quarta-feira, 19 de março de 2014

Gnothi Seauton.

"Conhece-te a ti mesmo". De certa forma, é o que eu tenho buscado fazer desde o ano passado. Na lista de "coisas que eu conversei com Ricardson", essa brevemente veio à tona. Fazendo uma análise em retrospecto vejo que sei mais de mim do que sabia há um, dois anos atrás. No Ensino Médio, isso nunca passou pela minha cabeça - compreender minhas nuances, minhas virtudes, meus defeitos. Aproveitar meu senso aguçado de observação, a minha mente extremamente fértil, a minha história de vida, em favor de mim mesmo. Mas agora faço, e é engraçado, porque pareço ainda longe de me entender como um ser completo.

Como um amigo meu me disse: " a gente é menino". Uma frase simples, mas que revela uma profundidade surpreendente. Me vejo, nestes pouco mais de 18 anos, com tantas ambições, sonhos, planos. Eu nunca me vi como alguém vivido, repleto de experiências marcantes - pelo menos não num sentido físico -, mas ontem Rica me disse algo que me marcou: como ele estava impressionado por minha rica vida. Puxa, eu não esperava isso. Mas considerando o quanto sou bom em me diminuir, não é de surpreender que as pessoas me vejam com outros olhos, não?

Bom, na verdade é. Vejo que se trata de algo que vai perdurar por muito tempo em minha vida, talvez ao longo de toda ela. Não diria que todo o meu ser, minhas experiências, meu eu gira em torno dessa visão às vezes tão diminuída de mim, mas a julgar pelo meu traço de personalidade, até pelo significado do meu nome - sim, fui atrás dessas coisas (só não vi signos porque não acredito em signos) - é sim um fator impactante e que revela muito da minha pessoa.

Outra coisa engraçada é que parece que eu atraio uma "aura de bullying" comigo - sendo geralmente o mais zombado dentre o círculo de amigos que frequento, onde quer que esteja. Assim tem sido na universidade, mas o modo como eu lido com isso lá é muito diferente da escola. Não me deixo abater nem nada: zombo de meus colegas, faço um baita dum humor auto-depreciativo, rio das brincadeiras que fazem. Acho que isso reflete uma maturidade em mim que não encontrava em tempos passados. A habilidade de não se deixar abalar.

E perceber que no fim, o maior obstáculo pra você é você mesmo.

Penso muito. Sério. Acho que minha mente funciona duas vezes mais do que a das outras pessoas, não tem cabimento. Crio situações irreais na minha cabeça, invento conversas, penso em coisas que poderiam ter acontecido mas não aconteceram, me distraio com uma facilidade enorme. Sou tremendamente criativo, e claro que isso é uma coisa boa - ainda mais para alguém apaixonado pelo ofício da escrita. Mas o fato de pensar em tantas coisas absurdas já me fez passar por algumas situações constrangedoras, como ficar alguns dias sem falar com a ex por ela não ter te respondido - e aí entra a questão de falta de iniciativa (afinal de contas, só ela tinha de vir falar comigo?) e orgulho (não, eu não vou puxar conversa; ela deve fazer isso).

Às vezes sinto que exagero demais minhas problemáticas. Como se o que importasse no mundo fosse resolver apenas meus conflitos internos, nada mais. E sinto que isso é de certa forma tão mesquinho e egoísta que chega a ser repulsivo. Falei no post anterior da futilidade que ronda a minha vida, como luto contra ela - ou devia lutar. E comentei como era tão parte de mim quanto os demais defeitos e virtudes. Eu não me imaginava fazendo esse post, mas as palavras gregas me vieram à cabeça e cá estou eu. Porque este blog foi criado para que pudesse expressar acerca de quem sou e do que penso. E me sinto livre pra fazer isso sem um peso na consciência, sem temer estar sendo expositivo demais acerca da minha vida. 

