quinta-feira, 10 de abril de 2014

A Humana Barbárie.

Eu não sei se sou um pacifista. Na verdade eu nunca me identifiquei como tal.

Mas nesses últimos dias, tenho sido conduzido a reflexões poderosas acerca da natureza da guerra, dos homens e do que é ser humano em geral. Tudo por causa da minha leitura de "Cartas no Front", talvez o livro mais emocionante que já tenha lido em minha vida. Nunca cheguei tão perto de derramar lágrimas em uma leitura como foi nesses últimos três dias (manly tears, é claro). Sério, acho que todo mundo deveria ler esse livro.

O que mais me emocionou e cativou em "Cartas do Front" foi que ele trouxe o lado humano da guerra. Para além de ideologias, motivações escusas, discursos políticos e ambições de  poderosos, temos os relatos de homens e mulheres longe de suas famílias, de seus amigos, longe de suas vidas, levados para o horror, a barbárie, toda a completamente desumanidade, para experiências que mudarão sua vida e o moldarão para o bem e o mal. 

Cada indivíduo é único, em sua singularidade e modos de enxergar o mundo e a realidade à sua volta. Esse é um dos maiores trunfos do livro: os diferentes pontos de vista muitas vezes refletindo os mesmos medos, desejos, anseios, sentimentos. Estamos acostumados a ver os grandes conflitos mundiais sob a ótica dos vitoriosos, mas através desse livro aprendemos que um nazista não é menos humano do que um americano. Que nem todo iraquiano é um terrorista, que se autodenominar cristão não lhe dá o direito de julgar um estrangeiro, de se sentir melhor do que o "inimigo". É uma experiência para abrir os olhos frente à muitas coisas da vida.

Passam-se as guerras, mudam-se os cenários, mas o homem continua a ser o homem. Alguns encontram sua fé, outros se reduzem ao niilismo, mas o homem - a despeito dos riscos de uma progressiva perda de humanidade, dos quais muitos são acometidos - continua a ser homem.

Uma das coisas mais lindas e emocionantes que eu li nele foi o modo como indivíduos que foram inimigos ferrenhos durante esses conflitos acabaram encontrando uma paz entre si mesmos e profundas amizades que se estendem por anos. Quando o autor, Andrew Carroll, visita Saravejo e ouve a história da morte do pai de seu guia, afirma contundentemente "Meu Deus, você deve odiar os sérvios". Ao que seu guia, Amir, responde:

"Não! Não e não. Já houve ódio demais. estou cheio de tudo isso. Minha namorada é sérvia. Muitos sérvios em Saravejo e em toda a Bósnia sofreram(...). Uma hora isso precisa acabar. Já houve o bastante. Tem que acabar". 

E quando Andrew, marcado por aquela profunda demonstração de compaixão, pergunta a Amir como ele poderia tê-la diante de tantos horrores que teve de encarar, a resposta é: "Somente quem passou por isso pode realmente entender como é ruim".

Outras passagens reforçam esses atos de reconciliação: o memorial das vítimas em Stalingrado, na Rússia, executa canções de Schumann (um compositor alemão) como um aceno para os alemães que também perderam milhares de seus homens nessa batalha; um piloto americano mantém contato com um piloto japonês mesmo sessenta anos após o ataque de Pearl Harbor; o filho de um outro piloto americano casa-se com a filha de um soldado japonês; um capitão austríaco mantém uma amizade de mais de quarenta anos com o capitão americano que tão bem cuidou e tratou dele após prendê-lo, escrevendo ainda uma carta de condolências à viúva de seu captor e amigo quando este morre. 

Quem pode entender esses tão estranhos e formidáveis laços, que surpassam toda e qualquer chance de ódio? Quem pode entender a mente de um homem que sobrevive à guerra, mas carrega feridas na alma que a muito custo serão tratadas? O cinema e a literatura estão cheios de histórias que romanceiam a guerra, de outras que tratam desses combatentes traumatizados, mas o diferencial deste livro é trazer a tona o sentimento genuíno que perpassa gerações e chega até nós. Somente quem esteve no campo de batalha pode nos dar a verdadeira ideia daquilo que enfrentaram. De encarar a morte com seus olhos. De sofrer nas mãos de inimigos bárbaros, mas também de receber ajuda da onde menos se espera, quebrando paradigmas, preconceitos. Acima de patriotismos, bandeiras e crenças, um inegável senso de respeito, confiança e lealdade, laços indefectíveis que se perpetuam ao longo dos anos, junto com as memórias boas e ruins daqueles que lutaram ao seu lado ou contra você. É impossível entender essas camaradagens. É impossível entender a guerra ou que os motiva, o que as faz serem tão destrutivas (mesmo quando seu objetivo é a paz), ou o que a faz produzir frutos tão inesperados. 

