo despedaçado pela guerra, tomado de pavor até o fundo da alma. Quando estava nos EUA, a guerra era distante, irreal. Eu lia, via as fotos, mas agora eu sei."

Eu comecei esse texto dizendo que não sabia dizer se era um pacifista. Mas termino-o dizendo - e isso com base em tudo que extraí desse emocionante e catártico livro, dos seus incontáveis relatos que variam do mais leve humor ao mais sombrio desespero - que talvez o seja. Ninguém pode dizer o que esses homens e mulheres passaram, sejam soldados ou civis. Por vezes vejo em alguns dos relatos essas pessoas desejam que as gerações futuras encontrem a paz e não precisem mais guerrear  por motivo nenhum. O que diriam de nós se vissem o que nos tornamos? Que não cumprimos suas expectativas, tornando-nos cada vez mais mesquinhos, ignorantes, arrogantes e superficiais? Que estamos perdendo quaisquer valores que um dia nos foram passados, convertendo-nos em seres amorais e gananciosos? Creio que se mais pessoas lessem esse livro e se dessem conta do impacto que ele pode causar, poderia sim haver uma mudança. Afinal de contas, "Livros não mudam o mundo. Pessoas mudam o mundo. Livros só mudam as pessoas".

Por fim termino com mais uma passagem da obra, que reflete o senso de esperança que foi depositado em nós, o chamado que devemos atender.

"Chegaste a um mundo repleto de imensos problemas. Com inúmeros tormentos e condições deploráveis. Numa época em que graves e grandiosas questões dominam a mente humana e a guerra, a terrível guerra, enche as nações de desolação e pesar. Esse, no entanto, é o nosso bom e velho mundo. Há tanta grandiosidade e beleza ao nosso redor e em toda parte da natureza. Espero sinceramente que, à medida que tua pequena vida se expanda, sejas capaz de abraçar e reter, com extraordinário vigor, uma parcela dessa beleza, desse prazer e dessa felicidade junto de ti. E desejo que vivas para testemunhar os problemas que nos atormentam assentados sobre princípios de justiça e correção. E os homens aprenderão a não mais guerrear".

quarta-feira, 19 de março de 2014

Gnothi Seauton.

"Conhece-te a ti mesmo". De certa forma, é o que eu tenho buscado fazer desde o ano passado. Na lista de "coisas que eu conversei com Ricardson", essa brevemente veio à tona. Fazendo uma análise em retrospecto vejo que sei mais de mim do que sabia há um, dois anos atrás. No Ensino Médio, isso nunca passou pela minha cabeça - compreender minhas nuances, minhas virtudes, meus defeitos. Aproveitar meu senso aguçado de observação, a minha mente extremamente fértil, a minha história de vida, em favor de mim mesmo. Mas agora faço, e é engraçado, porque pareço ainda longe de me entender como um ser completo.

Como um amigo meu me disse: " a gente é menino". Uma frase simples, mas que revela uma profundidade surpreendente. Me vejo, nestes pouco mais de 18 anos, com tantas ambições, sonhos, planos. Eu nunca me vi como alguém vivido, repleto de experiências marcantes - pelo menos não num sentido físico -, mas ontem Rica me disse algo que me marcou: como ele estava impressionado por minha rica vida. Puxa, eu não esperava isso. Mas considerando o quanto sou bom em me diminuir, não é de surpreender que as pessoas me vejam com outros olhos, não?

Bom, na verdade é. Vejo que se trata de algo que vai perdurar por muito tempo em minha vida, talvez ao longo de toda ela. Não diria que todo o meu ser, minhas experiências, meu eu gira em torno dessa visão às vezes tão diminuída de mim, mas a julgar pelo meu traço de personalidade, até pelo significado do meu nome - sim, fui atrás dessas coisas (só não vi signos porque não acredito em signos) - é sim um fator impactante e que revela muito da minha pessoa.

Outra coisa engraçada é que parece que eu atraio uma "aura de bullying" comigo - sendo geralmente o mais zombado dentre o círculo de amigos que frequento, onde quer que esteja. Assim tem sido na universidade, mas o modo como eu lido com isso lá é muito diferente da escola. Não me deixo abater nem nada: zombo de meus colegas, faço um baita dum humor auto-depreciativo, rio das brincadeiras que fazem. Acho que isso reflete uma maturidade em mim que não encontrava em tempos passados. A habilidade de não se deixar abalar.

E perceber que no fim, o maior obstáculo pra você é você mesmo.

Penso muito. Sério. Acho que minha mente funciona duas vezes mais do que a das outras pessoas, não tem cabimento. Crio situações irreais na minha cabeça, invento conversas, penso em coisas que poderiam ter acontecido mas não aconteceram, me distraio com uma facilidade enorme. Sou tremendamente criativo, e claro que isso é uma coisa boa - ainda mais para alguém apaixonado pelo ofício da escrita. Mas o fato de pensar em tantas coisas absurdas já me fez passar por algumas situações constrangedoras, como ficar alguns dias sem falar com a ex por ela não ter te respondido - e aí entra a questão de falta de iniciativa (afinal de contas, só ela tinha de vir falar comigo?) e orgulho (não, eu não vou puxar conversa; ela deve fazer isso).

Às vezes sinto que exagero demais minhas problemáticas. Como se o que importasse no mundo fosse resolver apenas meus conflitos internos, nada mais. E sinto que isso é de certa forma tão mesquinho e egoísta que chega a ser repulsivo. Falei no post anterior da futilidade que ronda a minha vida, como luto contra ela - ou devia lutar. E comentei como era tão parte de mim quanto os demais defeitos e virtudes. Eu não me imaginava fazendo esse post, mas as palavras gregas me vieram à cabeça e cá estou eu. Porque este blog foi criado para que pudesse expressar acerca de quem sou e do que penso. E me sinto livre pra fazer isso sem um peso na consciência, sem temer estar sendo expositivo demais acerca da minha vida. 

Tempos atrás uma amiga minha me elogiou pela sensibilidade que eu tinha em perceber as coisas à minha volta e no meu modo de ver o mundo, lamentando-se que pouquíssimas pessoas no mundo fossem assim. Fiquei encantado com isso, especialmente porque nós dois temos muitos pontos em comum. E me faz ver que não estou sozinho. Eu não encaro essa "sensibilidade" como algo ruim, de jeito nenhum (e se você, babaca, encara como algo "afeminado", o problema é seu). É uma das melhores coisas que descobri sobre mim. E dia após dia, nestes inesperados caminhos da vida, conheço mais de mim mesmo e sei que muitos se sentem isso. Sou menino. Tenho muito a viver, se Deus quiser. E muito a oferecer a este mundo.