Tempos atrás uma amiga minha me elogiou pela sensibilidade que eu tinha em perceber as coisas à minha volta e no meu modo de ver o mundo, lamentando-se que pouquíssimas pessoas no mundo fossem assim. Fiquei encantado com isso, especialmente porque nós dois temos muitos pontos em comum. E me faz ver que não estou sozinho. Eu não encaro essa "sensibilidade" como algo ruim, de jeito nenhum (e se você, babaca, encara como algo "afeminado", o problema é seu). É uma das melhores coisas que descobri sobre mim. E dia após dia, nestes inesperados caminhos da vida, conheço mais de mim mesmo e sei que muitos se sentem isso. Sou menino. Tenho muito a viver, se Deus quiser. E muito a oferecer a este mundo.

terça-feira, 18 de março de 2014

Fútil.

Ontem fui conversar com um amigo da família, Ricardson, que é psicólogo. Semana passada já tinha ido ter um encontro com ele, discutir acerca de todas as coisas pelo qual passei nesse semestre, as dificuldades que encarei, os erros que cometi. Por isso quando voltei lá ontem, me perguntei: "já comentei tudo o que tinha pra comentar. Do que vou falar agora?". Surpreendentemente, descobri que tinha muito do que falar.

Tenho passado muito tempo na internet - mais especificamente, no facebook - e isso não é bom. Até porque esse foi um dos principais fatores que contribuíram pro meu desempenho abaixo do medíocre nesse primeiro período e me levou a perder em mais da metade das matérias, praticamente atrasando meu curso em um semestre. Eu não consegui lidar com o vício depois de um ano me afundando em ócio até as aulas na UFS começarem e isso trouxe sérias consequências. Prometi a mim mesmo que mudaria isso nas férias, mas não é o que vem acontecendo.

Eu tinha acertado com meus pais que usaria o computador somente em um turno do dia, mas afora em alguns dias em que as circunstâncias me levaram a usá-lo em tempo reduzido não consegui sequer cumprir esse "acordo". Às vezes é cansativo discutir com eles por causa do tempo que estou aqui, mas o que me dá raiva é saber que estão certos. Não por causa deles, mas por causa de mim.

Porque às vezes sou fútil feito a desgraça.

Porque eu sou (e)ternamente contraditório. Mas cada vez vejo que não há nada de terno nisso. Não em viver nessa dualidade, mas por alimentar o lado que não deveria ser alimentado. Por negar a ouvir aquela vozinha do bom-senso que lhe alerta dia após dia de que a vida não é só esse computador, de que há algo lá fora - mesmo nesta maravilhosamente insossa Itapetinga. Hoje minha assinatura do Office expirou e eu não posso mais escrever meu livro; só no caderno agora. Seria um sinal divino pra fazer algo que não seja estar nesse notebook? Nem duvido, viu.

Eu odeio toda essa superficialidade que confronta a minha hábil percepção das coisas do mundo, do modo como analiso e entendo a realidade à minha volta. Como pode alguém ser tão profundo e banal ao mesmo tempo? O cara que se dispõe a essas análises aqui é o mesmo que sente vontade em pegar a porcaria de celular que tem e jogar na parede, pisá-lo e destruí-lo. Mas que não pode fazer isso porque sabe que os pais no momento não tem nenhuma condição de dar um melhor.

Eu me odeio por ser um cara geralmente tão tranquilo e conseguir perder a cabeça por coisas tão idiotas. Dentro de mim fumega um ser que às vezes é muito inconstante, em uma eterna luta para se sobrepor à superficialidade e viver a vida sem se deixar incomodar por coisas tão efêmeras. Não é a vida mais do que isso? "Não é a vida mais do que o mantimento, o corpo mais do que o vestuário"? Então porque se deixar dominar por tamanha futilidade? Que se estende desde o desejo de ter um celular melhor tanto porque o seu está com problemas ou porque se sentiu alienado tecnologicamente diante dos colegas de universidade e seus smartphones? 

