sábado, 21 de junho de 2014

Ele se sentia como se não pertencesse a esse mundo.


"Eu descobri em mim mesmo desejos para os quais nada nesta Terra pode satisfazer. A única explicação lógica é que eu fui feito para outro mundo." C.S. Lewis


Ele se sentia como se não pertencesse a esse mundo. Como se fosse uma peça que não se encaixasse neste complexo quebra-cabeça social. Não se sentia disposto a atender certas convenções sociais, a trair sua individualidade em prol de aceitação dos outros. Quando tentava, falhava. Era maior do que ele.

Quando lhe ofereciam uma bebida, ele gentilmente recusava. Quando o chamavam para sair, muitas vezes simplesmente não tinha saco pra isso, mesmo que fosse com seus melhores amigos. Principalmente se sabia que iriam sair pra encher a cara. O que ganhava com isso, se beber nunca fora do seu feitio, por diversos motivos - não apenas o religioso, como muitos pensavam? 

Outros brincavam e zoavam com ele por ser bv. Diziam que iam arrumar uma garota pra perder logo esse bv. Inadmissível, inconcebível um cara com 18 anos nunca ter beijado alguém na boca na vida! Outros amigos, mais extremos, até brincavam dizendo que o levariam num puteiro. Ele era todo sorrisos, rindo dessas brincadeiras, dessas zombarias, dessas piadas. Mas no fundo sentia-se nervoso, incapaz de imaginar como reagiria se o pressionassem a tal. Daria para trás e seria ridicularizado por arregar na hora? Ou agiria como queriam que agissem, pegando a garota pra alegria da galera? Por isso evitava sutilmente. Contava com a auto-depreciação para abordar tal tema, buscando fazer com que o respeitassem por isso, com que não o forçassem a nada.

Às vezes era a carne que falava mais alto. Não precisava da pressão dos amigos; o desejo vinha por si só, o pensamento de como seria sua vida se não tivesse perdido aquele maldito bv logo. A carne mortificava a santidade, era alimentada no lugar desta. Brincadeiras aqui e ali mostravam alguém que parecia disposto a deixar sua espiritualidade de lado por um momento efêmero. Mas o juízo voltava, não apenas sobre isso mas sobre várias coisas. Pelo amor ou pela dor ele recobrava a razão. Lembrava-se das palavras, dos valores que lhe foram ensinados. Da sua singularidade. Lembrava-se de Quem tinha de seguir, Quem devia ser o seu modelo de comportamento. "Devo focar Nele", pensava. "O resto é consequência e eu não devo nada a esse mundo".

Ele não era perfeito; ninguém o é. É só que sua hipocrisia era mais escancarada em alguns momentos do que em outros. O que às vezes era supostamente uma ideia progressista que adotava na verdade era apenas uma máscara para se justificar, para justificar pensamentos que sabia serem incorretos. Ele não mentia para si mesmo; e justamente por conhecer a verdade de seus atos e seu interior tantas vezes deturpado era que o sentimento de culpa e remorso era tão intensificados. Algumas vezes eles não precisavam voltar porque ele não voltava aos mesmos erros. Outras vezes...

Ele também não era fixo a uma panelinha. Descobriu que podia ser amigos de várias pessoas, todas tão diferentes entre si. Mas nunca se sentia inteiramente parte de um grupinho. Às vezes faziam planos que não o incluíam (ou ele se excluía). Alguns dos grupos com os quais andava eram de pessoas com os mesmos perfis, mas ele não sentia como se compartilhasse dos mesmos perfis que elas. E por mais forte que fosse a amizade deles, sempre sentia que essas diferenças pesavam em vários momentos.

Ele sabia que nem tudo em sua vida significava escolher um meio-termo. Nem tudo podia se resumir a neutralidade. Ele não era rancoroso, mas guardava muitas coisas - muitas inúteis. Pensava mais do que agia, e sua mente criava um monte de situações, muitas totalmente nonsense (era dos que criavam diálogos em sua cabeça). Também observava bastante, juntando as pistas de certos assuntos aqui e ali. As pessoas podiam zoá-lo pelas costas. Mas ele saberia. Infelizmente só saberia e provavelmente nunca teria a coragem de ir além disso.

