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domingo, 27 de setembro de 2015

Da ideologia, da contradição e da essência cristã.

"É tão intelectualmente desonesto defendermos uma ideologia que não conhecemos, como atacarmos uma ideologia que nunca examinamos. Estudar é fundamental. Livro na mão e pé na lama da favela produzem os melhores intelectuais. E a melhor teologia!

Falava outro dia no Congresso da Juventude Batista Brasileira, realizado em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, quando um grupo de jovens, ao término da minha mensagem, me procurou. Conversamos longo tempo. Gostei demais deles. Todos demonstravam grande inquietação quanto a serem considerados marxistas pelo simples fato de defenderem certas ideias, que na verdade, em seu modo de ver, representam apenas o que o cristianismo proclama. Eles me pareceram lidar com uma pergunta importante, que poucos ousaram responder: quanto do marxismo uma pessoa precisa acreditar para ser considerada marxista? Lembro-me de Dom Hélder Câmara: "Quando dou comida ao pobre dizem que sou santo, quando pergunto por que algumas pessoas são pobres dizem que sou comunista".

Outro tipo de injustiça também pode ser praticada. Considerar necessariamente inimigo do pobre quem rejeita o marxismo. Há muitos que almejam a economia de mercado, com todo seu estímulo à produção de riqueza e competição criativa, regulada pelos ideais de justiça do cristianismo. Eles não creem na revolução do proletariado, não estimulam a luta de classe, e, contudo, rejeitam a exploração do pobre, o lucro como a medida de todas as coisas e a ganância que esgota os recursos naturais do planeta.

Como o cristianismo não cabe nem nas ideologias de direita, nem nas ideologias de esquerda, gostaria de dizer aos que se sentem injustiçados, vítimas dos ataques mais ácidos de ambos os lados, que não ser compreendido é da natureza da verdadeira sujeição a Cristo. Faz parte da vida cristã ser objeto de contradição. O dia em que o mundo nos compreender há muito teremos deixado de viver como discípulos de Cristo.

O importante, seja você de direita, seja você de esquerda, é ser encontrado do lado do pobre, perto de quem o Senhor Jesus sempre esteve. E quando uma chacina como a de Osasco - que interrompeu a vida de 19 pessoas no dia 13 de agosto deste ano -, acontecer, jamais deixar de protestar. Porque você dificilmente será levado a sério se a defesa mais veemente das suas ideias não vier acompanhada da prática concreta da justiça e da misericórdia.

A ideologia sem obras é morta."

Antônio Carlos Costa

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Sobre refugiados, xenofobia e o necessitado.

Nada revela tanto da natureza humana quanto o relacionar-se com o outro. A verdadeira face de muitos - a crueldade e o ódio, a arrogância e o desprezo, a intolerância e o preconceito - pode vir à tona no momento em que são confrontados com as diferenças e necessidades do próximo. E poucas vezes isso tem sido tão evidente do que com a situação dos refugiados na Europa.

Foi preciso a foto de um menino sírio morto numa praia para comover o mundo acerca desse assunto, quando na verdade as raízes dele remontam a eventos como a Primavera Árabe e os conflitos étnico-religiosos que a anos assolam o Oriente Médio e a África. Para cada Aylan Kurdi pelo qual choramos há dezenas de árabes e africanos mortos em praias, ignorados pela grande mídia. No entanto, tão chocante e revoltando quanto ver a precariedade das condições de transporte dessas pessoas, é o tratamento que muitas estão recebendo ao chegarem à Europa.

Recentemente noticiou-se a imagem de uma repórter húngara pondo o pé para um imigrante e seu filho tropeçarem. Isso é apenas a ponta do iceberg. Vê-se uma clara falta de sensibilidade e tolerância da parte de muitos, ao que são somados fortes estereótipos (o muçulmano terrorista, o negro inferior, etc.), que não apenas se baseiam em argumentos equivocados, preconceituosos e parciais, como podem se revelar como heranças do imperialismo e colonialismo europeu, que subjugou os continentes asiático e africano e suas culturas habitantes. Tais heranças se perpetuam até hoje e se revelam em momentos como esse.

Sob gritos de "estão roubando os nossos empregos", "eles podem ter doenças", "precisam voltar para seus países", "não podemos sustentá-los" e etc., esconde-se uma aterradora desumanidade, que precisa ser extirpada de nós. E não precisamos ir muito longe, à África ou ao Oriente Médio, para combatê-la: basta começar pelo menino de rua, para o índio desapossado de sua terra. A luta pelo outro, contra nós mesmos, começa aqui.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Pela extinção da carrocracia.


Esta é a foto de minha mão direita aberta. Da ponta do mindinho até a ponta do polegar, ela mede vinte centímetros. A maioria das mãos, não importa as diferenças entre elas, sejam de homens ou mulheres, tem medidas similares: 20 cm da ponta do mindinho à ponta do polegar, quando espalmadas. Guarde esta informação. Retornarei a ela mais adiante.

Recentemente, numa discussão tuiteira, o comediante Marcelo Tas criticou o programa eleitoral do candidato à presidência, Eduardo Jorge (PV). Em sua propaganda, Eduardo Jorge recomenda às pessoas que usem menos os carros.

Ao que parece, Tas entendeu que o candidato havia dito para as pessoas não usarem carros. Entendeu errado, e este tipo de coisa acontece. Após disparar uma ironia contra Eduardo Jorge, perguntando como fariam as pessoas que não têm “vida mansa” como a do candidato, Tas obteve como resposta um singelo soco com luva de pelica: ele, Eduardo Jorge, é médico sanitarista. E se move como a maioria das pessoas no Brasil: pega metrô, ônibus, anda a pé, usa bicicleta. Eduardo Jorge, elegantíssimo, nem sequer levantou a seguinte bola: teriam os brasileiros sem carro uma “vida mansa”? Fica subentendido, contudo, e a resposta todos nós sabemos: a última coisa que alguém que só pode andar de transporte público tem é uma “vida mansa”.

Tas não se deu por satisfeito e acusou Eduardo Jorge de hipocrisia, ameaçando postar uma foto do Eduardo dentro de um carro. Convenhamos, ameaça ridícula, considerando que em momento algum o candidato negou andar de carro. Ele não disse "não andem de carro nunca". Ele pediu o que qualquer pessoa minimamente saudável e razoável já sabe: use menos o carro. Ponto.

O que significa este pedido? Este ano, por ocasião do Encontro Da Nova Consciência em Campina Grande [PB], tive a oportunidade de assistir a uma das palestras mais interessantes deste evento, considerando todas as que já vi desde que – muitos anos atrás – passei a frequentá-lo. O psicólogo Lucas Jerzy Portela deu uma conferência excelente sobre os problemas físicos e psíquicos desencadeados pela carrocracia.

Não pretendo detalhar, nem reproduzir perfeitamente o que Lucas disse. Vou sintetizar as coisas mais importantes, na minha opinião:

1. O uso excessivo de carros causa diversos males físicos e psicológicos.
2. O Brasil peca por se nortear em torno de uma veneração ao veículo automotivo por combustão: o carro.

Quais as soluções apontadas por Lucas? Sim, ele deu várias soluções práticas, e em nenhum momento estabeleceu um manual ou guia que devesse ser seguido, com fórmulas prontas ao estilo de imperativos categóricos kantianos. O que ele solicita [na verdade, não ELE apenas; o movimento pela libertação da carrocracia é muito mais amplo do que a existência do palestrante] é que as pessoas sejam razoáveis para o bem de sua própria saúde. E ser razoável significa pensar.

Por exemplo: se o lugar para onde você vai fica a dois quilômetros de onde você está, como você deveria se locomover? A não ser que você tenha restrições de movimento ou quaisquer outros problemas que justifiquem o carro, você deveria ir a pé. Não faz sentido ir de carro, ônibus ou táxi. Caminhar estes dois quilômetros vai fazer bem para sua saúde. Isso satisfaz inclusive outro ponto salientado por Lucas: a atividade física deveria ser processual, não pontual. Nós deveríamos estar em atividade física constante, ao invés de apenas dedicar uma hora por dia a isso.

Vamos a um exemplo prático e alguns contrastes: da minha casa até minha academia, são 800 metros. Eu vou a pé, todos os dias. Subo uma escadaria considerável e vou caminhando, já me aquecendo. Na volta, são mais 800 metros. 1,6 km de caminhada, sem contar o tempo na academia.

