sábado, 28 de fevereiro de 2015

Das cinzas, nasce a esperança.

Eu tirei o "aspirante a engenheiro" da minha descrição do blog.

Há alguns meses, jamais consideraria a hipótese de cursar algo que não fosse a engenharia. Há alguns meses, eu tive a esperança de poder continuar no curso numa situação melhor do que a com a qual o comecei, tendo encerrado um difícil mas em sua maior parte satisfatório segundo semestre.

Contudo, o terceiro semestre foi um terror. Um fracasso inominável, que pôs em xeque todas as minhas expectativas e esperanças para esse curso. A dúvida, a angústia, o desespero e a solidão batiam à porta dia após dia, manifestando-se em uma dor por vezes excruciante. Foi horrível. Eu estava quase a ponto de desistir.

Quando colei e fui pego naquela prova de Física, perdendo naquela matéria, percebi a que ponto tinha chegado. Eu não queria ser um aluno menos que medíocre. Como podia sobreviver nessa realidade? Como podia me rebaixar a esse tipo de pessoa? Será que era ali que eu devia investir meu potencial? 

Afinal de contas, eu estava no lugar certo?

Não.

Essa resposta não veio da noite pro dia. Levou um ano e três meses, propriamente dito. Quando meus pais estiveram em Aracaju finalmente nos acertamos. E pela primeira vez senti que a vida não se restringia ao curso que tanto quis por anos e anos. Como minha terapeuta falou recentemente, eu estava focado na pós-graduação em Engenharia de Transportes e ignorei o peso de trilhar os caminhos da graduação (e que também fui extremamente teimoso, prolongando o sofrimento no curso). Havia outras áreas aonde eu poderia trabalhar com o que eu queria. Geografia (na Geografia Urbana), o curso de Urbanismo na UNEB... eu não podia me limitar. Sem contar outras áreas aonde eu possa exercitar o meu verdadeiro dom: a escrita. Sim, a escrita. No fim das contas ela venceu.  

É difícil, até mesmo estranho, me equiparar agora com quem eu era há uns dois ou três meses atrás. Tenho encontrado a paz. Ter a coragem de largar esse curso, contra tudo o que possam achar de você ("Vai largar a Engenharia e ir pra Humanas? Vai morrer pobre" e etc.), significou tirar um fardo de minhas costas que estava me consumindo, me destruindo. O próximo passo, tão doloroso e difícil quanto, foi deixar Aracaju: deixar lá meus amigos, minha igreja, toda a vida que estava construindo lá. Não foi uma coisa fácil, pois eu amo essa cidade e as amizades que fiz lá. Mas olhando agora, para a vida que estou retomando em Itapetinga, vejo que foi a melhor atitude. E quem disse que se trata de um "adeus"?

A vida é uma coisa engraçada. Da tragédia, encontrei alegria. Do choro, encontrei riso. É bom estar de volta à casa. Ainda sinto saudades. Ainda queria continuar essa jornada com meus colegas da Engenharia, ainda queria crescer espiritualmente no serviço com meus irmãos adolescentes da igreja. Mas neste novo tempo, busco o verdadeiro caminho pra mim. Buscando ser menos do que eu era, e mais do que posso ser no Pai e em sua Verdade. Sou falho, imperfeito. Vivo com conflitos diários. Posso ser o maior inimigo de mim mesmo. Sofro de uma passividade por vezes auto-destrutiva. De uma carência no campo sentimental. Pra tudo isso há o porto seguro do lar, dos meus pais e amigos. Pra isso há a terapia. Mas acima de tudo, para todos esses problemas há a solução na presença do Eterno. Nele sou verdadeiramente feliz. Nele tenho a paz que tenho almejado.

É um novo tempo. Uma nova realidade. Meu período em Aracaju não foi em vão. Por intermédio do que aprendi dele, tenho certeza de que posso fazer as coisas diferentes. E o que tenho lá não será esquecido. 

Pois agora, na esperança que deposito aos pés do meu Senhor e Redentor, busco a certeza do caminho aonde crescerei e me realizarei.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Consciência.




Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas. Eu nunca concordei muito com essa frase.

Mas Ele pode se valer de todo e qualquer momento para nos ensinar. E posso dizer que passei por isso hoje. Há situações que em sua essência podem aparentar ser banais, mas cujas consequências podem nos trazer necessárias - e dolorosas - verdades.

Hoje eu colei na prova de Física. É. "Nossa, logo você, Vinícius, que era um aluno tão exemplar e bem-quisto, uma referência, fazendo uma coisa dessas?". É, logo eu. Era isso ou tirar 0, porque não sabia nada. Mas no fim das contas não adiantou muito, porque o professor pegou minha cola e deve ter me dado um zero do mesmo jeito.