Mas mais do que tudo, ele temia por sua (e)terna contraditariedade. Em muitos casos ele sabia que aquele era apenas um termo bonito para hipocrisia mesmo. Também se achava superestimado por muitos, reflexo de uma auto-estima baixa e um temperamento melancólico. De certas pessoas queria mais atenção. Ao mesmo tempo por diversos momentos queria fugir do mundo, imergir em sua solidão que às vezes era tão amigável e calorosa. Ela não o fazia mal, não como as palavras de outros (e principalmente, de si mesmo) o faziam. 

Ele sabia que não era o mesmo de quatro ou cinco anos atrás, mas ao passo em que alguns aspectos mudara para melhor, também sabia que em outros essas mudanças tinham sido negativas. Sentia que às vezes andava em gelo fino, os valores seus contra os valores - ou a falta de valores - dos outros. Moralidade contra amoralidade e contra moralismo. Às vezes, ele contra o mundo. Outras, ele lado a lado com o mundo. E assim ia, sabendo que seu maior inimigo era a si mesmo. E que seu maior amigo residia no alto.

No fim das contas, ele sabia que sua vida era mais do que sua auto-estima ou seus relacionamentos ditavam. E que todo esse sentimento de "desfuncionalidade" era reflexo de uma verdade óbvia: 

Seu mundo nunca fora este. 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Casas.




Pois Deus preferiu essa carne; não quis os templos que posso construir com minhas mãos.


Na EBD (Escola Bíblica Dominical) de ontem, o pastor Sandro nos fez uma pergunta: o que é a igreja? "Corpo de Cristo", respondi. "Comunhão", respondeu alguém. E outras respostas, tímidas, vieram. Essa pergunta veio acompanhada de outra: se alguém de fora, do mundo, viesse a você e te perguntasse o que é a igreja, o que responderia?

Algumas horas depois, e esta canção do Palavrantiga me veio à cabeça. Talvez eu nunca tenha comentado por aqui (ou feito esparsamente), mas Palavrantiga é uma das minhas bandas cristãs favoritas e suas letras instigantes, poéticas e ricas têm sido uma das melhores que tenho ouvido nos últimos tempos. "Casa" é a primeira música do seu primeiro álbum, e trata exatamente disso: somos a morada de Deus (ou devemos ser, uma vez que assumimos o compromisso de sermos cristãos), permitimos que sejamos habitat do Espírito Santo. Vivenciamos Deus aqui dentro, não em estruturas, liturgias e legalismos.

Hoje, no discipulado, uma nova questão foi lançada pelo pastor. Em Lucas 1.33, o anjo diz à Maria acerca de Jesus: "E reinará eternamente na casa de Jacó, e seu reino não terá fim". Ora, que reino é esse? Ele é, respondeu o pastor a nós, o mesmo expresso na oração do Pai Nosso: "venha a nós o vosso reino". Este reino somos nós. E isso converge para sermos casa de Deus, morada do Espírito Santo.

Porque se somos casa, então a igreja é isso: uma aglomeração de casas. Um substantivo que se designa tanto ao indivíduo quanto ao grupo. O que é igreja? É a sua vida quem responde isso. É sua comunhão com o Espírito, é o coração contrito, são as ações que revelam a verdade da Palavra. Ora, pois discursamos aos quatro ventos que Deus habita em nós, que vida infeliz é essa que não reflete tal discurso?

Somos morada do nosso amado. Zelemos então pela permanência Dele, atendendo a Sua vontade. 

"Só Jesus não salva", por Pablo Massolar

SÓ JESUS NÃO SALVA!