Há um orgulho latente dentro de mim, um orgulho do que pouquíssimos tem (ou tinham) conhecimento. Há um tanto de inveja. Um bocado de baixa auto-estima, sensação de inferioridade, indisposição, preguiça. Futilidade. Há uma miríade de defeitos, mas isso me torna mais digno de pena do que outras pessoas? Cada ser humano é único, em suas qualidades e defeitos. Sei que de alguns destes jamais me livrarei, são tão parte de mim quanto as virtudes que busco (ou buscam) ressaltar. Mas eu sei em quem tenho crido. E sei que conversando com as pessoas certas, usando os recursos, posso ser diferente. Ser mais do que tudo isso.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

"Dead or alive, you're coming with me!"



"Missão dada (mesmo no exterior) é missão cumprida." AdoroCinema


Remakes geralmente são vistos com maus olhos, ainda mais se estivermos falando de um clássico, cultuado e adorado por muitos. Robocop é um desses filmes, uma obra icônica do cinema com sua hiper-violência, humor negro e sátira social. Bom, eu nunca o assisti (só assisti uma de suas sequências, que eu não lembro qual), então não posso dizer se é melhor ou não do que o remake de Padilha. Mas falando dessa nova versão isoladamente, digo que é um filme ótimo - e que não merece críticas tão injustas.

Vamos analisar os maiores detratores dele - os críticos americanos e os fã xiitas. No RottenTomatoes o filme está oscilando entre 49 e 50%. Aí você para e se pergunta: "meu Deus, por quê?". E a resposta é simples: eles não se cansam de ficar comparando o novo com o original de 1987. "Ah, não é tão violento por causa da classificação PG-13""Ah, o uniforme é preto e não cinza""Ah, ele não tem uma mão verdadeira""Ah, ele é MAIS ÁGIL do que o antigo Robocop".

Fãs xiitas, vão se lascar, ok?

A verdade é que o maior dilema de um remake está entre encontrar o equilíbrio entre não ser uma fotocópia do original e não ser uma versão nada a ver. E o Robocop de Padilha consegue isso. Adaptado a uma nova realidade, com novas temáticas e personagens (afora o protagonista, nenhum outro existe - nem mesmo com o mesmo nome - no original do holandês Paul Vernhoeven), ele é sim um filme diferente - mas as citações, elementos e singelas homenagens (como a quote que dá título a esse texto) podem sim agradar a muita gente que prefere o antigo.

E por mais que esta nova versão seja adaptada às massas como um legítimo blockbuster, possui o mérito de ser ousada, inteligente e crítica- tudo de uma forma sutil, é claro. O roteiro, assinado por Joshua Zetmer e com contribuições de Padilha, além de tratar em primeiro plano a relação homem/máquina, trás ainda ótimas críticas à política imperialista e hipócrita norte-americana, bem como a manipulação da mídia. 

Isso é evidente na sensacional abertura do filme, onde somos apresentados a Pat Novak (um Samuel L. Jackson inspirado como nunca), um apresentador direitista e que é a favor do uso das máquinas em solo americano, já que os EUA são o único país do mundo que proíbe a atuação militar delas. O que é irônico, porque o país é mostrado usando em Teerã para promover a "paz", mas o que se vê é imposição da ideologia yankee e subjugação de um outro povo, o que leva a um ataque suicida de homens-bombas iranianos que é rapidamente cortada da transmissão do programa de Novak, mostrando como ele é apto a manipular os fatos em favor do que defende. Aliás, muitos apontaram e eu retifico: Novak me lembra Datena, Marcelo Santana e muito desses apresentadores brasileiros que vemos nesses programas "verte-sangue" por aí, como Cidade Alerta, Balanço Geral e outros. Programas esses que me dão nojo, e que utilizam estratégias similares às mostradas no filme. Seria Padilha mandando uma indireta? Pode ser, mas ao que parece esse tipo de apresentador não é restrito ao nosso país. E mesmo se tratando de um filme passado em 2028, ele mostra um futuro bastante real e plausível, que encontra ecos nos presentes dias, onde vemos o EUA chutando as portas das casas árabes e de tantas outras nações para enfiar a sua "democracia" e "American Way of Life".