Não fiz nenhum alarde. E por que faria? Eu sabia que aquilo era errado no momento em que decidi fazê-lo, então ter sido pego e perder nessa prova - com todas as suas implicações, incluindo a chance agora praticamente nula de passar nela nesse semestre e atrasar ainda mais o curso - era o que eu realmente merecia. Paguei o preço, e aceitei-o. 

No caminho para casa fiquei matutando várias coisas. Se contaria para minha mãe ou não (no fim contei, e vi que era o melhor a se fazer), um pouco no impacto desse zero pro curso, em culpa, nessas coisas. Chegando em casa fui pro quarto. Hora do desabafo. Mas sinceramente não sabia muito o que dizer.

Felizmente as palavras vieram. Enfim ia compreendendo que havia chegado numa situação-limite da minha existência: aquele ato de colar, tão supérfluo e natural pra tantos alunos (mas que nunca o fora pra mim), era apenas um reflexo do tipo de pessoa que vinha me tornando: um péssimo aluno, um péssimo cidadão, um péssimo cristão. Vivendo de relativismos morais, de conveniência, de hipocrisia. Negligenciando a Palavra, negligenciando e contradizendo meus princípios. Sabia que não podia mais viver essa vida. Sabia que precisava mudar.

Fui para a Palavra, pedindo orientação do Espírito para me guiar a uma passagem que falasse ao meu coração. E a achei, lá em Tiago, não à toa meu livro favorito da Bíblia. foram duas, na verdade:

"Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria.
Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade.
Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica.
Porque onde há inveja e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa.
Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia.
Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz." Tiago 3.13-18


"Portanto, submetam-se a Deus. Resistam ao diabo, e ele fugirá de vocês.
Aproximem-se de Deus, e ele se aproximará de vocês! Pecadores, limpem as mãos, e vocês, que têm a mente dividida, purifiquem o coração.
Entristeçam-se, lamentem e chorem. Troquem o riso por lamento e a alegria por tristeza.
Humilhem-se diante do Senhor, e ele os exaltará." Tiago 4:7-10


Lendo essas duas passagens, fui tomado pelas lágrimas. E por que não seria? Afinal de contas aquela era uma palavra rhema, ou seja, a Palavra de Deus revelada e aplicada pelo próprio Espírito Santo a mim naquele momento. Não foi por acaso que eu caí exatamente naqueles dois textos. Eles tinham algo a me dizer, e logo vi do que se tratava: sabia que se precisava pedir alguma coisa a Deus, era justamente a Sua sabedoria: eu necessito dela, todos nós necessitamos, justamente pelos seus atributos. 

Ah, mas nós somos tão donos de nós mesmos, não é? Certamente foi o que pensei na hora da prova. Achei que estava no controle da situação, mas veja no que deu. E é claro, não foi a primeira vez e infelizmente não será a última. Faz parte de nós, essa ilusão de que podemos ser senhores de nosso destino. Mas o que foi que disse uma vez em um dos meus textos aqui no blog? "Fazemos planos, e eles viram pó".

Quantas vezes fui um tolo. Movido por inveja, sentimentos tão contraditórios como o orgulho e a inferioridade. Quantos momentos de crise, de dúvida, de incerteza quanto ao futuro. De se olhar no espelho e parecer não se reconhecer mais. A criança que um dia fui se orgulharia do rapaz que sou? Talvez não. Mas quero viver de forma que este rapaz ao menos sinta orgulho do homem do amanhã. 

Para isso preciso ser Mais Nele. E então chegamos ao que Tiago fala no capítulo 4. Está muito claro o que é preciso fazer, a Quem preciso entregar meu futuro, minhas escolhas. O meu eu precisa morrer cada vez mais, o mal precisa ser expurgado do meu coração, este precisa ser limpo e consertado, e só assim terei o direito de portar o nome de Cristo em minha vida. Afinal de contas, como diz a letra da linda música do vídeo lá de cima, se tenho a Ele, tenho a verdade, "no 'assim diz o Senhor' e não no 'eu acho que'".

Que esse não seja um momento de quebrantamento isolado e passageiro, onde o velho Vinícius volte à tona e se esqueça daquilo que o Espírito obrou nele. Mas que seja uma mudança contínua e constante, que se faça refletir não só em mim, mas naqueles à minha volta. E que impere a vontade do Deus vivo, Aquele que me amou primeiro, e não a vontade deste ser tão falho. Que seja a voz Dele a falar em minha consciência e me torne assim uma pessoa melhor, vivendo desta Verdade que ilumina e alimenta dia após dia.