Conheço todo tipo de gente que crê em alguma coisa. Sim! Todo tipo de gente e de fé. Tenho amigos evangélicos legais e também evangélicos alucinados adoecidos. Possuo amigos católicos praticantes, católicos não praticantes, espíritas, Nova Era, bruxos, umbandistas, deístas, budistas e até gente que não crê em nada além de si mesmo, nem em Deus! Também conheço os que apenas se convenceram acerca de alguma estrutura de fé e não enxergam um palmo a frente de seus olhos...
O interessante de se encontrar com pessoas e cabeças tão divergentes é que a gente vai aprendendo a discernir e respeitar o ser humano além da sua roupagem cultural e religiosa. É possível aprender (com certa limitação, é claro!) a ter um olhar mais apurado, voltado para o coração e não somente para o exterior, para a aparência, para as camadas mais superficiais do ser.
É um exercício diário tirar as escamas dos olhos e começar a perceber as sinceridades e também as emboscadas de quem tenta fazer contato (e contratos) com Deus por puro hábito mecânico, sem verdade, ou por medo mesmo.
O que percebo, com o aprendizado deste convívio, é que a religião, seja ela qual for, em algum ponto pode adoecer e aprisionar as pessoas em angústias e neuroses que vão se enraizando sem se perceber e sem se deixar tratar. A religião verdadeira não é encontrada em um simples ou complexo sistema de crenças. Não pode ser baseada na barganha ou no medo. Ela é experimentada no caminho diário, ritmo e curso natural da própria vida. Não só com palavras e aparências, mas com a prática do que se crê e da capacidade de se viver sem angústias em Deus e para Deus.
O problema é que muitos fazem do nome JESUS e da fé no nome de Jesus uma fé em si mesma, enclausurada e minimizada nas letras e na pronúncia. Ou seja, acredita-se no poder da junção ordenada das letras e no poder da entonação forte dos fonemas. Nada além disso.
Sem perceber, as pessoas passam a crer mais na formação correta da "palavra mágica" JESUS que no ser além das letras. A palavrinha JESUS não possui poder nela mesma nem pode salvar qualquer pessoa. Quem salva é Quem está acima da letra e da capacidade de se pronunciar em qualquer língua as sílabas do Nome Eterno.
O que estou dizendo é que a fé nas letras J-E-S-U-S nem sempre é fé na PESSOA Jesus e que pode-se crer na pessoa Jesus e viver um encontro real com Deus sem, necessariamente, saber, conhecer ou pronunciar a palavra Jesus.
O apóstolo João, em seu evangelho, a respeito do ser Jesus, diz que o "Verbo se fez carne e habitou entre nós", em outras palavras, em Jesus, Deus se fez "encontrável", se materializou, construiu uma casa entre os homens. Não se trata mais de um sistema de crenças, de dizer, cantar ou gritar o nome correto ou da forma certa, mas de poder encontrá-lo na vida hoje, agora e em qualquer tempo até sem palavras e ritos.
Outras vezes, do mesmo modo, as pessoas transferem a fé para o objeto de culto. É a fé no crucifixo, na vela, na oferenda, no sacrifício, no púlpito, no altar, no monte, no sagrado, no culto, na música e até em outras pessoas. Esta fé também não resolve e reduz a vida a uma relação empobrecida de "encontro" com Deus somente nestes ambientes e objetos, quando, na verdade, Deus está para além do que se vê e do que se toca. Esta é uma característica inegável de Deus! Nenhuma religião ou lugar do mundo pode prendê-lo ou domesticá-lo!
A fé verdadeira produz vida com abundante confiança, mesmo nos mais profundos momentos de tristeza e dor. Sem muletas, sem amuletos, sem lugares especiais. A fé é um encontro diário, livre e renovador com Deus até para quem não sabe como crer.
Não se trata de fazer de conta que a dor não exista. Também não é uma desculpa alienada para fingir que "está tudo bem". A fé vivida em sua forma mais genuína e livre capacita a gente para encarar de frente a dor, a perda e até a morte. Sem medo, sem fingimento, sem angústias. Pode-se até vacilar, perder as forças e apertar o nó na garganta, mas a gente levanta, segue em frente porque sabe de verdade que não existe fim para quem crê assim. O encontro é real e vivo!
Também, a Palavra de Deus vai entrando e se enraizando por todos os modos no nosso entendimento e ganhando cada vez mais chão e razão. Não somente através de um "livro sagrado", mas através das Boas Novas diárias, reveladas no papo com os amigos, nas festas em família, com gente querida, no andar com quem se ama, no se perceber perdoado e no oferecer perdão, pão e a mão.
Percebemos e aprendemos que Deus fala e vai falando sempre como Ele quer, às vezes usa quem nós mesmos julgamos não serem "dignos" disso. Outras vezes é no silêncio, na incerteza e na simplicidade que Deus se revela como amigo sempre presente.
A fé em Deus vai se moldando delicadamente como que pelas mãos de um habilidoso e caprichoso escultor. Até um certo ponto a massa é informe, não se sabe bem o que resultará dali. Mas o escultor tem um objetivo, ele vai amparando e apertando o barro para dar forma e o que era apenas um monte de barro vai ganhando qualidades, contornos e depois cores e detalhes mais particulares. Este processo de modelagem diária vai trans-formando a fé em algo real, palpável e eterno.
O Deus que não precisa de nomes para ser adorado o abençoe rica, poderosa e sobrenaturalmente!