Eu conheço quem mora a 500 metros da minha mesma academia e vai até ela de carro. Além de ser mais um carro nas ruas [e um carro desnecessário, convenhamos], a pessoa ocupa uma vaga de estacionamento que poderia ser de outra pessoa que vem de um lugar mais distante. Um argumento possível “ir de carro é mais seguro” simplesmente não cola, pelo menos não NESTE trajeto. Seria mais honesto se estas pessoas assumissem: “sou viciado(a) em meu carro”. E, claro, tentassem reformular a maneira de usar tal veículo.

Não se trata de instituir o Império da Bicicleta, a Tirania do Pedestre, ou algo assim. A depender da distância e do que se encontre no trajeto [ladeiras imensas, chuva torrencial etc], faz mais sentido usar outros veículos. Fazer valer a razoabilidade é algo ao alcance de qualquer pessoa com inteligência normal e que não esteja profundamente adoecida pelo transtorno compulsivo carrocrático. O que se pede, é: pense no seu movimento pela cidade.

Quando vou para a USP [três vezes na semana], considerando o aperto do horário, eu vou de táxi. 17 reais até onde devo ir. Volto de ônibus, já que na volta não há pressa, o ônibus não vai lotado, e me deixa bem perto de casa.

Fiz uma experiência considerando meu trajeto até a escola onde aperfeiçoo meu inglês. Medi três vezes cada possibilidade.

De táxi, da minha casa até a escola, eu pago 24 reais e levo 30 minutos, às vezes mais, em decorrência do tráfego. É uma loteria.
De ônibus+metrô, eu pago 4,65 reais e levo redondos 20 minutos. O máximo que já levei foram 25 minutos.

Qual o sentido de pagar cinco vezes mais e ainda chegar 10 minutos depois? O conforto de estar sozinho num táxi? O glamour de ouvir o taxista derramando suas opiniões sobre a existência? [comigo quase sempre acontece, eu devo ter uma magnífica cara de machista pra ter que ouvir as piadas que eles contam e outros comentários, sendo que só eles riem até sucumbirem ao silêncio constrangedor que imponho].

Não faz sentido no meu caso, principalmente considerando que o ônibus e o metrô não estão lotados no horário que eu vou para a escola. Se eu vou num horário em que o ônibus está lotado, pego o táxi até o metrô: 12 reais até a estação. Com mais 3 reais, pego o metrô e corto todo o congestionamento, e ainda ajuda a tornar as ruas menos congestionadas. Em 4 estações, chego à escola.

Cada caso, evidentemente, é um caso. O fato é: temos carros, temos ônibus, podemos andar a pé, temos metrôs, há quem use bicicleta. Com tantos recursos à disposição, alguns bem razoáveis a depender do horário, ainda há quem use APENAS o carro. Exclusivamente o carro. SEMPRE.

E é nesta parte que alguém vai dizer “pra você é fácil falar! Eu moro na Zona Oeste e trabalho na Zona Leste! De transporte público minha vida seria uma merda!”. Se você pensou em usar este argumento, simplesmente pare e leia tudo novamente. Eu não estou dizendo que carro é proibido, mau e feio, não estou dizendo que carros são o demônio. Eduardo Jorge também não disse isso em momento algum. Se sua situação pede um carro, use-o.

[Lucas, o psicólogo, chega a ser mais duro sobre isso. Em sua palestra, ele disse que não faz o menor sentido morar tão longe do trabalho. Sugere que, se for seu caso, mude de casa, ou de trabalho. Claro, falar é fácil e nem todo mundo pode se dar a este luxo. Mas faz sentido considerar isso. Sua qualidade de vida aumentará substancialmente, se você conseguir morar perto do trabalho. A diferença será percebida em seu corpo e sua mente]

Pois voltemos aos 20 centímetros. É o tamanho de nossas mãos espalmadas. Olhe pra sua mão. Abra-a. Vislumbre a distância do mindinho ao polegar.

Em recente projeto informado pela prefeitura de São Paulo, Haddad anunciou que irá transformar o canteiro central da Avenida Paulista numa ciclovia permanente. Exatamente: aquele canteiro inútil, ele será um pouco mais elevado e será uma ciclovia permanente. Além disso, passará a fibra ótica por baixo da avenida, retirando da Alameda Santos aquele aspecto horroroso de varal de quinta categoria. Sim, porque até os de Nápoles são mais charmosos.

Esta nova ciclovia vai tomar algum pedaço do trajeto dos carros? Sim. VINTE CENTÍMETROS DE CADA LADO. Isso mesmo, a extensão de sua mão espalmada.

Desespero, agonia: Haddad quer destruir São Paulo. Os donos de carros estão sendo oprimidos, coitadinhos. Vi de tudo subir em meu feed de notícias, hoje, desde reclamações mais moderadas até as completamente loucas: matem Haddad. Odiei o projeto. Ele vai acabar com a Paulista. Haddad quer oprimir os donos de carros [risos].

Meus caros, ninguém precisa oprimir donos de carros. Eles fazem isso uns com os outros, mutuamente, sempre que agem de maneira louca.

É claro, toda essa reclamação não é pelos vinte centímetros. Só mesmo muita má vontade e ódio a priori pra achar que vinte centímetros a menos de cada lado irá piorar ainda mais o tráfego da Avenida Paulista. Aliás, é ódio a priori que parece funcionar contra Haddad e suas ideias: ele é do PT, odeiem-no. Queria eu que Kassab ou qualquer outro prefeito do PSDB tivesse feito isso que Haddad agora ousa fazer. Aquele canteiro ridículo no meio da Paulista, um espaço inutilizado, se converterá em nova opção de trajeto veicular. Eu acho é ótimo.

A castração dos 20 centímetros do espaço para carros, sendo tomada como uma castração simbólica dos pintos carrocráticos, reflete apenas a má vontade diante de uma coisa que não muda o já existente: há um canteiro central largo e inútil na Avenida Paulista.

O que piora o tráfego da Paulista não são estes 20 centímetros a menos de cada lado. São NOVOS CARROS. O que piora o tráfego da Paulista é gente sem noção que anda de carro por ali, sendo que poderia caminhar, pegar o metrô [a linha verde é ótima]. Ou passar a usar a ciclovia a ser inaugurada.

Pausa. Novo exemplo, pra ficar bem ilustradinho: uma das pessoas que estuda na mesma escola de inglês que eu, mora ao lado da estação Brigadeiro. Nossa escola fica pertinho da estação Consolação. Esta pessoa tem a minha idade. E vai de carro. DE CARRO. Ela poderia ir a pé, ela poderia ir de metrô, mas não, ela vai de carro. Não, ela não é aleijada. Ela é viciada. Em carro. Ela é louca. E esnobe. Um dia, perguntei a ela: "mas por que você vem de carro?". Ela respondeu: "porque eu posso".

Porque eu posso. Então tá, né? Só existe a senhora no mundo. Maluca.

O argumento de que São Paulo não é uma cidade europeia para ter tantas ciclovias procede de algum modo. De fato, São Paulo não é Europa, parem de compará-la a Londres, isso ofende Londres. Ela foi feita para copiar Chicago e sua carrolândia. O relevo de altos e baixos não ajuda a quem quer andar a pé ou de bicicleta. Mas você não precisa andar de bicicleta por toda a cidade, ora!

Mas a principal diferença entre Sampa e as cidades europeias não está no relevo. Está na mentalidade. As Américas em geral, do norte ao sul, consideram o carro um símbolo de status e de poder. Europeus são diferentes, neste ponto. Europeus andam, e como andam! Mesmo com o metrô maravilhoso deles. Eles andam. A imagem de gente de 70 anos, magra e definida, andando de bicicleta, é banal em várias cidades europeias.

Desde que vim morar em Sampa, há quase dez anos, só ouço reclamações sobre o trânsito, dos próprios paulistas natos. Alternativas estão sendo dadas. A minha parte eu fiz: podendo ter carro, não o tenho. Não faz sentido em minha vida, não faz sentido em meus trajetos, se preciso de um, pego um táxi. Gasto menos do que gastaria se tivesse carro. Você precisa ter um? Então tenha. Mas reveja seus hábitos, verifique se você faz alguma coisa parecida com as que descrevi neste post enorme. A Europa, que tantos admiram, precisa primeiro ser trazida para dentro de você. Se você fizer isso, talvez os 20 centímetros saiam não apenas da Avenida Paulista. Sairão, também, da sua cintura americana carrocrática.

Alexey Dodsworth Magnavita

domingo, 7 de setembro de 2014

Afinal, quem são "os evangélicos"?