"Eu tive muitas coisas que guardei em minhas mãos, e as perdi; mas tudo o que eu guardei nas mãos de Deus, eu ainda possuo." Martin Luther King

sábado, 13 de dezembro de 2014

As memórias da Terra-Média.

Fico feliz de que antes de assistir A Batalha dos Cinco Exércitos pude finalmente ler O Hobbit e O Senhor dos Anéis, depois de muito tempo postergando. Quando terminei a leitura dos livros comentei aqui algumas das minhas impressões sobre eles, palavras insuficientes pra descrever a grandeza desta obra, a magnificência dela. 

Talvez justamente por ter lido os livros depois de assistir os filmes fui menos crítico quanto a estes, embora hoje veja claramente que mesmo com a adição de muitos e interessantes materiais a esta trilogia d'O Hobbit (Dol Goldur, os prenúncios da ascensão de Sauron vista em LoTR), nada justifica a divisão em três filmes senão a fome por dinheiro dos estúdios. Isso ficou meio evidente em A Desolação de Smaug, que mesmo sendo um ótimo filme sofreu claramente daquela síndrome de "filme do meio" de uma trilogia, claramente sem um começo e fim definidos (apesar de que jogar o que devia ter sido seu clímax pro terceiro filme como sua cena de abertura tenha rendido um prólogo fenomenal para este e um cliffhanger incrível pra DoS). E Uma Jornada Inesperada, por mais que (aparentemente) seja o mais adorado pelos mais Tolkenianos, ainda sofre do fardo de sua lentidão e da infantilidade mal-disfarçada (vamos lembrar que o Hobbit foi um livro escrito pra crianças).

A Batalha dos Cinco Exércitos não compensa os erros dos anteriores, nem eleva a trilogia ao patamar de LoTR, mas wow, é um filme incrível. Mais curto (beeeem mais curto) que qualquer um dos outros ambientados na Terra-Média, ele possui duas metades distintas, além do já citado prólogo onde Smaug derrama em fogo sua fúria sobre a Cidade do Lago: a primeira trabalha toda a tensão dos exércitos que convergem pra Montanha Solitária em busca tanto de abrigo depois da calamidade quanto do tesouro que agora é reapossado pelos anões. E aqui eu preciso destacar todo o brilhantismo de Richard Armitage como Thorin, cada vez mais embebido da ganância e do poder, sofrendo da "doença do dragão". O personagem cresce significativamente, constituindo-se como uma figura trágica, um rei que é "menos do que foi". Digam o que quiserem, isso é um tapa na cara de quem diz que o Tolkien cria personagens unidimensionais. Com diferentes lados em posição, o conflito parece iminente, mas esta ainda é uma obra maniqueísta: os orcs chegam em torno dos 70 minutos, e então anões, elfos e homens se unem contra eles, marcando assim a batalha que dá título ao filme e o começo da segunda metade.

É sim um conflito grandioso, apresentando diversos elementos - as lutas às portas de Erebor, o conflito dentro das muralhas de Valle, intercalados com a própria companhia dentro da Montanha, sob as ordens de um Thorin cada vez mais conflituoso consigo mesmo. Ainda assim é uma batalha que infelizmente não alcança as glórias das de Helm's Deep ou os Campos de Pellenor da trilogia anterior (com esta última ainda se configurando como a maior cena de batalha da história do cinema), mas satisfaz. Ironicamente, seu melhor momento é justamente no final, onde os exércitos são deixados em um segundo plano pra vermos quatro anões, dois elfos e um hobbit lutarem contra o profano Azog e seus generais. 

(Aliás, quanta apelação pro Legolas hein? Na cena em que ele sobe as pedras a galera do cinema aplaudiu haha)

É aqui onde o filme atinge seus maiores feitos emocionais, mas não entrarei em mais detalhes pra não dar spoilers. Só posso dizer que um certo arco "filler" dessa trilogia é muito bem-resolvido, mesmo que de forma tão trágica (já esperada da minha parte), e o filme por fim consegue nos emocionar, trazendo um fim de certa forma agridoce. Ao final, em seus últimos minutos, o espectador/leitor vai sendo tomado de uma sensação nostálgica, na medida em que a obra vai fazendo suas conexões com O Senhor dos Anéis - conexões essas sugeridas ao longo dos três filmes, mas mais enfatizadas aqui. A última cena é a ponte entre as duas trilogias, quase uma convocação para que enfim as assistamos em ordem, como deve ser feito.