*Texto extraído do blog Ovelha Magra (http://ovelhamagra.blogspot.com.br/)

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Irmã.

Porque esse cara não posta mais textos no blog, mas se postasse postaria textos lindos.


E aqui estamos nós. Quase um mês sem postagens, eu sei. Talvez seja porque tenho conseguido superar muitos dos conflitos que me atormentavam, que me levavam a escrever aqui. Sigo em frente, e mesmo que o blog não tenha mais aquele peso, não seja mais visto por mim como um "canal de desabafo", ainda é um ponto pra falar de mim, do que me cerca, do que me é pertinente. E hoje há um motivo bastante pertinente pra estar aqui mais uma vez.

Hoje é aniversário de minha irmã. Ela completa 7 anos. Ela, minha princesa, a pessoa que mais amo nesse mundo.

Recapitulando o que aconteceu nos últimos dias: de uns tempos pra cá já vinha rolando a ameaça de greve dos docentes da UFS, e isso se concretizou com a assembleia realizada na terça-feira, onde a greve foi enfim deflagrada e iniciada no mesmo dia. Logo, não fazia sentido eu permanecer lá em Aracaju, considerando a questão financeira da minha família. Mesmo com a certeza de greve eu preferi me valer do benefício da dúvida até terça-feira, para não tomar nenhuma atitude precipitada.

No entanto, desde o fim da semana, à medida que a assembleia se aproximava, uma ideia começou a tomar forma em minha cabeça: aproveitando que o aniversário de Aninha era hoje, eu sairia de Aracaju na quarta à noite e chegaria aqui, surpreendendo-a. Logo, minha chegada no seu dia de aniversário seria um presente pra ela, um presente que eu sabia que seria inesquecível. Compartilhei essa ideia com meus pais e eles logo apoiaram, comprometendo-se a manter sigilo e esconder essa surpresa dela.

Quando cheguei aqui e a surpreendi, fazendo-a correr pra me abraçar, beijar, chorar de emoção, soube que isso tinha valido muito a pena.

Os quase 1000km que separam Itapetinga de Aracaju, as 17 exaustivas horas de viagem, quaisquer transtornos, o cansaço... tudo isso valeu a pena. Apenas pra chegar aqui neste dia tão especial, para estar presente pra lhe dar parabéns, e não distante, congratulando-a via telefone. Porque eu a amo de coração, e uni o útil ao agradável.

Porque você, Aninha, é meu bem mais precioso nessa terra. Dia após dia, com este teu amor tão pueril e inocente, você me faz ver o quão valiosas são as palavras de Cristo quando Ele nos ordena que sejamos como uma criança se quisermos alcançar o Reino dos Céus. Porque você me traz à tona minhas qualidades redentoras, me faz querer ser melhor do que eu sou, me ensina tanto mesmo nesta tua tenra idade. 

Graças a Deus você é diferente de mim em tantas coisas. Significa que não compartilha de muitos dos meus defeitos. Talvez por isso, não raramente nos choquemos, discutemos, briguemos (e aí mamãe sempre me diz que estou me rebaixando à sua idade mental). Mas mesmo assim o amor e o carinho que sentimos um pelo outro supera toda adversidade, e não raramente mencionam o modo como eu sou louco por você. E isso é bom, pois vivemos num mundo onde falta amor em todas as esferas, onde já se criou um forte estigma de inimizade entre irmãos. Não fugimos aos estereótipos, afinal de contas temos sim nossos momentos de conflitos (e não são poucos); contudo, o amor que inunda esta nossa família reflete-se no nosso modo de se relacionar e serve de exemplo.

Parabéns pelos seus 7 anos, meu amor. Que venham muitos outros, e não importa onde eu esteja - perto, longe - sempre terá em seu irmão um porto seguro, um ponto de apoio. E eu sempre terei em você um oceano infinito de amor, que torna este mundo mais bonito. Este é o seu aniversário, mas o presenteado sou eu. Obrigado por existir em minha vida.

sábado, 10 de maio de 2014

Se.

Se eu tivesse feito meu macarrão no almoço não teria pago 10 reais num lanche.