A outra temática do filme, a dicotomia homem-máquina, é tratada com bastante ênfase ao longo da produção. Vemos um Alex Murphy (um Joel Kinnaman que, apesar de ser um ator desconhecido, me agradou e convenceu bastante no papel principal) que é cada vez reduzido a uma máquina sem sentimentos, apenas para ser o produto perfeito da corporação OmniCorp (não se esqueça de notar o fato da fábrica da corporação estar localizada na China, assim como as grandes empresas fazem hoje por razões de mão-de-obra barata). Entretanto ao longo do filme o inevitável acaba acontecendo: o lado humano prevalece, principalmente graças à família de Murphy, um elemento ausente no original. A própria temática desse conflito interno do protagonista é maior explorada do que no de Vernhoeven.

Se por um lado Kinnaman pode ser estranho ao espectador por se tratar de um ator pouco conhecido, o elenco coadjuvante não podia ser melhor. Além da atuação épica de Samuel L. Jackson, destaco o sempre talentoso Gary Oldman no papel do Dr. Norton, responsável por criar Robocop, e Michael Keaton com suas usuais canastrice e canalhice, criando o CEO da Omnicorp que é o mais perto que temos de um vilão no filme. 

Por que digo isso? Por que vi em outra resenha uma das (poucas) falhas do filme é não criar um vilão presente o suficiente. O Raymond Sellars de Keaton é um empresário ganancioso e astuto, disso não há dúvida, mas é tão estranhamente carismático (justamente por ser tão canastrão e canalha como só Keaton pode ser) que nem mesmo quando toma atitudes "vilanescas" no clímax do filme acaba convencendo muito. Temos os policiais corruptos e o criminoso Vallon que armam a explosão que fere Murphy gravemente, o desprezível Mattox interpretado por Jackie Earle Hearley e até os drones e demais robôs pertencentes à empresa, mas não diria que eles são os grandes antagonistas. Robocop enfrenta tantos inimigos que no fim das contas nenhum deles se destaca tanto assim, a não ser Sellars.

Tecnicamente, o filme é um primor. É bom ver que Padilha mantém sua câmera trêmula e frenética vista nos dois Tropa de Elite - um sinal de que ele conseguiu aproveitar do seu estilo mesmo tendo de se submeter às regras de Hollywood, ao ponto de trazer os companheiros brasileiros Daniel Rezende pra edição e Pedro Bronfman pra trilha sonora. Esta aliás se destaca por revisitar o tema de Basil Poleudoris do primeiro filme e por canções como "Fly me to the Moon" de Frank Sinatra e "If I Had Only a Heart" do Homem de Lata d'O Mágico de Oz - canções inseridas no devido contexto. Há uma boa dose de violência, mesmo que quase nenhum sangue por causa da classificação etária. Por outro lado, temos uma cena fascinante e perturbadora que é a que mostra o quão danificado ficou Alex e o que restou de seu corpo após a explosão.

Há algumas cenas em particular que me chamaram a atenção, além da abertura em Teerão exibida pelo programa de Novak: uma singela cena onde vemos um homem com braços mecânicos executar um solo de violão (que serve de introdução para a construção do conflito homem/máquina); a cena onde Robocop vê o filho pela primeira vez após a explosão, já transformado em máquina; e é claro, a cena do depósito, onde temos o policial enfrentado Mattox e seus robôs ao som de "Hocus Pocus" do Focus (que você pode ouvir lá em cima no vídeo). Como um fã de rock progressivo, fico emocionado.