Como um amigo meu disse, o maior erro de Jackson foi querer de fazer d'O Hobbit um outro Senhor dos Anéis. São obras muito diferentes em espírito e ambição, e eu não posso deixar de fazer algumas comparações com Star Wars (até mesmo em termos de recepção crítica e de bilheteria). Não execrarei o Hobbit como muitos leitores fizeram, mas creio que a ideia original de dois filmes realmente devia ter sido respeitada. Contudo, não posso deixar de notar que a trilogia ganhou com a adição de tantos detalhes, muitos provenientes de anotações de Tolkien e/ou do Silmarillion (livro este que ainda preciso ler), e aqui fica claro que Jackson tem sim um enorme carinho e dedicação ao universo de Tolkien. Devemos agradecê-lo por, mais de 15 anos atrás, ter tido a coragem de trazer às telonas uma saga que, mesmo moldando a fantasia moderna como a conhecemos, poderia ser considerada "infilmável". O resto dessa história todo mundo já sabe. Então, mesmo que o Hobbit seja uma saga menos memorável do que LoTR (pelo menos em termos de legado para o cinema), ainda merece ser assistida, desfrutada, e encontrou em A Batalha dos Cinco Exércitos um desfecho satisfatório, senão digno.


E assim estaremos sempre voltando às páginas de Tolkien e às obras de Jackson. Lá e de volta outra vez.

sábado, 18 de outubro de 2014

O dia que passou despercebido.

Há coisas em nossa vida sobre as quais não temos real noção do seu significado até muito depois de terem acontecido. No momento em que ocorrem elas parecem banais ou casuais, mas depois é que a ficha cai. Pode ser assim com seus 18 anos, seu primeiro beijo, só pra citar alguns exemplos. Pra mim, que sou um cara que costuma se importar com certos simbolismos, essas questões de datas são importantes.

Por isso foi com espanto que me lembrei só hoje que anteontem, dia 16, completou-se um ano que moro aqui em Aracaju. Aí a gente para e pensa: "Cacete, já faz um ano que moro aqui!". Você poderia achar que isso não significa nada, até porque me lembrei com atraso. Mas significa. E muito.

Vir pra Aracaju marcou o começo de uma nova etapa da minha vida. Eu estava deixando a casa de meus pais, estava saindo de baixo das asas deles e todos os confortos que isso me proporcionou por 17 anos, pra encarar uma jornada em outra cidade. Ok, eu já tinha morado aqui um ano, em 2009, mas de qualquer forma seria uma experiência diferente. Meus pais e minha irmã não viriam comigo. Eu estava deixando Itapetinga e meu lar pra morar sozinho.

Pra alguns isso é uma sensação de liberdade inebriante. Mas pra aqueles que como eu possuem fortes - e por que não dependentes - laços com seus lares, é mais difícil do que parece. Lógico, nos primeiros dias eu tava completamente entusiasmado pela ideia de morar sozinho e ganhar mais direito sobre meu próprio nariz, a ponto de que quando rolou Semana Acadêmica na UFS e não houve aulas por uma semana, preferi passar essa semana aqui do que ir pra Itapetinga ficar lá naquele período em casa, como sugeriu minha mãe.

Uma decisão da qual me arrependo até hoje.

Eu não fiz nada naquela semana. Absolutamente nada. Fiquei mais em casa do que saindo e fazendo alguma outra coisa. E o pior: eu desapontei minha mãe quando respondi que preferia ficar aqui. Se tivesse a oportunidade de remediar isso certamente remediaria. Tanto que se outra chance aparecer não tomarei a mesma atitude. 

Naquela época eu ainda estava me adaptando à cidade e a essa nova rotina. Depois de um ano "sabático" onde tudo o que fiz foi me viciar mais em internet e a viver uma vida totalmente sedentária, pode-se dizer que eu não era o cara mais preparado do mundo pra uma vida universitária intensa, ainda mais num curso puxado como Engenharia Civil. Bom, o resto da história vocês sabem.

("Já estamos de saco cheio de você falar sobre isso", dizem os leitores)

Enfim, apenas reiterando algumas coisas: o segundo período não foi mais fácil do que o primeiro, mas ao final foi mais gratificante. E ao longo desse ano certamente tive experiências mais do que suficientes pra entender que preciso mudar alguns rumos da minha vida. Mas não gosto de fazer promessas que posso muito bem não cumpri-las: então não sou o tipo de cara que vai chegar e dizer: "novo período, novo eu". Não. Não sei se é porque sempre conto com o benefício da dúvida ou porque realmente não tenha fé de que mude a esse ponto, mas o fato é que muitas vezes acabo me deixando levar pelas circunstâncias e me acomodo demais pra querer mudar algo em mim. Por favor, não me julgue. Já faço isso direto comigo mesmo.