Se eu tivesse escolhido não assistir de novo "Capitão América: O Soldado Invernal" (por mais perfeito que o filme seja) teria economizado 12 reais.

Se eu tivesse escolhido não ir pro shopping hoje poderia ter estudado.

Se eu tivesse escolhido não comer aquela tapioca no terminal ontem poderia ter pegado logo um ônibus pro centro e não demoraria duas horas pra chegar em casa, talvez.

Se eu tivesse ficado na UFS ontem ao invés de ir ao terminal do DIA e sofrer com toda a burocracia pra por créditos no meu passe estudantil não me desgastaria daquela forma, tanto física quanto emocionalmente.

Se eu tivesse acordado ontem às 6 e não às 9 talvez não teria enfrentado um dos piores dias da minha vida.

Se. Se. Se.

Quisera eu conhecer todos os meus possíveis destinos, todas as variáveis do meu futuro que erguem-se e caem a cada decisão que tomo ou que deixo de tomar. Quisera eu ver as consequências dos meus atos antes de tomá-los.

Ah, como tudo seria mais fácil!

"Se" e "poderia". Duas palavrinhas malignas que me perseguem. Sei que perseguem você também. Sente a culpa que elas também provocam em mim? Se sim, toca aqui bro. Você sabe como eu me sinto.

Culpa. Esse sentimento tão presente em mim. Cá estou eu, repetindo velhas ladainhas. Esse papo já deve ter cansado você, leitor. Eu sei, eu sei. Me cansa também. Queria que as coisas fossem diferentes. Queria ser alguém melhor. Mais maduro, mais responsável, mais proativo. Queria...

Eu estou de volta à Aracaju, e ainda não sei direito como me portar quanto a isso.

Estava tudo bem em Itapetinga. Essas semanas que eu deveria estar aqui, mas não estive por causa da incerteza de greve (que à essa altura nem sei mais se vai realmente acontecer), fizeram-me um bem maior do que eu esperava. Não vou citar os porquês. Só digo que não foi algo, foi alguém. Alguém(s).

Mas aí... chegou o dia de partir. Fui pego de surpresa. Já estava (mal) acostumado àquela rotina. Agora era hora de voltar a pegar no batente. Correr atrás do prejuízo dessas duas semanas, desse semestre. Encarar as responsabilidades que certamente não encontrava na casa dos meus pais. Foi a vida me dando aquele golpe na boca do estômago, e eu me rendendo, me rendendo ao meu eu falho...

Poxa, será que vai acontecer tudo de novo?

Não quero que meus dramas se repitam. Mas sei que depende de mim. Só que analisando esses três dias que já estou aqui parece que meus esforços de readaptação vão ser mais hercúleos do que imaginei. 

E aí entra o "se". Aí entra cada variável de minhas escolhas, as consequências delas. A mente me acusa, me faz ver onde estou errando, me inunda com a culpa. Mas cara, NÃO PODE FICAR SÓ NA CULPA! Entretanto é aqui onde paro, justamente onde deveria ser o ponto de viragem. Vamos Vinícius, vamos. Para quem você quer se provar digno?

A verdade é que nunca estamos satisfeitos conosco. E essa insatisfação nos faz crescer, mas também nos escraviza.

Nada sabemos.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

A Humana Barbárie.

Eu não sei se sou um pacifista. Na verdade eu nunca me identifiquei como tal.

Mas nesses últimos dias, tenho sido conduzido a reflexões poderosas acerca da natureza da guerra, dos homens e do que é ser humano em geral. Tudo por causa da minha leitura de "Cartas no Front", talvez o livro mais emocionante que já tenha lido em minha vida. Nunca cheguei tão perto de derramar lágrimas em uma leitura como foi nesses últimos três dias (manly tears, é claro). Sério, acho que todo mundo deveria ler esse livro.

O que mais me emocionou e cativou em "Cartas do Front" foi que ele trouxe o lado humano da guerra. Para além de ideologias, motivações escusas, discursos políticos e ambições de  poderosos, temos os relatos de homens e mulheres longe de suas famílias, de seus amigos, longe de suas vidas, levados para o horror, a barbárie, toda a completamente desumanidade, para experiências que mudarão sua vida e o moldarão para o bem e o mal. 