*texto originalmente publicado na Carta Capital: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/afinal-quem-sao-201cos-evangelicos201d-2053.html
Homofóbicos, cortejados pela presidente, fundamentalistas. Massa de manobra de Silas Malafaia, conservadores, determinantes no segundo turno das eleições. De tanto que se falou sobre os evangélicos nas últimas semanas, nos jornais e nas redes sociais, talvez caiba uma pergunta: afinal, quem são “os evangélicos”?
A resposta mais honesta não poderia ser mais frustrante: os evangélicos são qualquer pessoa, todo mundo, ou, mais especificamente, ninguém. São uma abstração, uma caricatura pintada a partir do que vemos zapeando pelos canais abertos misturado ao que lemos de bizarro nos tabloides da internet com o que nosso preconceito manda reforçar. Dizer que “o voto dos evangélicos decidirá a eleição” é tão estúpido quanto dizer a obviedade de que 22,2% dos brasileiros decidirão a eleição. Dizer que “os evangélicos são preconceituosos”, significa dizer o ser humano é preconceituoso. É não dizer nada, na verdade.
Acreditar que há uma hegemonia de pensamento, de comportamento ou de doutrina evangélica é, em parte, exatamente acreditar no que Silas Malafaia gosta de repetir, mas é, em parte, desconhecer a história. A diversidade de pensamento é a razão de existir da reforma protestante. E continuou sendo pelos séculos seguintes, quando as igrejas reformadas do século 16 deram origem ao movimento evangélico, estes aos pentecostais e estes aos neopentecostais, todos microdivididos até o limite do possível, graças, novamente, à diversidade de pensamento – sobre forma de governo, vocação e pequenos pontos doutrinários. Boa parte destas, sem organização central, sem “presidência” nem representante, com as decisões sendo tomadas nas comunidades locais, por votação democrática.
Assim como não existe “os evangélicos” também não existe “os pentecostais”, nem “os assembleianos”: dizer que Malafaia é o “papa da Marina Silva” como disse Leonardo Boff, apenas porque ambos são membros da Assembléia de Deus, é ignorar que, por trás dos 12,3 milhões de membros detectados pelo IBGE, a Assembleia de Deus é rachada entre ministérios Belém, Madureira, Santos, Bom Retiro, Ipiranga, Perus e diversos outros, cada um com seu líder, sua politicagem e sua aplicação doutrinária. A Assembleia de Deus Vitória em Cristo de Malafaia, aliás, sequer pertence à Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil.
Ignorância parecida se manifesta em relação ao uso do termo “fundamentalista”, como sinônimo de “literalista”, aquele incapaz de metaforizar as verdades morais dos textos sagrados. A teologia cristã debate há dois mil anos sobre a observação, interpretação e aplicação dos escritos sagrados, quais são alegóricos e quais são históricos, quais são “poesias” e quais são literais. O deputado Jean Wyllys, colunista da Carta Capital, do alto de alguma autoridade teológica presumida, já chegou à sua conclusão: o que não for leitura liberal, é fundamentalista e, portanto, uma ameaça às minorias oprimidas. (Liberalismo teológico é uma corrente teológica do final do século 19 que lançou uma leitura crítica das escrituras, completamente alegorizada, negando sua autoridade sobrenatural, a existência dos milagres, e separando história e teologia).
Só que isso simplesmente não é verdade. Dentro da multifacetação das igrejas de tradição evangélicas, há as chamadas “inclusivas”, mas há diversas igrejas históricas, tradicionais, teologicamente ortodoxas, que acreditam nos absolutos da “sola scriptura” da Reforma Protestante, mas que têm política acolhedora e amorosa com as minorias. Algumas criaram pastorais para tratar da questão homossexual, outras trabalham para integrá-los em seus quadros leigos; outros, como disse o pastor batista Ed René Kivitz, estão mais dispostos a aprender como tratar “uma pessoa que está diante de mim dizendo ter sido rejeitado por sua família, pelo meu pai, pela minha igreja” do que discutir a literalidade dos textos do Velho Testamento.
O panorama da questão pode ser melhor entendido em Entre a cruz e o arco-íris: A complexa relação dos cristãos com a Homoafetividade (Editora Autêntica), livro qual tive a honra de editar. Nele, o pastor batista e sociólogo americano Tony Campolo, ex-conselheiro do presidente Bill Clinton, diz: “Se você vai dizer à comunidade homossexual que em nome de Jesus você a ama (...) não teria que lutar por políticas públicas que demonstrem que você as ama? Pode haver amor sem justiça? Eu luto pela justiça em favor de gays e lésbicas, porque em nome de Jesus Cristo eu os amo.” Campolo, entretanto, faz distinção entre direitos e casamento: “O governo não deve se envolver nem declarar, de forma alguma, o que é casamento, quem pode ou não se casar”, ele disse. “Governo existe para garantir os direitos das pessoas. Casamento é um sacramento da igreja – governos não devem decidir quem deve ou não receber esse sacramento.” Campolo acredita que esta será a visão dominante entre cristãos americanos “em cinco ou seis anos”.
Entre os evangélicos brasileiros há quem pense desde já como Campolo – distinguindo união civil de casamento. Há quem pense de forma ainda mais radical: que a união civil, com implicações patrimoniais e status de família, deveria valer não apenas para casais homossexuais, mas para irmãos, primos ou quem quer que se entenda como família. Há quem defenda o acolhimento dos gays nas igrejas, mas o celibato para eles. Quem, embora sabendo que mais da metade das famílias brasileiras já não são no formato pai-mãe-filhos, ainda luta para restabelecer esse padrão idealizado. Há, sim, quem acredite que o seu conjunto de doutrinas e o seu modo de vida são fundamentais. Há aqueles que, enquanto estamos discutindo aqui, está mais preocupado se a melhor tradução do grego é a João Ferreira de Almeida ou a Nova Versão Internacional. E há quem acorde diariamente acreditando ser porta-voz do “povo de Deus”, pague espaço em redes de televisão para multiplicar esse delírio (mas, a julgar pelo 1% de intenção de voto do Pastor Everaldo, somente ativistas gays e jornalistas desmotivados acreditam nesse discurso). Esses são “os evangélicos”.
Na fatídica sexta-feira em que o PSB divulgou seu programa de governo, enquanto Malafaia gritava no Twitter em CAPSLOCK furibundo, o pastor presbiteriano Marcos Botelho, postou: “Marina, que bom que vc recebeu os líderes do movimento LGBTs, receba as reivindicações com a tua coerência e discernimento de sempre e um compromisso com o estado laico que é sua bandeira. Vamos colocar uma pedra em cima dessa polarização ridícula entre gays e evangélicos que só da IBOPE para líderes políticos e pastores oportunistas.”
Botelho não representa “os evangélicos” porque não existe “os evangélicos”. Mas Marcos Botelho existe e é evangélico. Assim como existe William Lane Craig, o filósofo que convida periodicamente Richard Dawkins para um debate público, do qual este sempre se esquiva; existe o geneticista Francis Collins vencendo o William Award da Sociedade Americana de Genética Humana; existe Jimmy Carter, dando aula na escola bíblica no domingo e sendo entrevistado para a capa da Rolling Stone por Hunter Thompson na segunda-feira; existe o pastor congregacional inglês John Harvard tirando dinheiro do próprio bolso para fundar uma universidade “para a honra de Deus” nos Estados Unidos que leva seu sobrenome; existe o pastor batista Martin Luther King como o maior ativista de todos os tempos; existe o jovem paulista Marco Gomes, o “melhor profissional de marketing do mundo”, pedindo licença para “falar uma coisa sobre os evangélicos”. E existe o Feliciano, o Edir Macedo, a Aline Barros, o Thalles Roberto, o Silas Malafaia e o mercado gospel. Como existe bancada evangélica, mas existem os que lutaram pela “separação entre igreja e estado” na constituição, e existem os que acreditam que levar Jesus Cristo para a política é trabalhar não para si, mas para os menos favorecidos.
Existe o amor e existe a justiça, como existe o preconceito, o dogmatismo, o engano, o medo, a vaidade e a corrupção. Não porque somos evangélicos, mas porque somos humanos.

Ricardo Alexandre é jornalista e escritor, radialista e blogueiro, Prêmio Jabuti 2010, ex-diretor de redação das revistas Bizz, Época São Paulo e Trip. E é membro da Igreja Batista Água Viva em Vinhedo, interior de São Paulo.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

A Humana Barbárie.

Eu não sei se sou um pacifista. Na verdade eu nunca me identifiquei como tal.

Mas nesses últimos dias, tenho sido conduzido a reflexões poderosas acerca da natureza da guerra, dos homens e do que é ser humano em geral. Tudo por causa da minha leitura de "Cartas no Front", talvez o livro mais emocionante que já tenha lido em minha vida. Nunca cheguei tão perto de derramar lágrimas em uma leitura como foi nesses últimos três dias (manly tears, é claro). Sério, acho que todo mundo deveria ler esse livro.