“Os veteranos que ofereceram cartas tão reveladoras esperavam que elas pudessem ter um valor catártico para homens e mulheres que servem hoje nas Forças Armadas. Ninguém pode entender verdadeiramente a vida militar – as constantes pressões, a separação dos entes queridos, tanto a excitação quanto o terror de seguir para o combate, o choque devastador de perder um companheiro – como aqueles que já passaram por isso. Os mais antigos veteranos simpatizam profundamente com a atual geração de soldados e querem que saibam que há algum conforto em perceber que outros também suportaram as mesmas dificuldades."

O verdadeiro sentido da guerra é expresso em pungentes passagens como essa:

"Embora a maioria das pessoas acredite saber o que é a guerra, será que sabe mesmo? – estando tão distante das frentes de batalha, será possível saber?
Só se sabe o que é a guerra quando se veem os aviões em formação no começo da manhã, voando em direção aos alvos... e se vê esta mesma formação voltando à noite. Mas o número já não é mais o mesmo! Doze partiram, nove voltaram. Fica-se ali, parado, olhando para o alto, observando-se afastarem-se, na direção do horizonte, e então desaparecer. O que de fato aconteceu? Aqueles que mergulharam em chamas... terão morrido como nos filmes? Creio que não. Não com um sorriso nos lábios e um brilho alegre nos olhos, mas talvez com a terrível e dolorosa consciência de que tudo chegava ao fim! É preciso ver a leva de feridos voltando da frente de batalha... acima de tudo, ver a luz se apagar nos olhos desses homens. Jovens tremendo devido à exaustão nervosa e chorando como bebês. São, ou foram, homens fortes, que não tiveram ou que jamais terão a chance de viver uma vida normal... As pessoas podem acreditar que sabem como é a guerra. Esse conhecimento é ilusório. Tenho um corpo despedaçado pela guerra, tomado de pavor até o fundo da alma. Quando estava nos EUA, a guerra era distante, irreal. Eu lia, via as fotos, mas agora eu sei."

Eu comecei esse texto dizendo que não sabia dizer se era um pacifista. Mas termino-o dizendo - e isso com base em tudo que extraí desse emocionante e catártico livro, dos seus incontáveis relatos que variam do mais leve humor ao mais sombrio desespero - que talvez o seja. Ninguém pode dizer o que esses homens e mulheres passaram, sejam soldados ou civis. Por vezes vejo em alguns dos relatos essas pessoas desejam que as gerações futuras encontrem a paz e não precisem mais guerrear  por motivo nenhum. O que diriam de nós se vissem o que nos tornamos? Que não cumprimos suas expectativas, tornando-nos cada vez mais mesquinhos, ignorantes, arrogantes e superficiais? Que estamos perdendo quaisquer valores que um dia nos foram passados, convertendo-nos em seres amorais e gananciosos? Creio que se mais pessoas lessem esse livro e se dessem conta do impacto que ele pode causar, poderia sim haver uma mudança. Afinal de contas, "Livros não mudam o mundo. Pessoas mudam o mundo. Livros só mudam as pessoas".

Por fim termino com mais uma passagem da obra, que reflete o senso de esperança que foi depositado em nós, o chamado que devemos atender.

"Chegaste a um mundo repleto de imensos problemas. Com inúmeros tormentos e condições deploráveis. Numa época em que graves e grandiosas questões dominam a mente humana e a guerra, a terrível guerra, enche as nações de desolação e pesar. Esse, no entanto, é o nosso bom e velho mundo. Há tanta grandiosidade e beleza ao nosso redor e em toda parte da natureza. Espero sinceramente que, à medida que tua pequena vida se expanda, sejas capaz de abraçar e reter, com extraordinário vigor, uma parcela dessa beleza, desse prazer e dessa felicidade junto de ti. E desejo que vivas para testemunhar os problemas que nos atormentam assentados sobre princípios de justiça e correção. E os homens aprenderão a não mais guerrear".

quarta-feira, 19 de março de 2014

O dom da criação.