Então é isso. Sei que a resenha ficou grande pra caramba, mas realmente eu gostei muito do filme e não há como negar que estou orgulhoso de ver Padilha entrando com o pé direito e muita ousadia em Hollywood. Os gringos podem dizer que estamos superestimando o filme por ser dirigido por um brasileiro, mas quer saber? Dane-se se eles acham isso. Ou os 50% do RottenTomatoes. Robocop é um dos melhores reboots dos últimos tempos, e mesmo que as bilheterias sejam modestas já é certeza de que temos uma nova franquia aí. E que mantenha o mesmo padrão de qualidade e crítica!

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Scorcese wannabe.

É muito difícil eu dizer isso de um filme, mas desta vez é realmente preciso: "Trapaça" é superestimado. É inegável que David O. Russell é um ótimo diretor, assim como é louvável sua "renascença", mas seu mais recente filme não é apenas fraco se comparado com seus concorrentes na corrida de prêmios que culmina no Oscar, como também em relação aos anteriores do diretor, "O Vencedor" e "O Lado Bom da Vida".

Aliás, tanto "O Lado Bom..." quanto "Trapaça" tem o feito de terem sido indicados nas quatro categorias de indicação ao Oscar. Mas analisando agora, será realmente merecido? Afinal de contas, são filmes que funcionam melhor pelos conjuntos, não por uma atuação aqui ou acolá. No caso de "Trapaça", esse caso é ainda mais explícito. Bale faz uma boa atuação como Rosenfield, e é impossível não se impressionar com mais uma metamorfose física desse cara. Mas ser indicado ao prêmio de Melhor Ator? Acho que não. O mesmo vale pra Cooper e Adams (esta está mais linda do que nunca, é realmente o papel mais sexy de sua carreira): competentes, mas não excepcionais. Lawrence se destaca no seu papel de uma esposa bipolar e instável (além de linda como sempre), rendendo o maior número de risadas (escassas, aliás), mas definitivamente não é a estrela do show. Jeremy Renner, Louis C.K. e Robert DeNiro - numa participação especial - também têm destaque, mostrando como esse é um filme coletivo, onde o todo vale mais do que a soma de suas partes.

Se por um lado o elenco é o grande destaque do filme, por outro a história não empolga. O filme ora se arrasta, ora avança dignamente, mas à exceção de momentos particulares (como a cena do jantar com os mafiosos e o final, um plot twist digno) não é 100% envolvente. O maior mérito do roteiro é levar à máxima o preceito diversas vezes abordado aqui, "as pessoas veem o que querem ver", ao ponto do próprio espectador ser enganado pelos golpistas no final. Outro ponto positivo é a trilha sonora bastante jazzística de Danny Elfman, que também conta com diversos sucessos do fim dos anos 70.

Mas ainda assim, não há como notar que ao longo do filme Russell tá tentando emular um diretor em especial. Seja através da trilha sonora rica, da ambientação, dos costumes e diversos outros elementos nota-se diversas referências ao grande Martin Scorcese. O próprio personagem de DeNiro, um matador a serviço da máfia, evoca o tipo "chefão do crime" que o marcou em The Godfather pt. II e nos filmes de Scorcese. 

Como outros já apontaram por aí, "Trapaça" parece uma versão mais comportada, divertida e glamourosa dos filmes do consagrado diretor. Contudo, não deixa de ser inferior. Basta comparar com "The Wolf of Wall Street", também lançado esse ano. Tendo assistido ambos os filmes, posso afirmar com propriedade: "The Wolf" é infinitamente superior. Mesmo sendo consideravelmente mais longo, a sensação que tive foi a de que o tempo passou mais rápido o assistindo do que com "Trapaça". 

No fim, este é um filme que se resume a algumas poucas palavras: "hype", "superestimado" e "caricato". É sempre mais do que parece ser, e no entanto é menos do que foi destinado a ser. Em um ano de concorrentes fortes no Oscar, esta é uma obra que, embora não sem suas (muitas) qualidades, não deixa de passar a impressão de que poderia ter sido melhor e mais enxuta.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Interferência.