O que mais me emocionou e cativou em "Cartas do Front" foi que ele trouxe o lado humano da guerra. Para além de ideologias, motivações escusas, discursos políticos e ambições de  poderosos, temos os relatos de homens e mulheres longe de suas famílias, de seus amigos, longe de suas vidas, levados para o horror, a barbárie, toda a completamente desumanidade, para experiências que mudarão sua vida e o moldarão para o bem e o mal. 

Cada indivíduo é único, em sua singularidade e modos de enxergar o mundo e a realidade à sua volta. Esse é um dos maiores trunfos do livro: os diferentes pontos de vista muitas vezes refletindo os mesmos medos, desejos, anseios, sentimentos. Estamos acostumados a ver os grandes conflitos mundiais sob a ótica dos vitoriosos, mas através desse livro aprendemos que um nazista não é menos humano do que um americano. Que nem todo iraquiano é um terrorista, que se autodenominar cristão não lhe dá o direito de julgar um estrangeiro, de se sentir melhor do que o "inimigo". É uma experiência para abrir os olhos frente à muitas coisas da vida.

Passam-se as guerras, mudam-se os cenários, mas o homem continua a ser o homem. Alguns encontram sua fé, outros se reduzem ao niilismo, mas o homem - a despeito dos riscos de uma progressiva perda de humanidade, dos quais muitos são acometidos - continua a ser homem.

Uma das coisas mais lindas e emocionantes que eu li nele foi o modo como indivíduos que foram inimigos ferrenhos durante esses conflitos acabaram encontrando uma paz entre si mesmos e profundas amizades que se estendem por anos. Quando o autor, Andrew Carroll, visita Saravejo e ouve a história da morte do pai de seu guia, afirma contundentemente "Meu Deus, você deve odiar os sérvios". Ao que seu guia, Amir, responde:

"Não! Não e não. Já houve ódio demais. estou cheio de tudo isso. Minha namorada é sérvia. Muitos sérvios em Saravejo e em toda a Bósnia sofreram(...). Uma hora isso precisa acabar. Já houve o bastante. Tem que acabar". 

E quando Andrew, marcado por aquela profunda demonstração de compaixão, pergunta a Amir como ele poderia tê-la diante de tantos horrores que teve de encarar, a resposta é: "Somente quem passou por isso pode realmente entender como é ruim".

Outras passagens reforçam esses atos de reconciliação: o memorial das vítimas em Stalingrado, na Rússia, executa canções de Schumann (um compositor alemão) como um aceno para os alemães que também perderam milhares de seus homens nessa batalha; um piloto americano mantém contato com um piloto japonês mesmo sessenta anos após o ataque de Pearl Harbor; o filho de um outro piloto americano casa-se com a filha de um soldado japonês; um capitão austríaco mantém uma amizade de mais de quarenta anos com o capitão americano que tão bem cuidou e tratou dele após prendê-lo, escrevendo ainda uma carta de condolências à viúva de seu captor e amigo quando este morre. 

Quem pode entender esses tão estranhos e formidáveis laços, que surpassam toda e qualquer chance de ódio? Quem pode entender a mente de um homem que sobrevive à guerra, mas carrega feridas na alma que a muito custo serão tratadas? O cinema e a literatura estão cheios de histórias que romanceiam a guerra, de outras que tratam desses combatentes traumatizados, mas o diferencial deste livro é trazer a tona o sentimento genuíno que perpassa gerações e chega até nós. Somente quem esteve no campo de batalha pode nos dar a verdadeira ideia daquilo que enfrentaram. De encarar a morte com seus olhos. De sofrer nas mãos de inimigos bárbaros, mas também de receber ajuda da onde menos se espera, quebrando paradigmas, preconceitos. Acima de patriotismos, bandeiras e crenças, um inegável senso de respeito, confiança e lealdade, laços indefectíveis que se perpetuam ao longo dos anos, junto com as memórias boas e ruins daqueles que lutaram ao seu lado ou contra você. É impossível entender essas camaradagens. É impossível entender a guerra ou que os motiva, o que as faz serem tão destrutivas (mesmo quando seu objetivo é a paz), ou o que a faz produzir frutos tão inesperados. 

“Os veteranos que ofereceram cartas tão reveladoras esperavam que elas pudessem ter um valor catártico para homens e mulheres que servem hoje nas Forças Armadas. Ninguém pode entender verdadeiramente a vida militar – as constantes pressões, a separação dos entes queridos, tanto a excitação quanto o terror de seguir para o combate, o choque devastador de perder um companheiro – como aqueles que já passaram por isso. Os mais antigos veteranos simpatizam profundamente com a atual geração de soldados e querem que saibam que há algum conforto em perceber que outros também suportaram as mesmas dificuldades."

O verdadeiro sentido da guerra é expresso em pungentes passagens como essa:

"Embora a maioria das pessoas acredite saber o que é a guerra, será que sabe mesmo? – estando tão distante das frentes de batalha, será possível saber?
Só se sabe o que é a guerra quando se veem os aviões em formação no começo da manhã, voando em direção aos alvos... e se vê esta mesma formação voltando à noite. Mas o número já não é mais o mesmo! Doze partiram, nove voltaram. Fica-se ali, parado, olhando para o alto, observando-se afastarem-se, na direção do horizonte, e então desaparecer. O que de fato aconteceu? Aqueles que mergulharam em chamas... terão morrido como nos filmes? Creio que não. Não com um sorriso nos lábios e um brilho alegre nos olhos, mas talvez com a terrível e dolorosa consciência de que tudo chegava ao fim! É preciso ver a leva de feridos voltando da frente de batalha... acima de tudo, ver a luz se apagar nos olhos desses homens. Jovens tremendo devido à exaustão nervosa e chorando como bebês. São, ou foram, homens fortes, que não tiveram ou que jamais terão a chance de viver uma vida normal... As pessoas podem acreditar que sabem como é a guerra. Esse conhecimento é ilusório. Tenho um corpo despedaçado pela guerra, tomado de pavor até o fundo da alma. Quando estava nos EUA, a guerra era distante, irreal. Eu lia, via as fotos, mas agora eu sei."

Eu comecei esse texto dizendo que não sabia dizer se era um pacifista. Mas termino-o dizendo - e isso com base em tudo que extraí desse emocionante e catártico livro, dos seus incontáveis relatos que variam do mais leve humor ao mais sombrio desespero - que talvez o seja. Ninguém pode dizer o que esses homens e mulheres passaram, sejam soldados ou civis. Por vezes vejo em alguns dos relatos essas pessoas desejam que as gerações futuras encontrem a paz e não precisem mais guerrear  por motivo nenhum. O que diriam de nós se vissem o que nos tornamos? Que não cumprimos suas expectativas, tornando-nos cada vez mais mesquinhos, ignorantes, arrogantes e superficiais? Que estamos perdendo quaisquer valores que um dia nos foram passados, convertendo-nos em seres amorais e gananciosos? Creio que se mais pessoas lessem esse livro e se dessem conta do impacto que ele pode causar, poderia sim haver uma mudança. Afinal de contas, "Livros não mudam o mundo. Pessoas mudam o mundo. Livros só mudam as pessoas".

Por fim termino com mais uma passagem da obra, que reflete o senso de esperança que foi depositado em nós, o chamado que devemos atender.

"Chegaste a um mundo repleto de imensos problemas. Com inúmeros tormentos e condições deploráveis. Numa época em que graves e grandiosas questões dominam a mente humana e a guerra, a terrível guerra, enche as nações de desolação e pesar. Esse, no entanto, é o nosso bom e velho mundo. Há tanta grandiosidade e beleza ao nosso redor e em toda parte da natureza. Espero sinceramente que, à medida que tua pequena vida se expanda, sejas capaz de abraçar e reter, com extraordinário vigor, uma parcela dessa beleza, desse prazer e dessa felicidade junto de ti. E desejo que vivas para testemunhar os problemas que nos atormentam assentados sobre princípios de justiça e correção. E os homens aprenderão a não mais guerrear".

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Aos mestres, com carinho.


Neste dia de 15 de outubro estou sendo levado a algumas reflexões interiores, daquelas que me surgem de vez em quando. Já parabenizei os membros da minha família que exercem a função de professores, mas não posso parar por aí.