Eu sempre gosto de tratar das minhas temáticas partindo de minhas próprias experiências. Como um verdadeiro "empirista", vejo nisso uma chance de trazer uma familiaridade, uma identificação maior ao leitor. Sei que possuo algumas "peculiaridades" (pra não dizer "excentricidades" mesmo) mas busco não deixar o leitor alheio ao tema.

Encerrando minha trilogia de textos dessa noite, quero falar de algo que tem se tornado uma das coisas mais importantes da minha vida: escrever. Bom, lá nos primórdios do blog eu comentei como livros como ASOIAF e o apoio de meus professores de redação foram fundamentais para eu começar a escrever meu livro, o qual vocês conheceram um pouco em posts mais recentes. Mas não vim aqui para falar de "O Destruidor de Mundos". Vim falar de como quero ser um engenheiro e um escritor ao mesmo tempo.

É engraçado como há cerca de um ano, um ano e meio atrás, eu não via esse negócio de escrever como algo sério. Era um hobby, uma ótima forma de passar o tempo, mas uma profissão? Um meio de vida? Não me via dessa forma. Afinal de contas sempre alimentei o sonho de ser engenheiro, desde uma idade em que sequer sabia o que era isso, mas já estava ali, fazendo cidades com lego, desenhando mapas e ônibus.

Só que agora tudo é diferente. Eu não digo que estou em uma encruzilhada onde tenho de escolher entre um e outro, porque como disse quero ser os dois. Mas a verdade é que amo o que faço. Quero que meus livros façam sucesso - tanto crítico quanto de vendas -, e todo esse feedback gerado pela publicação dos dois primeiros capítulos me animou. Mas aí, como um bom cara contraditório que sou, vem a vozinha do bom senso pra me dizer: "Calma aí, cara. Nada é certo. Não tome decisões precipitadas".

Decidi que só sairei do curso de Engenharia Civil se me decepcionar BASTANTE com ele, ver que não é o que eu quero e/ou o negócio de ser escritor tomar proporções alarmantes e se firmar como aquilo que quero pra minha vida. Nenhuma das coisas ainda aconteceu, então me sinto seguro em continuar o curso - e escrever. Mas como preciso estudar pra caramba, sei que preciso deixar o livro um pouco de lado. Num mundo perfeito eu conseguiria equilibrar as duas coisas, mas esse mundo não existe e o bom-senso me chama. Droga de realidade.

A questão é: há um ano atrás eu sequer cogitava a possibilidade de desistir de Civil. O que houve neste meio tempo? A resposta é: muita coisa.

Hoje, numa daquelas reflexões na hora do banho que eu sei que todo mundo já fez estava pensando em como tenho milhares de ideias pra livros, em como desejo transformá-las todas em livros. Passei minha tarde lendo sobre Philip K. Dick, autor de ficção científica cujos trabalhos inspiraram filmes como Blade Runner, O Vingador do Futuro e Minority Report, só pra citar alguns. Em seus 53 anos de vida ele publicou 44 livros e 121 CONTOS. Isso me surpreendeu e me pôs pra pensar: se minha mente é tão fértil assim, será a vida gentil pra me permitir transformar todas essas ideias em obras literárias?

Eu já comentei como tenho medo da morte. E numa perspectiva cristã, estou cercado de discursos escatológicos que afirmam - e com muita razão - que o mundo parece estar perto do fim. Seria estúpido fazer uma prece no estilo "pô Deus, atrasa o Apocalipse aí", mas a verdade é que mesmo que demorem mil anos pro mundo acabar - afinal de contas, como e quando isso vai acontecer só Ele sabe, nisso eu creio - a gente não sabe o dia de amanhã e nossas vidas são sopradas desta terra com a mesma rapidez de uma flor soprada ao vento. E se... eu não viver pra publicar todos os livros que tenho em mente? E se não for o que estou destinado a ser? E se a vida me orientar novos rumos?

A gente não sabe o dia de amanhã. É por isso que me sinto compelido a escrever. Mas a verdade é que mexi pouquíssima coisa no meu livro da semana passada pra cá, tanto por causa do facebook - e aí entra o contexto de "Fútil" - quanto por alguma espécie de bloqueio criativo que apetece a todo escritor ou aspirante a escritor. No que dependesse de mim queria viver mil anos, construir um legado indelével e ser aclamado como uma "grande voz da fantasia". Mas repito: a gente é menino. A vida pode fazer uma curva pra esquerda quando você tá planejando virar à direita. 