A questão, creio eu, é que não dá pra viver cada um "em seu quadrado". A partir do momento em que nós, enquanto seres sociais, passamos a viver em conjunto com outros indivíduos, exercemos influência sobre o nosso meio, em diferentes graus, é claro, através de nossas crenças, valores, opiniões, atitudes e muito mais. Podemos até esconder algumas de nossas características, mas de uma forma ou de outra temos um peso nesse sistema social. Você é o que você faz de sua vida.

Agora, porque eu tenho de acreditar ou aceitar que tudo nesse mundo se resume a extremos? Que só existe as opiniões A e B, nunca uma C? Eu já disse antes, eu sou a Suíça. Já afirmei várias vezes que tento encontrar os meios-termos para tudo. É assim que sou, pelo menos desde o ano passado. Não necessariamente isso implica que estarei sempre certo (ninguém nunca está), mas em um mundo onde a verdade é um conceito cada vez mais relativo em favor de "variáveis" que são no fundo meros pensamentos de conveniência, tento observar as coisas por um ângulo que me faça analisar os extremos.

Eu busco não ser um crente fanático e/ou legalista, mas daí a você achar que eu aceito passivamente tudo o que se passa no mundo já é um grande erro, meu amigo.

A fé cristã exige a ação. Jesus não disse "recebeis minha salvação e sentais confortavelmente em suas cadeiras", mas sim "ide e pregai o evangelho a toda criatura". Esta não é a fé para ser experimentada apenas entre quatro paredes meu amigo, longe do conhecimento do resto do mundo. É fé para ser vivida no falar, no agir, no olhar, no pensar, fé que nos inunda, que transborda e alcança os outros, que muda a vida de quem está ao nosso redor. Que resulta numa interferência gloriosa.

Nem preciso dizer que não é isso que estamos fazendo com ela.

Uma vez cristãos, devíamos PERMITIR o amor do Eterno em nós. Amor esse que nos levaria a amar sem distinção, a fazer o bem sem olhar a quem. Veja bem, não estou falando no amor eros, deste de um casal. É no sentido mais genuíno da palavra, é "colocar as necessidades do outros à frente das suas", como diria Olaf, o boneco de neve de Frozen. Mas não é isso que acontece. Pelo contrário, "amor cristão" se tornou uma referência irônica ao fanatismo, à intolerância. Porque é por isso que nós temos sido conhecidos hoje em dia. What a shame.

(Obs.: apenas ressaltando que "tolerância não significa aceitar o que se tolera", já disse Gandhi.)

Eu sempre fui desses que acredita e segue a máxima expressa na letra da canção "Seen and Not Heard" do Petra: "Actions speak a little louder than words" (Ações falam mais alto do que palavras). Ou seja, aquilo que você faz fala mais alto do que o que você fala. Mas será que minhas atitudes comprovam os meus valores, o meu ideal de buscar meios-termos, ser respeitoso com todos? Muitas vezes não, e mesmo essa consciência ainda não é suficiente para que eu mude em prol disso. 

É necessária essa mudança, não só a mim, mas a milhões de cristãos que estão MANCHANDO a imagem do evangelho dia após dia. Dedicando tantos esforços a um pecado específico quando ignoram - e pior ainda, vivem - tantos outros no seu cotidiano. Que balança é essa? Esta renegação ao Pai implica em trágicas consequências, mas nunca é tarde demais. Metanoia. Mudança de sentido.

Ora vem, Senhor Jesus. Porque o negócio tá feio.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

(E)ternamente contraditório.

"Nenhuma palavra pode fazer jus ao que sinto.
Nenhuma palavra jamais fez jus ao que sou."