Mas em meio às turbulências, aos sorrisos e lágrimas, às experiências que me amadureceram (ou pelo menos deviam ter me amadurecido), fui encontrando o caminho a seguir. Quantos foram os dias em que me vi no limiar do desespero, não raramente pensando se era esse curso que eu queria seguir, ou se estava destinado a ser um escritor? Mas agora me encontro em tamanha paz em relação a esse assunto. Mesmo que meu curso esteja atrasado pra caramba (fiz o favor de perder mais uma vez numa matéria crucial pra grade), mesmo que esse período venha ser de lascar, mesmo que financeiramente as coisas ainda não tenham melhorado muito... Em tudo a gente vai aprendendo a dar graças.

Ah, eu falei que FINALMENTE terminei a revisão do livro? Sinto até um vazio na alma por isso. Sim, tinha dias em que ficava mais no facebook do que propriamente escrevendo, mas pelo menos tinha um propósito. Agora vou ter de me dedicar ao semestre (damnit), mas de qualquer forma esse é o momento em que mando pras editoras e aguardo respostas. O primeiro passo já foi dado: selecionar algumas e enviar emails procurando saber se estão recebendo originais e se sim, se há um prazo de resposta. Os outros passos vem depois.

A verdade é que depois de três anos escrevendo O Destruidor de Mundos, tudo em que penso é em publicá-lo logo. Mas bom, o que podem ser mais alguns meses depois desses anos? Não é fácil dividir meu foco entre duas coisas tão cruciais quanto minha obra e meu curso, mas a gente vai tentando manter esse equilíbrio tão arduamente encontrado. E tenta por nas mãos do Pai. Tenta melhorar sua relação com Ele, porque tá deixando muito a desejar. Vai construindo suas visões de mundo. Vai crescendo e aprendendo a lidar com as agruras da vida.

Porque mesmo já tendo se passado um ano, a jornada ainda só tá começando. E de qualquer forma, se esta aqui é minha nova casa, a minha velha casa permanece lá na Rua Nova, sempre pronta pra me receber.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Todas as coisas boas do mundo.

Às vezes as palavras não podem expressar toda a gratidão.

Sabe quando há um sentimento de que as coisas vão bem contigo, de que você se sente bem consigo e o mundo ao seu redor? De que elas estão se direcionando de uma forma positiva? Então, esse sentimento me acompanha nos últimos dias. E isso é maravilhosamente bom. Enquanto que sentir isso não é garantia de que tudo vai bem, é realmente encontrar aquela paz em meio à tormenta, a paz de que eu precisava com tanto afinco. É dar graças em tudo.

Ontem fiz minha última prova. Cálculo. Integrais. Muita responsa. Precisava tirar 5,5 pra passar, sem necessitar da prova repositiva (feita para aqueles que não compareceram a uma das provas anteriores ou queriam repor a menor nota a fim de poderem passar). E sabe quando tirei? 9,5. Isso! Eu, o cara que perdeu em Cálculo no primeiro semestre, que tava penando ao longo desse período tanto quanto no anterior, tirei a segunda maior nota da turma. Você, leitor, pode imaginar a minha felicidade? A minha alegria em ter conseguido esse feito, de ter garantido a aprovação nessa disciplina que é de longe a principal para a continuidade do curso? Acho que pode. 

Mas não é só por Cálculo. É uma vitória muito mais significativa do que uma boa nota em uma prova. É por tudo que vivenciei dos últimos meses, pelas vitórias, derrotas, lágrimas e sorrisos. Experiências compartilhadas aqui no blog, o meu espaço, o meu pequeno recanto de confissões. E que também não poderiam refletir toda a turbulência do meu íntimo, toda a humanidade, falibilidade. Esse é o grande desejo do ser humano, não? Se entender por completo. Essa é a nossa busca, vivida de tantas formas, graças à singularidade do homem.

E nesse caminho surpresas surgem. Doces, que inebriam nossa alma. E é engraçado como elas acontecem de uma forma tão casual, sem a aura mágica da qual as cobrem, mas ainda assim nos impactam. Como um sonho.

O título desse texto vem de uma antiga ideia que tenho pra um livro. Não poderia dizer o que representa exatamente, mas talvez tenha a ver com isso: com gratidão, com um olhar positivo, lúcido, para o mundo, para o que há nele. É se apropriar dessa felicidade, fazê-la sua, transbordar-se dela e inundar os outros com ela. E viver nela, com essa paz que vem do alto. Que essas férias me tragam a reflexão e o direcionamento necessários, e que minh'alma e meu espírito estejam plenamente fortalecidos para os desafios que virão.

"É difícil ficar zangado quando há tanta beleza no mundo." 

sábado, 13 de setembro de 2014

Confessional.

Eu acho é lindo. Que meus dois celulares estejam quebrados, em tão pouco espaço de tempo. Eu acho é lindo. Que quando o imbecil aqui não cuida bem das suas coisas, elas param de funcionar por razões que estão além de minha compreensão. Eu acho é lindo. Perder a cabeça por coisas tão fúteis como dois celulares.