Exemplos que vêm de casa

A educação sempre esteve presente aqui em casa. Minha mãe e meu pai são professores, de geografia e música, respectivamente. Somos uma família simples, não sem suas dificuldades, e já falei de algumas delas aqui ("Sete Meses"). Como tal, eu vi minha mãe e vários de seus colegas padecerem por causa de um governador descarado que tá pouco se lixando pra educação. Claro que ele não é o único. A educação é um problema sério em todo o país.

E ainda assim eles são o que são.

Dentre todas as coisas que eu posso ter orgulho dos meus pais, essa nunca foi algo que eu levei muito em consideração. Olhando em retrospecto, o fato deles serem professores nunca me foi visto como algo de mais. Deus, como eu errei nisso. Caramba, seria "apenas" uma profissão? Analisando os protestos dos professores no Rio, os pisos salariais miseráveis, o descaso com as escolas, a violência e a ignorância dos alunos, ser professor é realmente "apenas" uma profissão?

Para aqueles que se tornaram meus amigos

Agora olho para a realidade dos meus anos estudantis. Sempre estudei em escola particular. A realidade da pública, do descaso, isso eu nunca vivi. Na boca, sempre a palavra jocosa, a piadinha com a educação dos colégios públicos. A realidade cruel estava longe de mim, nunca me tocou.

Como é fácil nos sentirmos bem quando não sofremos tais males.

Dentro da realidade que eu vivi ao longo desses quatorze anos de ensino fundamental e médio, bom, eu nunca fui um aluno problema. Não dava dor de cabeça. Modéstia à parte, fui um "aluno exemplar". Isso não quer dizer que não houve atritos algumas vezes, ou que eu não cheguei a ir com a cara de algum docente. Especialmente no médio tinha sempre aquele ou aquela que detestava pra caramba, que achava um péssimo professor(a). A gente é humano, ué.

Por outro lado, com outros desenvolveu-se aquela camaradagem, uma "brodagem" além da simples relação aluno-professor. No meu caso, é engraçado avaliar a relação que eu tinha com Jesse, meu professor de física e o mais temido por todos. Experimenta tirar uma dúvida com ele, sacana, que cê vai sair chorando. E no entanto, eu tinha culhões pra perguntar a ele sem temer represálias ou até mesmo rir de sua cara. Sabe por quê? Porque fui pra recuperação de física no 1º ano. É, traumático. Esta e a de química naquele ano são as manchas no meu currículo escolar. Mas saber que ele acreditava que eu tinha potencial para ir além e tirar ótimas notas - como de fato aconteceu no ano seguinte e em menor escala no terceiro - mudou tudo. A ponto dele ter ido me cumprimentar por eu ter passado numa prova onde quase todo mundo perdeu. Uau, aquele gesto foi altamente significativo. Cada pequena vitória em física significava algo mais, e hoje posso dizer que realmente gosto pra caramba de Jesse.

No entanto, os professores mais camaradas que eu tive foram Sílvio Márcio, de Matemática, e Paulo Nascimento, de Geografia - minhas duas matérias preferidas (junto com História). Enquanto Sílvio (assim como professores mais antigos) foram colegas de trabalho da minha mãe no Colégio Modelo e no Savina, onde estudei, ela foi professora de Paulo na universidade. Era impossível não aprender com eles. E no caso de Paulo ainda aprendíamos Filosofia e Sociologia, e se há um cara que respeito pelas suas visões de mundo é ele. Me ensinou muita coisa. Aquela amizade que cê quer levar pro resto de sua vida, bater um pao existencial, falar de cultura pop e qualquer outra coisa, porque existe essa liberdade e esse respeito mútuo.

Conclusão e pensamentos finais

Na ficção temos vários exemplos de grandes mestres. Meu favorito é com certeza John Keating de "Sociedade dos Poetas Mortos", um dos meus filmes favoritos. É seguro dizer que tive alguns "John Keatings" em minha vida, seja na escola, seja em casa ou em outros lares da família. Como minha tia lindamente me disse: "Todos nós em algum momento somos educadores Vi... sempre que ensinamos o bem àquele que está ao nosso redor."

terça-feira, 8 de outubro de 2013

A morte da infância.




Acho que assim como eu, muitos foram pegos de surpresa ontem com a mudança da vinheta da Sessão da Tarde. Não importam as justificativas, foi como dar um chute entre as pernas de sua própria infância. Para muitos, assistir aquela vinheta antiga aparecendo na tela da televisão era garantia de uma tarde maravilhosa, assistindo aquele clássico que, não importasse quantas vezes era reprisado, sempre assistíamos. Bons tempos, bons tempos. 

Infelizmente estes tempos não voltam mais.

A tevê aberta parece não dar a mínima pras crianças. Seja a Globo tirando a TV Globinho do ar em favorecimento ao "Encontro" de Fátima Bernardes ou SBT tirando Chaves da grade (Agora só passa de madrugada. Quem vai assistir Chaves de madrugada? Sonâmbulos?), só pra citar alguns casos. Sem contar que né, os desenhos de hoje são um poço de idiotice, que em nada se equiparam aos de antigamente. 

Eu diria que a programação da tevê aberta é um lixo em todos os sentidos. Não é todo mundo que pode ter tv a cabo (meu caso), aí temos de sofrer com o canal do boi. Oh vida. Programação decente? Isso non ecziste. Raramente se encontra. Pra um amante de música erudita como eu até que podemos encontrar algum programa voltado pra isso em alguns canais. Havia um programa (nem sei se ainda passa) na TV Brasil, chamado "Auto-Falante", que destinava a apresentar um ótimo lado da música brasileira, bem como da internacional. Mas estas são exceções num mercado superficial e tendencioso, uma mídia manipuladora e influenciadora que mais serve a moldar mentes de acordo com padrões no mínimo escusos. 

E é claro, uma geração de crianças sofre com essa absoluta e terrível falta de qualidade. Eu sei que estou soando um bocado saudosista aqui, mas os guris de hoje jamais saberão o que é acordar no sábado e assistir Looney Tunes no SBT. Aqui em casa, há uma preocupação nítida com a qualidade dos desenhos que minha irmã assiste. Até porque o que se vê hoje é uma clara "adultização" dessa faixa etária, um esforço dos meios de comunicação em conferir uma precocidade altamente prejudicial. Seja no comportamento, na relação com a tecnologia, nas ofertas de lazeres, o que se vê é uma tendência nojenta a criar um modelo de vida pra pequenos seres em formação. 

Parem com isso, já! Apenas... deixem as crianças em paz. Deixem-as crescer naturalmente, viverem suas infâncias como é o direito de todo infante. Dem-lhes um livro, deem-lhes um desenho bom, seja um pai presente, pare de terceirizar a educação do filho. Ensinem-nas no caminho que devem andar, para que não se apartem dele.

sábado, 14 de setembro de 2013

O Rock in Rio e o espírito comercial e mercadológico dos tempos modernos.



Eu não gosto da página "Attwhore", mas a crítica desse post é pertinente e me fez refletir bastante.

Mais uma edição do Rock in Rio, mais uma polêmica. Num primeiro dia onde o destaque foram duas grandes cantoras do pop, Ivete Sangalo (que inclusive cantou "Love of My Life" do Queen numa interpretação boa, até) e Beyoncé, o DJ David Guetta naturalmente aparecem os críticos apontando a grande questão: "Cadê o ROCK do ROCK in Rio?""Tire esse pop daí!" e outros jargões. Sim, estou dentre os críticos. Por que não? Agora, se você acha que isso me impede de fazer uma reflexão mais aprofundada sobre o tema está enganado, meu amigo. 

Assim como está ligeiramente enganado se usa a desculpa do "rock significa agitar, não se refere ao gênero musical". Ok, pode até ser nisso que Roberto Medina pensou, mas não muda o fato - fato este brilhantemente observado num comentário que vi no facebook - de que a primeira edição foi sim um show de bandas de rock aliado a elementos brasileiros pop, como a MPB. O que se vê hoje é um evento pop onde o rock ficou em segundo plano.

Sempre fui um roqueiro. Não tenho vergonha disso, e não são pseudo-intelectuais que descem o pau (às vezes, merecidamente) nos pseudo-roqueiros da internet que vai me fazer abrir mão do estilo musical que me define. A grande questão aqui é que este evento está explorando a música das massas, e sempre foi assim desde sua primeira edição, porém o instinto mercadológico da indústria musical cresceu de uma forma tão exponencial nas últimas décadas que é óbvio que a atenção do evento passou a ser voltada a outros fatores.