Eu sei que o dom da criação está em mim, isso não me foi dado à toa. Serve a um propósito, e é por isso que tenho buscado trabalhar com tanto carinho. Uma coisa importante que tenho de fazer é saber baixar a bola e escutar a opinião alheia, mesmo quando esta não for favorável. Tenho aprendido, graças a - vejam só - alguns grupos de facebook e amigos virtuais, bem como tantas outras ferramentas, a amadurecer enquanto escritor, a absorver positivamente as influências para suas atuais e futuras obras. 

Mas acho que no momento, a coisa mais importante a fazer é por nas mãos do Eterno todos os medos e inseguranças, todas as dúvidas que permeiam seus dois grandes sonhos. E saber escutá-Lo. 

Eu quero que o mundo veja a minha escrita. E trabalharei arduamente em favor disso.

Gnothi Seauton.

"Conhece-te a ti mesmo". De certa forma, é o que eu tenho buscado fazer desde o ano passado. Na lista de "coisas que eu conversei com Ricardson", essa brevemente veio à tona. Fazendo uma análise em retrospecto vejo que sei mais de mim do que sabia há um, dois anos atrás. No Ensino Médio, isso nunca passou pela minha cabeça - compreender minhas nuances, minhas virtudes, meus defeitos. Aproveitar meu senso aguçado de observação, a minha mente extremamente fértil, a minha história de vida, em favor de mim mesmo. Mas agora faço, e é engraçado, porque pareço ainda longe de me entender como um ser completo.

Como um amigo meu me disse: " a gente é menino". Uma frase simples, mas que revela uma profundidade surpreendente. Me vejo, nestes pouco mais de 18 anos, com tantas ambições, sonhos, planos. Eu nunca me vi como alguém vivido, repleto de experiências marcantes - pelo menos não num sentido físico -, mas ontem Rica me disse algo que me marcou: como ele estava impressionado por minha rica vida. Puxa, eu não esperava isso. Mas considerando o quanto sou bom em me diminuir, não é de surpreender que as pessoas me vejam com outros olhos, não?

Bom, na verdade é. Vejo que se trata de algo que vai perdurar por muito tempo em minha vida, talvez ao longo de toda ela. Não diria que todo o meu ser, minhas experiências, meu eu gira em torno dessa visão às vezes tão diminuída de mim, mas a julgar pelo meu traço de personalidade, até pelo significado do meu nome - sim, fui atrás dessas coisas (só não vi signos porque não acredito em signos) - é sim um fator impactante e que revela muito da minha pessoa.

Outra coisa engraçada é que parece que eu atraio uma "aura de bullying" comigo - sendo geralmente o mais zombado dentre o círculo de amigos que frequento, onde quer que esteja. Assim tem sido na universidade, mas o modo como eu lido com isso lá é muito diferente da escola. Não me deixo abater nem nada: zombo de meus colegas, faço um baita dum humor auto-depreciativo, rio das brincadeiras que fazem. Acho que isso reflete uma maturidade em mim que não encontrava em tempos passados. A habilidade de não se deixar abalar.

E perceber que no fim, o maior obstáculo pra você é você mesmo.

Penso muito. Sério. Acho que minha mente funciona duas vezes mais do que a das outras pessoas, não tem cabimento. Crio situações irreais na minha cabeça, invento conversas, penso em coisas que poderiam ter acontecido mas não aconteceram, me distraio com uma facilidade enorme. Sou tremendamente criativo, e claro que isso é uma coisa boa - ainda mais para alguém apaixonado pelo ofício da escrita. Mas o fato de pensar em tantas coisas absurdas já me fez passar por algumas situações constrangedoras, como ficar alguns dias sem falar com a ex por ela não ter te respondido - e aí entra a questão de falta de iniciativa (afinal de contas, só ela tinha de vir falar comigo?) e orgulho (não, eu não vou puxar conversa; ela deve fazer isso).

Às vezes sinto que exagero demais minhas problemáticas. Como se o que importasse no mundo fosse resolver apenas meus conflitos internos, nada mais. E sinto que isso é de certa forma tão mesquinho e egoísta que chega a ser repulsivo. Falei no post anterior da futilidade que ronda a minha vida, como luto contra ela - ou devia lutar. E comentei como era tão parte de mim quanto os demais defeitos e virtudes. Eu não me imaginava fazendo esse post, mas as palavras gregas me vieram à cabeça e cá estou eu. Porque este blog foi criado para que pudesse expressar acerca de quem sou e do que penso. E me sinto livre pra fazer isso sem um peso na consciência, sem temer estar sendo expositivo demais acerca da minha vida. 