Ou talvez não seja só por eles. Talvez seja por muito mais. Talvez seja por 2014, esse ano assustador, difícil. Talvez seja pela saudade de casa. Talvez seja pelos sacrifícios necessários. Talvez seja pelos conflitos internos. Talvez seja por essa fragilidade. Talvez seja pelo estresse da universidade. Por ter deixado a desejar. Por um desejo materialista. Por uma solidão que grita em meio a multidão. 

Ou talvez seja só por eles mesmo e eu só seja um mesquinho.

E no momento de mais desolador desespero, eu ergo os olhos para o alto e dirijo minha raiva, angústia, vitimismo, para o Eterno. E às vezes Ele me responde, mas nem sempre como eu gostaria. Outras me deixa esperando em silêncio. O meu último (mas que deveria ser o primeiro) fio de esperança, a ilha no meio do mar tempestuoso. O porto seguro. Me escute, me ajude. Eu tô cansado dessa merda toda.

Um monte de gente não vai dar a mínima pro que eu tô escrevendo. Tudo bem. Importa-me como eu me sinto. O que está escrito aqui não é nada que não tenha escrito no blog antes, mas não é nada que mensure como ando me sentindo. Eu quero paz. Quero uma vida mais fácil e menos apertada. Quero não ter de esperar tanto. Eu quero muitas coisas. Mas quantas delas são realmente sensatas? Quantas delas me tornarão alguém melhor?

E no meio disso tudo a gente vai, com muita dor, lágrima e paciência, crescendo.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Pela extinção da carrocracia.


Esta é a foto de minha mão direita aberta. Da ponta do mindinho até a ponta do polegar, ela mede vinte centímetros. A maioria das mãos, não importa as diferenças entre elas, sejam de homens ou mulheres, tem medidas similares: 20 cm da ponta do mindinho à ponta do polegar, quando espalmadas. Guarde esta informação. Retornarei a ela mais adiante.

Recentemente, numa discussão tuiteira, o comediante Marcelo Tas criticou o programa eleitoral do candidato à presidência, Eduardo Jorge (PV). Em sua propaganda, Eduardo Jorge recomenda às pessoas que usem menos os carros.

Ao que parece, Tas entendeu que o candidato havia dito para as pessoas não usarem carros. Entendeu errado, e este tipo de coisa acontece. Após disparar uma ironia contra Eduardo Jorge, perguntando como fariam as pessoas que não têm “vida mansa” como a do candidato, Tas obteve como resposta um singelo soco com luva de pelica: ele, Eduardo Jorge, é médico sanitarista. E se move como a maioria das pessoas no Brasil: pega metrô, ônibus, anda a pé, usa bicicleta. Eduardo Jorge, elegantíssimo, nem sequer levantou a seguinte bola: teriam os brasileiros sem carro uma “vida mansa”? Fica subentendido, contudo, e a resposta todos nós sabemos: a última coisa que alguém que só pode andar de transporte público tem é uma “vida mansa”.

Tas não se deu por satisfeito e acusou Eduardo Jorge de hipocrisia, ameaçando postar uma foto do Eduardo dentro de um carro. Convenhamos, ameaça ridícula, considerando que em momento algum o candidato negou andar de carro. Ele não disse "não andem de carro nunca". Ele pediu o que qualquer pessoa minimamente saudável e razoável já sabe: use menos o carro. Ponto.

O que significa este pedido? Este ano, por ocasião do Encontro Da Nova Consciência em Campina Grande [PB], tive a oportunidade de assistir a uma das palestras mais interessantes deste evento, considerando todas as que já vi desde que – muitos anos atrás – passei a frequentá-lo. O psicólogo Lucas Jerzy Portela deu uma conferência excelente sobre os problemas físicos e psíquicos desencadeados pela carrocracia.

Não pretendo detalhar, nem reproduzir perfeitamente o que Lucas disse. Vou sintetizar as coisas mais importantes, na minha opinião:

1. O uso excessivo de carros causa diversos males físicos e psicológicos.
2. O Brasil peca por se nortear em torno de uma veneração ao veículo automotivo por combustão: o carro.

Quais as soluções apontadas por Lucas? Sim, ele deu várias soluções práticas, e em nenhum momento estabeleceu um manual ou guia que devesse ser seguido, com fórmulas prontas ao estilo de imperativos categóricos kantianos. O que ele solicita [na verdade, não ELE apenas; o movimento pela libertação da carrocracia é muito mais amplo do que a existência do palestrante] é que as pessoas sejam razoáveis para o bem de sua própria saúde. E ser razoável significa pensar.