Os anos 80 foram gloriosos pro rock em geral, especialmente diante do aprofundamento do heavy metal (concebido em fins de 60 e início de 70 e de início embebido no blues rock e no psicodelismo, pra então gerir seu próprio som) e do chamado rock "arena" ou "de estádio". É uma época em que eu queria ter vivido. Engraçado que meu pai me enganou por anos me dizendo que tinha ido ao Rock in Rio de 1985, e eu acreditei (nossa, como eu sou babaca, cara). Mas imagine um show em que tocam duas de suas bandas favoritas de TODOS OS TEMPOS, Yes e Queen. Além de outros nomes renomados, como Whitesnake e Iron Maiden (do qual eu não sou fã, mas reconheço seu papel pro heavy metal). Teria sido maravilhoso. Mas enfim, ainda faltavam 10 anos pra eu nascer então não há porque se prender a algo que aconteceu quando você nem era vivo. Voltemos ao hoje.

A questão é que a música se tornou um produto massificado e superficial, privilegiando as vendas em detrimento do conteúdo. Me refiro ao aspecto "cultura" aqui, porque esse é um tema sensível e gosto musical é uma parada pessoal demais, mas pra os que são contra os que dizem "funk não é cultura", penas pensem no seguinte: é saudável que um estilo musical e de vida que muitas vezes faz apologia a violência, a uma vulgaridade desmedida e a um viver totalmente supérfluo integre a tão rica cultura brasileira? Como isso reflete os padrões de nossa sociedade?

Mas é claro que porque Beyoncé dançou o "lek lek" ontem, tudo está bem. 

Aí, se eu não gostei disso os "pseudo-críticos" me esfolarão e me taxarão de mimizento. Eu nunca disse que estava mimizando, a questão é que o direito da crítica é válido a todos. E meus esforços aqui residem em apresentar uma crítica objetiva e inteligente, ao contrário de pseudo-roqueiros com suas opiniões superficiais e suas posturas arrogantes que têm mais é que serem criticados mesmos.

Uma vez que o pop é o centro das atenções da música, é inevitável que popstars virão para o Rock in Rio. Se o grande público ama a música eletrônica, então não há porque ficar surpreso com a presença de David Guetta. Isso sem contar o ecletismo dos outros palcos, oferecendo diversidade musical. Eu, se estivesse lá, me dedicaria a assistir as apresentações das orquestras Sinfônica Brasileira e Imperial, porque amo música erudita.

Se eu estivesse lá, o que mais assistiria?

Com certeza iria pra Muse e Alice in Chains, duas de minhas bandas favoritas da atualidade. E me dedicaria a Bon Jovi, Sebastian Bach e Dr. Sin, que embora não façam parte do meu rol de escutas tem minha curiosidade e respeito. Mas fora isso? Mais nada. Então me ateio a isso no sentido de que faz parte dos meus gostos, mas o resto de nada me atrai. 

Como é de praxe aqui no blog, uso elementos atuais pra fazer reflexos e reflexões sobre nossa sociedade. Então não adianta chorar, o Rock in Rio perdeu a sua essência, traindo sua própria proposta inicial - retratando o espírito mercadológico e massivo da indústria da música. No mundo utópico dos roqueiros, só rock tocaria lá. Agora deixa eu te dizer uma coisa: ISSO NUNCA ACONTECERÁ. Bem-vindo à realidade.




quarta-feira, 11 de setembro de 2013

O direito de se ofender.

Não há limites para o humor hoje.

Estes são tempos de discrepâncias. Há uma guerra entre o politicamente incorreto e o correto, um reflexo da liberdade de expressão vs. o moralismo que zela por nossas consciências. Nestes tempos, uma das máximas que parecem estar sendo pregadas é a da passividade ante a depreciação, um conceito camuflado através da ótica permissiva de que deve se levar tudo para o lado do bom humor e ignorar o que é ofensivo nas piadas. Se você se ofende, é taxado de mimizento, babaca, ridículo, e daí pra pior. Cale-se! É uma piada, não deve ser levada a sério, não é?

Contudo, a marcação cerrada em cima das piadas e o teor ofensivo de muitas delas é uma das muitas consequências de uma sociedade estagnada e confusa com seus próprios (des) valores. Uma sociedade que apregoa estar avançando em termos sociais e sexuais, mas em contrapartida sofre dos males de suas próprias hipocrisias. 

O direito de se ofender que eu pus no título refere-se ao fato lógico que estão querendo tirar de nós isso, apenas para justificar que de tudo se zombe. A questão aqui não é evocar uma censura, e tampouco estou defendendo moralistazinhos hipócritas e suas patrulhas do politicamente correto. É só que o limite do humor se dá pela própria consciência, e em tempos de amoralidade o que cerceará o conteúdo das piadas é a reação do próprio público.

Culpados

Agora vamos ver o outro lado da moeda.

A piada evoca o racismo contra negros. Isso a torna cúmplice do racismo? Analisando bem, a piada é um reflexo de um contexto social-histórico, mas afirmar que ela é cúmplice minimizando o fator humano na violência racial é uma tremenda babaquice. É como se seu dedo estivesse apontado apenas para o capanga, não para os outros capangas e o chefão. Lembrando que a questão aqui não é a minimização de um ou de outro. Há muitos culpados, cada um com seu papel.

A lógica é aplicável a outras formas de preconceito e aos estereótipos. Não ignorando o papel da piada em reforçar essa situação adversa, nem isentando o piadista, mas analisando imparcialmente (ou da forma mais imparcial possível) a situação como um todo. Entendendo que a piada pode ser um dos vários meios de se explorar o preconceito ou a crítica subjacente (este caso expresso através da ironia dirigida aos poderosos e aos problemas da sociedade), mas de forma nenhuma é a única culpada. O cerceamento ao que chamo de "humor ofensivo" muitas vezes não se é visto em outras áreas, aonde a discriminação pode ser ainda mais violenta.

Os culpados somos nós. E estou incluso nesse grupo, pelo simples fato de que já compartilhei de muitas piadas de negro, loira burra, de viado. E se eu te disser que não me arrependo de muitas delas? E que faria de novo? Como eu disse, é uma questão de consciência pessoal, muito mais do que uma patrulha ideológica. 

Quando o direito se torna justificativa para a irracionalidade

O grande problema do direito de se ofender reside na capacidade do ser humano de interpretação e aceitação. Quando um grande movimento está acontecendo, é inevitável que acusações desmedidas comecem a aparecer. Isso eu já abordei sutilmente no meu primeiro post sobre "ismos" acerca de exageradas suposições de que certas opiniões, pontos de vistas e até piadas são machistas, e é ainda maior em se tratando da homossexualidade. 

Com a cruzada anti-homofobia que está sendo vista por aí, a interpretação errônea toma conta da internet e cria alvos taxados de homofóbicos. Esse sentimento de patrulha ao conteúdo de diversos comentários é aumentado ante o que eu falei sobre a lógica da piada ser o único meio homofóbico. O direito de se ofender se volta contra si mesmo quando induz a uma intolerância desnecessária na irônica tentativa de se apregoar os direitos iguais, e neste caso não me refiro não só a homossexualidade, mas a todo e qualquer movimento que citei neste texto e outros que estão por aí buscando justiça para as minorias, os sexos, as pessoas. 

No fim, a vigilância mais necessária é a que fazemos sobre nós mesmos.

Tenho convidado meus leitores à reflexão e à reavaliação de seus próprios conceitos. Quero encerrar este texto dizendo que se no fim das contas fui contraditório no que eu disse, não era esta a minha intenção. Basicamente o que quero dizer é que a mesma liberdade de se fazer piada de tudo e de todos pode e deve ser aproveitada para criticá-las, sem o risco de ser taxado de mimizento. Quantas piadas ofendendo a religião que professo foram feitas, e nem por isso saio perdendo a cabeça por aí (embora admito que já cheguei perto várias vezes). Aliás, só a polêmica relação com a religião já renderia um post por si só. Mas por ora me aterei aos assuntos "seculares".

domingo, 8 de setembro de 2013

Ismos, pt. 3.

Da eterna luta entre o espírito e a carne.

Hedon

Vejo uma nova religião surgir nos dias de hoje: o culto ao "eu". 

Lembro-me que quando era mais novo, provavelmente entre meus 11 e 12 anos, fiz um trabalho sobre o Renascimento. Uma das questões que eu pontuei nele foi como neste período a visão teocêntrica de mundo passou a ser substituída pela antropocêntrica. Ou seja, Deus deixou de ser o centro do universo e o homem ocupou seu lugar. E ao fim deste trabalho, quando foi pedido que se citasse as influências do período Renascentista na atualidade eu pontuei exatamente isso: o culto ao corpo, o físico perfeito, a auto-valorização e a preocupação excessiva com a aparência.