Tempos atrás uma amiga minha me elogiou pela sensibilidade que eu tinha em perceber as coisas à minha volta e no meu modo de ver o mundo, lamentando-se que pouquíssimas pessoas no mundo fossem assim. Fiquei encantado com isso, especialmente porque nós dois temos muitos pontos em comum. E me faz ver que não estou sozinho. Eu não encaro essa "sensibilidade" como algo ruim, de jeito nenhum (e se você, babaca, encara como algo "afeminado", o problema é seu). É uma das melhores coisas que descobri sobre mim. E dia após dia, nestes inesperados caminhos da vida, conheço mais de mim mesmo e sei que muitos se sentem isso. Sou menino. Tenho muito a viver, se Deus quiser. E muito a oferecer a este mundo.

terça-feira, 18 de março de 2014

Fútil.

Ontem fui conversar com um amigo da família, Ricardson, que é psicólogo. Semana passada já tinha ido ter um encontro com ele, discutir acerca de todas as coisas pelo qual passei nesse semestre, as dificuldades que encarei, os erros que cometi. Por isso quando voltei lá ontem, me perguntei: "já comentei tudo o que tinha pra comentar. Do que vou falar agora?". Surpreendentemente, descobri que tinha muito do que falar.

Tenho passado muito tempo na internet - mais especificamente, no facebook - e isso não é bom. Até porque esse foi um dos principais fatores que contribuíram pro meu desempenho abaixo do medíocre nesse primeiro período e me levou a perder em mais da metade das matérias, praticamente atrasando meu curso em um semestre. Eu não consegui lidar com o vício depois de um ano me afundando em ócio até as aulas na UFS começarem e isso trouxe sérias consequências. Prometi a mim mesmo que mudaria isso nas férias, mas não é o que vem acontecendo.

Eu tinha acertado com meus pais que usaria o computador somente em um turno do dia, mas afora em alguns dias em que as circunstâncias me levaram a usá-lo em tempo reduzido não consegui sequer cumprir esse "acordo". Às vezes é cansativo discutir com eles por causa do tempo que estou aqui, mas o que me dá raiva é saber que estão certos. Não por causa deles, mas por causa de mim.

Porque às vezes sou fútil feito a desgraça.

Porque eu sou (e)ternamente contraditório. Mas cada vez vejo que não há nada de terno nisso. Não em viver nessa dualidade, mas por alimentar o lado que não deveria ser alimentado. Por negar a ouvir aquela vozinha do bom-senso que lhe alerta dia após dia de que a vida não é só esse computador, de que há algo lá fora - mesmo nesta maravilhosamente insossa Itapetinga. Hoje minha assinatura do Office expirou e eu não posso mais escrever meu livro; só no caderno agora. Seria um sinal divino pra fazer algo que não seja estar nesse notebook? Nem duvido, viu.

Eu odeio toda essa superficialidade que confronta a minha hábil percepção das coisas do mundo, do modo como analiso e entendo a realidade à minha volta. Como pode alguém ser tão profundo e banal ao mesmo tempo? O cara que se dispõe a essas análises aqui é o mesmo que sente vontade em pegar a porcaria de celular que tem e jogar na parede, pisá-lo e destruí-lo. Mas que não pode fazer isso porque sabe que os pais no momento não tem nenhuma condição de dar um melhor.

Eu me odeio por ser um cara geralmente tão tranquilo e conseguir perder a cabeça por coisas tão idiotas. Dentro de mim fumega um ser que às vezes é muito inconstante, em uma eterna luta para se sobrepor à superficialidade e viver a vida sem se deixar incomodar por coisas tão efêmeras. Não é a vida mais do que isso? "Não é a vida mais do que o mantimento, o corpo mais do que o vestuário"? Então porque se deixar dominar por tamanha futilidade? Que se estende desde o desejo de ter um celular melhor tanto porque o seu está com problemas ou porque se sentiu alienado tecnologicamente diante dos colegas de universidade e seus smartphones? 

Há um orgulho latente dentro de mim, um orgulho do que pouquíssimos tem (ou tinham) conhecimento. Há um tanto de inveja. Um bocado de baixa auto-estima, sensação de inferioridade, indisposição, preguiça. Futilidade. Há uma miríade de defeitos, mas isso me torna mais digno de pena do que outras pessoas? Cada ser humano é único, em suas qualidades e defeitos. Sei que de alguns destes jamais me livrarei, são tão parte de mim quanto as virtudes que busco (ou buscam) ressaltar. Mas eu sei em quem tenho crido. E sei que conversando com as pessoas certas, usando os recursos, posso ser diferente. Ser mais do que tudo isso.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

"Dead or alive, you're coming with me!"