Quando minha mãe me disse as mesmas palavras que vem me dizendo há mais de uma semana, eu senti raiva, eu senti angústia. Não apenas porque elas foram duras, mas principalmente porque foram verdadeiras. Cada uma delas. E isso me fez refletir, mais do que tenho refletido nesses últimos dias. 

Estes estão sendo tempos difíceis pra mim.

Me confidenciei a quem mais pudesse confiar, a quem julguei que fosse sábio pra me dar um conselho, e aceitei esses conselhos. Mas continuo o mesmo. Tão acomodado, tão... dentro de meu mundinho. Sem mover um dedo pra mudar essa realidade. As coisas vão mal na universidade no sentido notas, e eu sei o que tenho de fazer pra reverter a situação. Mas não faço.

Essa é a discrepância do eu. A (e)terna contrariedade, que urge ser superada, mas não é. Eu confesso: nunca senti tanta raiva de mim mesmo. Quer dizer, ao invés de estar aqui falando como sou acomodado, poderia estar fazendo algo pra ACABAR com esse comodismo. Mas convenhamos, é mais fácil falar. "Actions speak a little louder than words".

Será que depois de três meses e uma sequência de péssimas notas, ainda não me caiu a ficha de que esta é uma realidade dura? Parece que sim. Sei o que devo sacrificar, mas não quero. Posso, mas não quero. Nessas horas vejo o quanto ainda sou imaturo, e todo aquele discurso do "não sou mais quem eu era" era besteira. Invertendo o discurso: eu realmente não sou mais tanto como era antes. Mas estou longe, muito longe, de quem eu devo ser.

A verdade é que tenho medo. Medo de me deixar dominar por tanta inépcia que fracassarei quando tinha todos os meios para ser bem-sucedido. Eu quero dizer estas palavras temerosas para que no futuro, quando tiver realizado todos os sonhos que almejei, possa olhar pra esse texto e dizer "este tempo já passou". Mas por ora, me sinto tremendamente fraco.

Eu nunca olhei tanto para o alto. E nunca antes tão pouco mereci da graça e misericórdia divina. O Senhor não me responde como eu espero. Apenas ouço o silêncio - ou os conselhos de meus amigos eram a Sua voz? Meu coração, este poço de conflitos, hipocrisias, lucidez e devaneios, nunca foi tão pouco apto a recebê-Lo. Tenho consciência de meus erros. Mas como sempre, minha contraditariedade me leva a não corrigi-los. 

Pai, me dê ânimo! Te suplico algo, eu não sei o que é, mas é necessário para eu mudar. vergonha na cara? Tô precisando de muita. Uma dose de ânimo? Duas, por favor. Alguma coisa, alguma coisa me faça levantar, respirar fundo, fazer a minha prece e agir. Agir! Pelo meu bem, pelo bem da minha família, pelo bem dos que contam comigo.

Eu tenho um sonho paralelo ao de ser engenheiro: o de ser escritor. Quero lançar meu livro o quanto antes, fazer sucesso o quanto antes, vender minhas obras o quanto antes. Sempre foi pelo desejo de ser reconhecido, mas agora tem um motivo, um motivo importante, o mais altruísta de todos: ajudar meus pais com suas finanças, ajudar a pagar essa reforma que tanto sugou de nós (lembram de "Sete meses"?). De alguma forma compensar todo esse esforço que eles fizeram por mim. O modo como priorizam minha vida aqui em Aracaju me enche os olhos. Nada do que eu fizer poderá se equiparar ao amor deles.

Que me sustenta. Que me fortalece, e seja a dose de ânimo que clamo a Deus todos os dias. Este é o meu sonho, não? Sempre foi! Desde menino, quando desenhava meus mapas urbanos, os ônibus. A doce inocência destoante do que poderia ser considerado uma "infância normal" se converteu em um meio de se ganhar a vida. Mas este é o começo do caminho. Eu não posso lamentar agora quando as coisas tendem a piorar. Continuarei. Por meus pais. E pelo menino que fui, que ainda briga aqui dentro com o homem que tenho de ser. 