Cada indivíduo é único, em sua singularidade e modos de enxergar o mundo e a realidade à sua volta. Esse é um dos maiores trunfos do livro: os diferentes pontos de vista muitas vezes refletindo os mesmos medos, desejos, anseios, sentimentos. Estamos acostumados a ver os grandes conflitos mundiais sob a ótica dos vitoriosos, mas através desse livro aprendemos que um nazista não é menos humano do que um americano. Que nem todo iraquiano é um terrorista, que se autodenominar cristão não lhe dá o direito de julgar um estrangeiro, de se sentir melhor do que o "inimigo". É uma experiência para abrir os olhos frente à muitas coisas da vida.

Passam-se as guerras, mudam-se os cenários, mas o homem continua a ser o homem. Alguns encontram sua fé, outros se reduzem ao niilismo, mas o homem - a despeito dos riscos de uma progressiva perda de humanidade, dos quais muitos são acometidos - continua a ser homem.

Uma das coisas mais lindas e emocionantes que eu li nele foi o modo como indivíduos que foram inimigos ferrenhos durante esses conflitos acabaram encontrando uma paz entre si mesmos e profundas amizades que se estendem por anos. Quando o autor, Andrew Carroll, visita Saravejo e ouve a história da morte do pai de seu guia, afirma contundentemente "Meu Deus, você deve odiar os sérvios". Ao que seu guia, Amir, responde:

"Não! Não e não. Já houve ódio demais. estou cheio de tudo isso. Minha namorada é sérvia. Muitos sérvios em Saravejo e em toda a Bósnia sofreram(...). Uma hora isso precisa acabar. Já houve o bastante. Tem que acabar". 

E quando Andrew, marcado por aquela profunda demonstração de compaixão, pergunta a Amir como ele poderia tê-la diante de tantos horrores que teve de encarar, a resposta é: "Somente quem passou por isso pode realmente entender como é ruim".

Outras passagens reforçam esses atos de reconciliação: o memorial das vítimas em Stalingrado, na Rússia, executa canções de Schumann (um compositor alemão) como um aceno para os alemães que também perderam milhares de seus homens nessa batalha; um piloto americano mantém contato com um piloto japonês mesmo sessenta anos após o ataque de Pearl Harbor; o filho de um outro piloto americano casa-se com a filha de um soldado japonês; um capitão austríaco mantém uma amizade de mais de quarenta anos com o capitão americano que tão bem cuidou e tratou dele após prendê-lo, escrevendo ainda uma carta de condolências à viúva de seu captor e amigo quando este morre. 

Quem pode entender esses tão estranhos e formidáveis laços, que surpassam toda e qualquer chance de ódio? Quem pode entender a mente de um homem que sobrevive à guerra, mas carrega feridas na alma que a muito custo serão tratadas? O cinema e a literatura estão cheios de histórias que romanceiam a guerra, de outras que tratam desses combatentes traumatizados, mas o diferencial deste livro é trazer a tona o sentimento genuíno que perpassa gerações e chega até nós. Somente quem esteve no campo de batalha pode nos dar a verdadeira ideia daquilo que enfrentaram. De encarar a morte com seus olhos. De sofrer nas mãos de inimigos bárbaros, mas também de receber ajuda da onde menos se espera, quebrando paradigmas, preconceitos. Acima de patriotismos, bandeiras e crenças, um inegável senso de respeito, confiança e lealdade, laços indefectíveis que se perpetuam ao longo dos anos, junto com as memórias boas e ruins daqueles que lutaram ao seu lado ou contra você. É impossível entender essas camaradagens. É impossível entender a guerra ou que os motiva, o que as faz serem tão destrutivas (mesmo quando seu objetivo é a paz), ou o que a faz produzir frutos tão inesperados. 

“Os veteranos que ofereceram cartas tão reveladoras esperavam que elas pudessem ter um valor catártico para homens e mulheres que servem hoje nas Forças Armadas. Ninguém pode entender verdadeiramente a vida militar – as constantes pressões, a separação dos entes queridos, tanto a excitação quanto o terror de seguir para o combate, o choque devastador de perder um companheiro – como aqueles que já passaram por isso. Os mais antigos veteranos simpatizam profundamente com a atual geração de soldados e querem que saibam que há algum conforto em perceber que outros também suportaram as mesmas dificuldades."