Por exemplo: se o lugar para onde você vai fica a dois quilômetros de onde você está, como você deveria se locomover? A não ser que você tenha restrições de movimento ou quaisquer outros problemas que justifiquem o carro, você deveria ir a pé. Não faz sentido ir de carro, ônibus ou táxi. Caminhar estes dois quilômetros vai fazer bem para sua saúde. Isso satisfaz inclusive outro ponto salientado por Lucas: a atividade física deveria ser processual, não pontual. Nós deveríamos estar em atividade física constante, ao invés de apenas dedicar uma hora por dia a isso.

Vamos a um exemplo prático e alguns contrastes: da minha casa até minha academia, são 800 metros. Eu vou a pé, todos os dias. Subo uma escadaria considerável e vou caminhando, já me aquecendo. Na volta, são mais 800 metros. 1,6 km de caminhada, sem contar o tempo na academia.

Eu conheço quem mora a 500 metros da minha mesma academia e vai até ela de carro. Além de ser mais um carro nas ruas [e um carro desnecessário, convenhamos], a pessoa ocupa uma vaga de estacionamento que poderia ser de outra pessoa que vem de um lugar mais distante. Um argumento possível “ir de carro é mais seguro” simplesmente não cola, pelo menos não NESTE trajeto. Seria mais honesto se estas pessoas assumissem: “sou viciado(a) em meu carro”. E, claro, tentassem reformular a maneira de usar tal veículo.

Não se trata de instituir o Império da Bicicleta, a Tirania do Pedestre, ou algo assim. A depender da distância e do que se encontre no trajeto [ladeiras imensas, chuva torrencial etc], faz mais sentido usar outros veículos. Fazer valer a razoabilidade é algo ao alcance de qualquer pessoa com inteligência normal e que não esteja profundamente adoecida pelo transtorno compulsivo carrocrático. O que se pede, é: pense no seu movimento pela cidade.

Quando vou para a USP [três vezes na semana], considerando o aperto do horário, eu vou de táxi. 17 reais até onde devo ir. Volto de ônibus, já que na volta não há pressa, o ônibus não vai lotado, e me deixa bem perto de casa.

Fiz uma experiência considerando meu trajeto até a escola onde aperfeiçoo meu inglês. Medi três vezes cada possibilidade.

De táxi, da minha casa até a escola, eu pago 24 reais e levo 30 minutos, às vezes mais, em decorrência do tráfego. É uma loteria.
De ônibus+metrô, eu pago 4,65 reais e levo redondos 20 minutos. O máximo que já levei foram 25 minutos.

Qual o sentido de pagar cinco vezes mais e ainda chegar 10 minutos depois? O conforto de estar sozinho num táxi? O glamour de ouvir o taxista derramando suas opiniões sobre a existência? [comigo quase sempre acontece, eu devo ter uma magnífica cara de machista pra ter que ouvir as piadas que eles contam e outros comentários, sendo que só eles riem até sucumbirem ao silêncio constrangedor que imponho].

Não faz sentido no meu caso, principalmente considerando que o ônibus e o metrô não estão lotados no horário que eu vou para a escola. Se eu vou num horário em que o ônibus está lotado, pego o táxi até o metrô: 12 reais até a estação. Com mais 3 reais, pego o metrô e corto todo o congestionamento, e ainda ajuda a tornar as ruas menos congestionadas. Em 4 estações, chego à escola.

Cada caso, evidentemente, é um caso. O fato é: temos carros, temos ônibus, podemos andar a pé, temos metrôs, há quem use bicicleta. Com tantos recursos à disposição, alguns bem razoáveis a depender do horário, ainda há quem use APENAS o carro. Exclusivamente o carro. SEMPRE.

E é nesta parte que alguém vai dizer “pra você é fácil falar! Eu moro na Zona Oeste e trabalho na Zona Leste! De transporte público minha vida seria uma merda!”. Se você pensou em usar este argumento, simplesmente pare e leia tudo novamente. Eu não estou dizendo que carro é proibido, mau e feio, não estou dizendo que carros são o demônio. Eduardo Jorge também não disse isso em momento algum. Se sua situação pede um carro, use-o.

[Lucas, o psicólogo, chega a ser mais duro sobre isso. Em sua palestra, ele disse que não faz o menor sentido morar tão longe do trabalho. Sugere que, se for seu caso, mude de casa, ou de trabalho. Claro, falar é fácil e nem todo mundo pode se dar a este luxo. Mas faz sentido considerar isso. Sua qualidade de vida aumentará substancialmente, se você conseguir morar perto do trabalho. A diferença será percebida em seu corpo e sua mente]

Pois voltemos aos 20 centímetros. É o tamanho de nossas mãos espalmadas. Olhe pra sua mão. Abra-a. Vislumbre a distância do mindinho ao polegar.