Porque é isso que sou. Um pé na dura realidade da vida, outra no mundo da lua, do escapismo. Mas preciso fazer com que os dois pés andem o mesmo caminho.

"Porque o Senhor dá a sabedoria; da sua boca vem o conhecimento e o entendimento.
Ele reserva a verdadeira sabedoria para os retos. Escudo é para os que caminham na sinceridade."

Então que eu possa aprender a ser mais reto dia após dia e obter a Sua sabedoria, meu Pai.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O Dragão Renasce e uma nova história me cativa.

Finalmente, após muitas idas à Saraiva (é o único jeito de ler livros na minha atual condição, and i regret nothing)eu terminei O Olho do Mundo. E preciso compartilhar todas as emoções que tive lendo essa obra fantástica com vocês.

Primeiro, deixe-me dizer que desde que li A Crônica do Matador Rei nenhuma série me chamara tanto a atenção assim. É uma coisa visceral, mais forte do que eu. Eu sabia que ia ler um livro incrível, e não estava errado. Os críticos que diziam ser essa a maior obra de fantasia desde O Senhor dos Anéis, eles estavam certos. Aliás, se você ama o universo de Tolkien vai amar A Roda do Tempo. Não, Robert Jordan não copiou a Terra-Média - há referências, situações, personagens, um bocado de coisas que lembram realmente LOTR, mas não ao nível de plágio, não mesmo. Ouso dizer que Jordan criou um mundo tão fascinante e complexo quanto, o tipo de universo no qual você imerge sem perceber e só quer saber mais e mais dele, vê-lo em toda a sua extensão. É absolutamente épico.

Devido a minha influência de ASOIAF, eu realmente fiquei extasiado quando soube que esses livros usavam o modelo de pov (point of view). Entretanto, isso é feito de uma forma diferente. 80% do livro é narrado por Rand Al'Thor, o protagonista, e só há uma mudança de narrador lá pra página 300, quando seu amigo Perrin e a Sabedoria Nynaeve também passam a narrar alguns capítulos. Imagino eu que os demais personagens (e outros por aparecer na saga)terão seus momentos  de narrativa nos próximos livros. (Ps.: o fato do livro ter terminado com uma nova narradora foi brilhante, e só me deixa ansioso pelas continuações).

Acho que nem preciso entrar em detalhes sobre a história. Mas ela é completamente envolvente, apesar do tamanho deste calhamaço. Segredos permeiam os personagens (alguns nem sabem de seus próprios segredos), o que é claro, te faz devorar ainda mais a história.A escrita de Jordan é sem igual, ao mesmo tempo em que revela uma simplicidade fascinante e envolvente também é bastante detalhista (sem soar chato ou excessivamente minucioso), mas como quer que seja ela é viciante. O modo como ele conta as histórias do passado deste mundo que criou é um dos pontos mais fortes do livro. Minha paixão por História faz com que eu seja cativado pelos contos dos grandes impérios e personagens mostrados ao longo d'O Olho do Mundo. 

E os personagens, mesmo que não exibam o "cinza" e as complexidades psicológicas dos de ASOIAF (que mantém-se no topo nesse quesito)são tremendamente apaixonantes. Como não se impressionar pelas habilidades do Guardião Lan, ou rir do mau humor constante de Nynaeve? Tremer diante dos sonhos com o Tenebroso, cujas poucas aparições já o firmam como um grande vilão da Alta Fantasia? Quero muito ver o que vai acontecer com nossos protagonistas e os vários coadjuvantes que aparecem e desaparecem.

Em suma, esse livro é uma obra-prima, altamente recomendada. Dá um pequeno calafrio de saber que vão chegar ainda mais 13 volumes, mas de onde quer que esteja meu saudoso Jordan, quero que saiba que você ganhou mais um fã.