O verdadeiro sentido da guerra é expresso em pungentes passagens como essa:

"Embora a maioria das pessoas acredite saber o que é a guerra, será que sabe mesmo? – estando tão distante das frentes de batalha, será possível saber?
Só se sabe o que é a guerra quando se veem os aviões em formação no começo da manhã, voando em direção aos alvos... e se vê esta mesma formação voltando à noite. Mas o número já não é mais o mesmo! Doze partiram, nove voltaram. Fica-se ali, parado, olhando para o alto, observando-se afastarem-se, na direção do horizonte, e então desaparecer. O que de fato aconteceu? Aqueles que mergulharam em chamas... terão morrido como nos filmes? Creio que não. Não com um sorriso nos lábios e um brilho alegre nos olhos, mas talvez com a terrível e dolorosa consciência de que tudo chegava ao fim! É preciso ver a leva de feridos voltando da frente de batalha... acima de tudo, ver a luz se apagar nos olhos desses homens. Jovens tremendo devido à exaustão nervosa e chorando como bebês. São, ou foram, homens fortes, que não tiveram ou que jamais terão a chance de viver uma vida normal... As pessoas podem acreditar que sabem como é a guerra. Esse conhecimento é ilusório. Tenho um corpo despedaçado pela guerra, tomado de pavor até o fundo da alma. Quando estava nos EUA, a guerra era distante, irreal. Eu lia, via as fotos, mas agora eu sei."

Eu comecei esse texto dizendo que não sabia dizer se era um pacifista. Mas termino-o dizendo - e isso com base em tudo que extraí desse emocionante e catártico livro, dos seus incontáveis relatos que variam do mais leve humor ao mais sombrio desespero - que talvez o seja. Ninguém pode dizer o que esses homens e mulheres passaram, sejam soldados ou civis. Por vezes vejo em alguns dos relatos essas pessoas desejam que as gerações futuras encontrem a paz e não precisem mais guerrear  por motivo nenhum. O que diriam de nós se vissem o que nos tornamos? Que não cumprimos suas expectativas, tornando-nos cada vez mais mesquinhos, ignorantes, arrogantes e superficiais? Que estamos perdendo quaisquer valores que um dia nos foram passados, convertendo-nos em seres amorais e gananciosos? Creio que se mais pessoas lessem esse livro e se dessem conta do impacto que ele pode causar, poderia sim haver uma mudança. Afinal de contas, "Livros não mudam o mundo. Pessoas mudam o mundo. Livros só mudam as pessoas".

Por fim termino com mais uma passagem da obra, que reflete o senso de esperança que foi depositado em nós, o chamado que devemos atender.

"Chegaste a um mundo repleto de imensos problemas. Com inúmeros tormentos e condições deploráveis. Numa época em que graves e grandiosas questões dominam a mente humana e a guerra, a terrível guerra, enche as nações de desolação e pesar. Esse, no entanto, é o nosso bom e velho mundo. Há tanta grandiosidade e beleza ao nosso redor e em toda parte da natureza. Espero sinceramente que, à medida que tua pequena vida se expanda, sejas capaz de abraçar e reter, com extraordinário vigor, uma parcela dessa beleza, desse prazer e dessa felicidade junto de ti. E desejo que vivas para testemunhar os problemas que nos atormentam assentados sobre princípios de justiça e correção. E os homens aprenderão a não mais guerrear".

quarta-feira, 19 de março de 2014

O dom da criação.

Eu sempre gosto de tratar das minhas temáticas partindo de minhas próprias experiências. Como um verdadeiro "empirista", vejo nisso uma chance de trazer uma familiaridade, uma identificação maior ao leitor. Sei que possuo algumas "peculiaridades" (pra não dizer "excentricidades" mesmo) mas busco não deixar o leitor alheio ao tema.

Encerrando minha trilogia de textos dessa noite, quero falar de algo que tem se tornado uma das coisas mais importantes da minha vida: escrever. Bom, lá nos primórdios do blog eu comentei como livros como ASOIAF e o apoio de meus professores de redação foram fundamentais para eu começar a escrever meu livro, o qual vocês conheceram um pouco em posts mais recentes. Mas não vim aqui para falar de "O Destruidor de Mundos". Vim falar de como quero ser um engenheiro e um escritor ao mesmo tempo.