É engraçado como lembro desse trabalho até hoje. É engraçado como, diante de tantos "ismos" para trabalhar resolvi encerrar essa série com essa temática. No fim das contas tudo se resume ao homem e as escolhas que faz dia após dia, o modo distorcido como se vê, a negação que faz a toda e qualquer possibilidade de existir algo além da sua carne. Pois o que é hedonismo senão a teoria de que é o prazer o bem supremo da humanidade? Num sentido amplo, deturpa o próprio conceito de felicidade, o qual já é por si mesmo algo tremendamente relativo. Geralmente o conceito de hedonismo é usado num termo pejorativo, mas o próprio homem é um ser que se pejora. E como é uma lógica funesta, essa.  

Antes de tudo, não venho aqui pagar de radical e dizer "huur duur chega de academias, pare de se preocupar com a aparência, vire um relento huur duur". Não. Mas esta é uma velha questão: as pessoas se importam com a aparência de tal forma que ignoram seu interior e o dos outros. Old but gold.

Material

"Maior sou e para maiores coisas nasci do que para ser escravo da minha carne." Sêneca

Nos tornamos escravos de um desejo materialista de vida, algo que nos sacie. E queremos mais e mais, porque nada nos satisfaz realmente. O materialismo não se refere apenas a bens compráveis, mas a todo e qualquer meio dito fútil que sirva como alternativa para preencher nossas necessidades. Ele se correlaciona intimamente com o hedonismo, porque a busca pelo prazer transcende as relações humanas e se estende aos meios acima citados. O que seriam eles? Carros, aparelhos eletrônicos, a academia? Tanto faz. A meu ver, tais meios correspondem a tudo que é efêmero, que não é indelével. 

"Tudo passa, tudo passará..." 

Enquanto isso o espírito definha. A alma agoniza. Não são nutridos, pois o corpo, o externo, esta "capa", é mais alimentado, mais visado, é julgado ser mais importante. Que mundo é esse onde o fútil é a lei, onde o exterior vale mais do que o interior. Não serei hipócrita aqui: é óbvio que julgo a aparência ser importante. Mas acredite, muita coisa mudou em relação a esse meu ponto de vista. Isso tem muito a ver com meu namoro, com o fato de que ela não correspondia a minhas expectativas de aparência física e no entanto conseguiu me fazer ver além do exterior, para amar seu espírito. E confesso que isso me fez ver o quanto era bonita fisicamente falando, ainda que ela mesmo não se enxergasse assim. Ainda que meu relacionamento tenha acabado, essa marca ficará comigo para sempre. Posso dizer que tenho "autoridade" pra discorrer sobre esse assunto.

Conclusões e pensamentos finais

Chego ao fim dessa série de pensamentos com uma sensação de dever cumprido. Falar de assuntos tão generalizados é correr o risco de cair em lugares-comuns, mas espero ter acrescentado alguma coisa a essas discussões. Claro que não é o fim; ainda há muito a que se fazer. Certos "ismos" precisam ser reavaliados, outros precisam ser extirpados. Mas nenhum está isento de reflexões. Refletir sobre este mundo e suas inconstâncias se faz necessário cada vez mais. 


Ismos, pt. 2.

Fim de semana. Família em peso aqui em casa, dediquei minha atenção a eles. Ok, agora que você sabe porque não postei nada ontem, vamos ao assunto do dia:

Ate/Comod

No post passado falei de machismo e feminismo, minhas interpretações pessoais acerca do assunto. Como falei lá são muitos "ismos" em voga nos dias de hoje, então só uma postagem não seria suficiente. E nesta aqui, bom, há um monte de dose pessoal envolvida nela.

Vai um Toddynho?

"Atheist is the new normal". Ou melhor, é a nova modinha. Antes de tudo, quero dizer que busco ter absoluto respeito por ateus, principalmente com os que têm respeito pelas religiões e crenças alheias. Conheço muito cara ateu/agnóstico por aí que é super gente boa, com quem dá gosto conversar com os mais diversos assuntos. Todos temos total liberdade de escolher no que crer e no que não crer. 

O problema não estão nessas pessoas que acabei de citar. Está naquele "ateu de facebook", que quer pagar de diferente e começa a ridicularizar as fés dos outros com termos como "crentelhos" e outros no mesmo nível. É claro, suas vidas se resumem aos extremos atos de intolerância e desrespeito na internet - e que não passam da internet. Não possuem argumentos para seu ateísmo, apenas sabem que são ateus. Bom, para estes indivíduos só deixo a seguinte pergunta:

Filho, tua mãe sabe que você paga de ateu no facebook?

Essas criaturas (estou usando as palavras menos ofensivas aqui, por uma questão de coerência com minha postura respeitosa) defendem a ideia de um Estado Laico quando não sabem nem o que o termo significa. Que o Brasil não é um país realmente laico, isso todos nós sabemos, mas ficar de mimimi porque na cédula está escrito "Deus seja louvado"? Pera aí, gente. Eu não estou vendo umbandistas, espíritas, budistas, muçulmanos e professantes de outras religiões reclamarem sobre isso (se se importam com a presença da frase e se sentem incomodados por ela é uma coisa que não posso dizer por eles). De qualquer forma, acho que dá pra entender o que estou dizendo. Ateu de facebook é uma criatura tão chata que nem outros ateus o suportam. E o que mais me irrita é a total depravação que fazem da Palavra, distorcendo-a até o ponto onde justifique sua intolerância. Claro, porque Hitler era católico né...

Conheça o que você critica. É muito fácil apontar as incongruências da Bíblia quando você nunca tocou numa e só sabe o que os outros "sabem". É a mesma lógica de eu aparecer aqui e xingar o Alcorão sendo que nunca li. É irracional da minha parte, e já que tantos ateus prezam tanto pela racionalidade podiam muito bem acatar o que estou sugerindo aqui. Um desafio, é o que proponho.

SSS-Salvo, sentado e satisfeito

Sabe o que eu falei sobre o cara ser ateu quando nem sabe por que é? Pegue essa lógica e aplique aos cristãos.

Se alguém chegar pra você e perguntar "por que você é cristão?" e você não souber responder, sugiro que reavalie TODA a sua vida. Não sabe por que professa uma fé? Não encontrou uma resposta? Está com sérios problemas, meu amigo. Reconsidere seus pontos de vista, vá atrás de uma resposta - uma resposta convincente, por favor.

A grande questão é que muitos têm ido a igreja, tem afirmado serem cristãos, tem alardeado por aí uma determinada postura de fé, mas... suas vidas encontram-se em total desacordo coma  crença que professam. Já tratei do assunto da hipocrisia em "Nós, Sepulcros Caiados" e "Deus Fala?", então não vou perpetuar neste assunto como se fosse a única coisa que tivesse a dizer, mas o motivo pelo qual estou falando novamente é porque o comodismo virou uma praga entre os cristãos. Julgando já ter obtido a sua "salvação", eles não apenas deixam de fazer o "ide" de Cristo, como também deixam de se aprofundar na leitura da Palavra, no sentido de mais conhecimento. A Bíblia não é um livro pra ser lido superficialmente e apenas uma vez. E isso é uma coisa que tanto cristãos quanto ateus têm de entender.

Conclusão e pensamentos finais

Eu não disse nada que já não tenha sido dito por outras pessoas, então sim, minhas palavras podem soar bastante clichês. Mas de qualquer forma é algo que preciso ser esclarecido, porque é uma situação insuportável, esta do desrespeito à fé alheia e a não-fé alheia. Em certos casos tenho vontade de eu mesmo confrontar outro cristão pra saber quais as justificativas dele para ser um cristão. São os imaturos que o autor de Hebreus trata em sua epístola, ao qual o apóstolo Pedro deseja: "Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo" (I Pedro 2.2). Aos ateus de facebook a Bíblia não diz nada, mas eu tenho algo a dizer: "Desejai afetuosamente, como meninos racionalmente nascidos, o toddynho, não falsificado, para que por ele vades crescendo."

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Ismos, pt. 1.

Quantos "ismos" nos definem hoje em dia? Afinal de contas este sufixo de origem grega exprime a ideia de "fenômeno linguístico; sistema político; religião; doença; esporte; ideologia, etc." (de acordo com o Wikcionário), então encontramos definições bem amplas. Mas aqui vou restringir a algumas questões bem pertinentes à nossa realidade atual.