Em recente projeto informado pela prefeitura de São Paulo, Haddad anunciou que irá transformar o canteiro central da Avenida Paulista numa ciclovia permanente. Exatamente: aquele canteiro inútil, ele será um pouco mais elevado e será uma ciclovia permanente. Além disso, passará a fibra ótica por baixo da avenida, retirando da Alameda Santos aquele aspecto horroroso de varal de quinta categoria. Sim, porque até os de Nápoles são mais charmosos.

Esta nova ciclovia vai tomar algum pedaço do trajeto dos carros? Sim. VINTE CENTÍMETROS DE CADA LADO. Isso mesmo, a extensão de sua mão espalmada.

Desespero, agonia: Haddad quer destruir São Paulo. Os donos de carros estão sendo oprimidos, coitadinhos. Vi de tudo subir em meu feed de notícias, hoje, desde reclamações mais moderadas até as completamente loucas: matem Haddad. Odiei o projeto. Ele vai acabar com a Paulista. Haddad quer oprimir os donos de carros [risos].

Meus caros, ninguém precisa oprimir donos de carros. Eles fazem isso uns com os outros, mutuamente, sempre que agem de maneira louca.

É claro, toda essa reclamação não é pelos vinte centímetros. Só mesmo muita má vontade e ódio a priori pra achar que vinte centímetros a menos de cada lado irá piorar ainda mais o tráfego da Avenida Paulista. Aliás, é ódio a priori que parece funcionar contra Haddad e suas ideias: ele é do PT, odeiem-no. Queria eu que Kassab ou qualquer outro prefeito do PSDB tivesse feito isso que Haddad agora ousa fazer. Aquele canteiro ridículo no meio da Paulista, um espaço inutilizado, se converterá em nova opção de trajeto veicular. Eu acho é ótimo.

A castração dos 20 centímetros do espaço para carros, sendo tomada como uma castração simbólica dos pintos carrocráticos, reflete apenas a má vontade diante de uma coisa que não muda o já existente: há um canteiro central largo e inútil na Avenida Paulista.

O que piora o tráfego da Paulista não são estes 20 centímetros a menos de cada lado. São NOVOS CARROS. O que piora o tráfego da Paulista é gente sem noção que anda de carro por ali, sendo que poderia caminhar, pegar o metrô [a linha verde é ótima]. Ou passar a usar a ciclovia a ser inaugurada.

Pausa. Novo exemplo, pra ficar bem ilustradinho: uma das pessoas que estuda na mesma escola de inglês que eu, mora ao lado da estação Brigadeiro. Nossa escola fica pertinho da estação Consolação. Esta pessoa tem a minha idade. E vai de carro. DE CARRO. Ela poderia ir a pé, ela poderia ir de metrô, mas não, ela vai de carro. Não, ela não é aleijada. Ela é viciada. Em carro. Ela é louca. E esnobe. Um dia, perguntei a ela: "mas por que você vem de carro?". Ela respondeu: "porque eu posso".

Porque eu posso. Então tá, né? Só existe a senhora no mundo. Maluca.

O argumento de que São Paulo não é uma cidade europeia para ter tantas ciclovias procede de algum modo. De fato, São Paulo não é Europa, parem de compará-la a Londres, isso ofende Londres. Ela foi feita para copiar Chicago e sua carrolândia. O relevo de altos e baixos não ajuda a quem quer andar a pé ou de bicicleta. Mas você não precisa andar de bicicleta por toda a cidade, ora!

Mas a principal diferença entre Sampa e as cidades europeias não está no relevo. Está na mentalidade. As Américas em geral, do norte ao sul, consideram o carro um símbolo de status e de poder. Europeus são diferentes, neste ponto. Europeus andam, e como andam! Mesmo com o metrô maravilhoso deles. Eles andam. A imagem de gente de 70 anos, magra e definida, andando de bicicleta, é banal em várias cidades europeias.

Desde que vim morar em Sampa, há quase dez anos, só ouço reclamações sobre o trânsito, dos próprios paulistas natos. Alternativas estão sendo dadas. A minha parte eu fiz: podendo ter carro, não o tenho. Não faz sentido em minha vida, não faz sentido em meus trajetos, se preciso de um, pego um táxi. Gasto menos do que gastaria se tivesse carro. Você precisa ter um? Então tenha. Mas reveja seus hábitos, verifique se você faz alguma coisa parecida com as que descrevi neste post enorme. A Europa, que tantos admiram, precisa primeiro ser trazida para dentro de você. Se você fizer isso, talvez os 20 centímetros saiam não apenas da Avenida Paulista. Sairão, também, da sua cintura americana carrocrática.

Alexey Dodsworth Magnavita