É engraçado como há cerca de um ano, um ano e meio atrás, eu não via esse negócio de escrever como algo sério. Era um hobby, uma ótima forma de passar o tempo, mas uma profissão? Um meio de vida? Não me via dessa forma. Afinal de contas sempre alimentei o sonho de ser engenheiro, desde uma idade em que sequer sabia o que era isso, mas já estava ali, fazendo cidades com lego, desenhando mapas e ônibus.

Só que agora tudo é diferente. Eu não digo que estou em uma encruzilhada onde tenho de escolher entre um e outro, porque como disse quero ser os dois. Mas a verdade é que amo o que faço. Quero que meus livros façam sucesso - tanto crítico quanto de vendas -, e todo esse feedback gerado pela publicação dos dois primeiros capítulos me animou. Mas aí, como um bom cara contraditório que sou, vem a vozinha do bom senso pra me dizer: "Calma aí, cara. Nada é certo. Não tome decisões precipitadas".

Decidi que só sairei do curso de Engenharia Civil se me decepcionar BASTANTE com ele, ver que não é o que eu quero e/ou o negócio de ser escritor tomar proporções alarmantes e se firmar como aquilo que quero pra minha vida. Nenhuma das coisas ainda aconteceu, então me sinto seguro em continuar o curso - e escrever. Mas como preciso estudar pra caramba, sei que preciso deixar o livro um pouco de lado. Num mundo perfeito eu conseguiria equilibrar as duas coisas, mas esse mundo não existe e o bom-senso me chama. Droga de realidade.

A questão é: há um ano atrás eu sequer cogitava a possibilidade de desistir de Civil. O que houve neste meio tempo? A resposta é: muita coisa.

Hoje, numa daquelas reflexões na hora do banho que eu sei que todo mundo já fez estava pensando em como tenho milhares de ideias pra livros, em como desejo transformá-las todas em livros. Passei minha tarde lendo sobre Philip K. Dick, autor de ficção científica cujos trabalhos inspiraram filmes como Blade Runner, O Vingador do Futuro e Minority Report, só pra citar alguns. Em seus 53 anos de vida ele publicou 44 livros e 121 CONTOS. Isso me surpreendeu e me pôs pra pensar: se minha mente é tão fértil assim, será a vida gentil pra me permitir transformar todas essas ideias em obras literárias?

Eu já comentei como tenho medo da morte. E numa perspectiva cristã, estou cercado de discursos escatológicos que afirmam - e com muita razão - que o mundo parece estar perto do fim. Seria estúpido fazer uma prece no estilo "pô Deus, atrasa o Apocalipse aí", mas a verdade é que mesmo que demorem mil anos pro mundo acabar - afinal de contas, como e quando isso vai acontecer só Ele sabe, nisso eu creio - a gente não sabe o dia de amanhã e nossas vidas são sopradas desta terra com a mesma rapidez de uma flor soprada ao vento. E se... eu não viver pra publicar todos os livros que tenho em mente? E se não for o que estou destinado a ser? E se a vida me orientar novos rumos?

A gente não sabe o dia de amanhã. É por isso que me sinto compelido a escrever. Mas a verdade é que mexi pouquíssima coisa no meu livro da semana passada pra cá, tanto por causa do facebook - e aí entra o contexto de "Fútil" - quanto por alguma espécie de bloqueio criativo que apetece a todo escritor ou aspirante a escritor. No que dependesse de mim queria viver mil anos, construir um legado indelével e ser aclamado como uma "grande voz da fantasia". Mas repito: a gente é menino. A vida pode fazer uma curva pra esquerda quando você tá planejando virar à direita. 

Eu sei que o dom da criação está em mim, isso não me foi dado à toa. Serve a um propósito, e é por isso que tenho buscado trabalhar com tanto carinho. Uma coisa importante que tenho de fazer é saber baixar a bola e escutar a opinião alheia, mesmo quando esta não for favorável. Tenho aprendido, graças a - vejam só - alguns grupos de facebook e amigos virtuais, bem como tantas outras ferramentas, a amadurecer enquanto escritor, a absorver positivamente as influências para suas atuais e futuras obras. 

Mas acho que no momento, a coisa mais importante a fazer é por nas mãos do Eterno todos os medos e inseguranças, todas as dúvidas que permeiam seus dois grandes sonhos. E saber escutá-Lo. 

Eu quero que o mundo veja a minha escrita. E trabalharei arduamente em favor disso.