Mach/Femin

Antes de tudo, uma coisa que se deve deixar bem claro é que machismo e feminismo não são ideias opostas. Bom, nem preciso entrar em detalhes acerca do que cada um significa, afinal tem sites melhores que o meu pra lhe explicar isso. Na verdade eu particularmente não entendia muito bem no que estava me metendo até ler um post que basicamente servia como um "resumão" pro movimento feminista. De acordo com a introdução daquele texto, eu podia me definir como feminista. Mas se eu sou, porque discordava de certos pontos? E se eu discordava era porque automaticamente sou machista, como é possível essa contradição em mim?

Num mundo perfeito, eu não seria julgado por minhas palavras, mas esse mundo não existe, então vou tentar ser o mais sincero e respeitoso: acredito que há uma terceira opção. O mundo não é esse lugar branco-e-preto que muita gente tenta pintar, como se essa questão dos sexos fosse meramente dualista. Veja bem, o dualismo a que me refiro não é dos sexos em si, dã (a não ser que você considere hermafroditas um terceiro sexo), mas sim à possibilidade de opiniões e posturas. Vejam só: se machismo e feminismo não são ideias opostas, não necessariamente não necessariamente quando eu não concordo com uma determinada postura do movimento feminista que já sou automaticamente machista. Aliás, que me desculpem, mas ninguém é 100% feminista. O machismo, infelizmente, é um conceito enraizado na nossa cultura há milênios, que se revela nos aspectos mais sutis. Extirpá-lo pode ser uma tarefa impossível.

Eu não nego que tenho posturas machistas. Estaria mentindo se dissesse o contrário e reconheço que preciso mudar ainda. A questão aqui é que esses conceitos, assim como os "ismos", foram demasiado generalizados ao ponto de uma situação atual TOTALMENTE irracional, dos mais piores julgamentos possíveis.

Não aguento quando...

É sério, gente. A coisa desandou. Não raramente vemos movimentos com intenções plenamente justificáveis perderem seu sentido por causa das ações descerebradas de alguns. Basta lembrar da polêmica do crucifixo na Marcha dos Vadias, ou dos vândalos dos protestos de junho. E aí, é claro, entra a questão da generalização. Que não serve apenas para os movimentos acima citados, mas à nossa sociedade em geral. Gente, generalização é uma das piores merdas que existem. Que me perdoem as feministas, mas existe sim feminazi. O texto de introdução ao feminismo que eu li dizia que não existe feminista extrema. Existe sim. Agora, pela lógica do autor, por pensar assim eu sou automaticamente um machista. Mas, mas... eu concordo com os pontos do movimento. Como é que fica? Sou um machista em estado de tratamento? É, talvez sim, mas ninguém era obrigado a concordar em gênero, número e grau com o que lá fora dito. 

De qualquer forma, só quero ressaltar que apoio inteiramente o movimento feminista sim, com minhas ressalvas pessoais (que não tenho a intenção de expô-las aqui), e que ele é bem mais do que algumas moças que agem de forma misândrica (sim, elas existem). É só que na minha opinião (Notou o negrito? É pra você entender que estou falando por mim, e não pelos homens em geral) ainda há muita incongruência no movimento que precisa ser sanada se quiserem atingir seus objetivos. Em resumo: os fins não justificam os meios. 

Dias de julgamento
A grande questão é: como a sociedade se vê diante das mudanças enfrentadas pelo gênero feminino? Ainda há muitos tabus a serem quebradas. Quer dizer, esta é uma sociedade mais tolerante do que a do passado, então vemos mulheres com empregos antes tidos como masculinos, largando aquela figura da dona de casa, a Amélia, dentre outros avanços. Mas esta também é a sociedade da inversão de valores, do moralismo hipócrita contrastando com a absoluta falta de respeito e a zuera infinita. É a sociedade que não sabe o que quer, que condiciona conceitos de felicidade ao hedonismo e ao materialismo (outros ismos pelo qual se vale a pena fazer um post inteiro - é, talvez eu faça!) .

Julgar as que se dizem feministas ainda é intrínseco a muitos de nós. Aqui levanto uma questão clássica: o rapaz que pega muitas garotas é venerado, ao passo que a garota que pega muitos rapazes é taxada de vadia. Duas balanças, duas medidas. Pessoalmente não concordo com quem tem esse tipo de postura, mulher ou homem, e isso tem a ver com minha ética cristã. Se fosse comentar as coisas do ponto de vista da minha ética cristã eu realmente seria muito xingado. Não que ela não esteja aqui: está, mas de uma forma implícita, estando sempre presente em cada post meu. Só um aviso, tá? Nem preciso comentar o que andam falando de minhas crenças por aí. Mas enfim, tô me desviando do assunto...

Conclusão e pensamentos finais

É difícil derrubar uma estrutura de milênios. Talvez o feminismo consiga, talvez não. Só sei que não vai conseguir com indivíduos enfiando o dedo na cara do outro pra acusá-lo de machista. Como eu disse: machistas somos todos nós, mesmo nas mais obscuras sutilezas. Eu posso estar errado sobre muito ou tudo que eu disse aqui, mas ainda assim era a oportunidade de expressar uma opinião que venho guardando há muito tempo. E esses ismos de que tratei não são a única grande polêmica da humanidade. Um post só não seria suficiente. Que venham outros, com mais sufixos e suas problemáticas.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O preço que se paga por ser você mesmo.

Eu realmente não me lembro de qual página do facebook peguei essa imagem. Droga. Mas foi de lá que eu tirei, antes que me acusem de violação de direitos autorais ou seja lá o que for.

No meu segundo post, "Matai o menino e deixai o homem crescer", eu dei uma breve pincelada acerca de como muitas vezes abdicamos de certos gostos e partes de nós mesmos em favor da padronização que a sociedade nos impõe, apenas pela necessidade de aceitação. Ontem eu estava pregando na minha igreja no culto dos adolescentes e novamente toquei nesse assunto, referindo-me à juventude aonde essa necessidade de aceitação é intensa e nos leva a fazer escolhas moralmente questionáveis, muitas vezes largando mão dos princípios que nos moldaram apenas para satisfazer e conquistar a atenção do outro.

Falar sobre esse assunto é meio que uma coisa batida, já. Mas é sempre importante se fazer esse questionamento, porque não são poucas as pessoas que dia após dia perdem a autonomia sobre si mesmas, abrindo mão de suas identidades, das características que a tornam únicas, em prol da massificação e padronização que estão nos sendo apregoadas.

Estamos em um momento crítico da sociedade. A imagem que eu postei faz referência exatamente a esse momento, e pasmem: a frase foi dita na primeira metade do século passado. Se naquela época já era conhecido esse modus operandi, que dirá hoje? Ainda assim continuamos a viver como se todo esse decaimento moral não importasse.

O que é normal pra você? O que você julga como sendo socialmente bem-aceito? Essa é uma pergunta de muitas respostas. Cada ser humano tem seu código ético e moral, suas regras. Entretanto parece-me que a cada dia que se passa a amoralidade cada vez mais toma conta. Eu já fui chamado de conservador, careta. Até por pessoas de quem eu gosto. O que é "normal" para um é a completa transgressão de valores para o outro. Eu não tenho orgulho do modo de pensar de certas pessoas, assim como eu sei que muitas desprezam minha visão de mundo. O que é certo e errado se torna cada vez mais relativo e mutável. Não abra sua boca pra dizer se a pessoa está certa em tomar certa atitude! Pedras serão lançadas contra você. Guarde a sua opinião se quiser viver Tudo é permitido; é proibido proibir. Somos livres. Mas o que é essa suposta liberdade, e porque ela morre quando o desejo morre? Já disse o grande poeta Pablo Neruda:

''Você é livre para fazer suas escolhas,mas é prisioneiro das consequências'' 


Somos seres hipócritas, rotuladores e pré-julgadores. Estamos constantemente sujeitos às pedras dos outros, assim como levamos as nossas nas mãos. Ah, pra onde nós vamos, o que estamos nos tornando? Porque o ato de sermos nós mesmos nos custa tanto, quando cada um deveria ser livre pra ser o ser único que cada humano está destinado a ser? Será que nem mesmo as pesadas consequências que sofremos por nossos erros nos alertam?

Este é um mundo fadado ao fim. Antes do físico ou cataclismático, o moral e ético.

[ATUALIZADO]: Apesar do tom pessimista em que terminei esta postagem, acabei por encontrar uma maravilhosa tirinha no site Complexo Geek, de autoria do sempre brilhante Bill Watterson (o autor de Calvin & Haroldo). Apesar de que o foco dela reside sobre a vida profissional, a sua mensagem é válida para tantos outros aspectos de nossa vida. No caso de não lerem direito, eis aqui o link da página: http://complexogeek.com/2013/09/02/ter-sua-propria-maneira-de-viver-nao-e-facil/