"Missão dada (mesmo no exterior) é missão cumprida." AdoroCinema


Remakes geralmente são vistos com maus olhos, ainda mais se estivermos falando de um clássico, cultuado e adorado por muitos. Robocop é um desses filmes, uma obra icônica do cinema com sua hiper-violência, humor negro e sátira social. Bom, eu nunca o assisti (só assisti uma de suas sequências, que eu não lembro qual), então não posso dizer se é melhor ou não do que o remake de Padilha. Mas falando dessa nova versão isoladamente, digo que é um filme ótimo - e que não merece críticas tão injustas.

Vamos analisar os maiores detratores dele - os críticos americanos e os fã xiitas. No RottenTomatoes o filme está oscilando entre 49 e 50%. Aí você para e se pergunta: "meu Deus, por quê?". E a resposta é simples: eles não se cansam de ficar comparando o novo com o original de 1987. "Ah, não é tão violento por causa da classificação PG-13""Ah, o uniforme é preto e não cinza""Ah, ele não tem uma mão verdadeira""Ah, ele é MAIS ÁGIL do que o antigo Robocop".

Fãs xiitas, vão se lascar, ok?

A verdade é que o maior dilema de um remake está entre encontrar o equilíbrio entre não ser uma fotocópia do original e não ser uma versão nada a ver. E o Robocop de Padilha consegue isso. Adaptado a uma nova realidade, com novas temáticas e personagens (afora o protagonista, nenhum outro existe - nem mesmo com o mesmo nome - no original do holandês Paul Vernhoeven), ele é sim um filme diferente - mas as citações, elementos e singelas homenagens (como a quote que dá título a esse texto) podem sim agradar a muita gente que prefere o antigo.

E por mais que esta nova versão seja adaptada às massas como um legítimo blockbuster, possui o mérito de ser ousada, inteligente e crítica- tudo de uma forma sutil, é claro. O roteiro, assinado por Joshua Zetmer e com contribuições de Padilha, além de tratar em primeiro plano a relação homem/máquina, trás ainda ótimas críticas à política imperialista e hipócrita norte-americana, bem como a manipulação da mídia. 

Isso é evidente na sensacional abertura do filme, onde somos apresentados a Pat Novak (um Samuel L. Jackson inspirado como nunca), um apresentador direitista e que é a favor do uso das máquinas em solo americano, já que os EUA são o único país do mundo que proíbe a atuação militar delas. O que é irônico, porque o país é mostrado usando em Teerã para promover a "paz", mas o que se vê é imposição da ideologia yankee e subjugação de um outro povo, o que leva a um ataque suicida de homens-bombas iranianos que é rapidamente cortada da transmissão do programa de Novak, mostrando como ele é apto a manipular os fatos em favor do que defende. Aliás, muitos apontaram e eu retifico: Novak me lembra Datena, Marcelo Santana e muito desses apresentadores brasileiros que vemos nesses programas "verte-sangue" por aí, como Cidade Alerta, Balanço Geral e outros. Programas esses que me dão nojo, e que utilizam estratégias similares às mostradas no filme. Seria Padilha mandando uma indireta? Pode ser, mas ao que parece esse tipo de apresentador não é restrito ao nosso país. E mesmo se tratando de um filme passado em 2028, ele mostra um futuro bastante real e plausível, que encontra ecos nos presentes dias, onde vemos o EUA chutando as portas das casas árabes e de tantas outras nações para enfiar a sua "democracia" e "American Way of Life".

A outra temática do filme, a dicotomia homem-máquina, é tratada com bastante ênfase ao longo da produção. Vemos um Alex Murphy (um Joel Kinnaman que, apesar de ser um ator desconhecido, me agradou e convenceu bastante no papel principal) que é cada vez reduzido a uma máquina sem sentimentos, apenas para ser o produto perfeito da corporação OmniCorp (não se esqueça de notar o fato da fábrica da corporação estar localizada na China, assim como as grandes empresas fazem hoje por razões de mão-de-obra barata). Entretanto ao longo do filme o inevitável acaba acontecendo: o lado humano prevalece, principalmente graças à família de Murphy, um elemento ausente no original. A própria temática desse conflito interno do protagonista é maior explorada do que no de Vernhoeven.

Se por um lado Kinnaman pode ser estranho ao espectador por se tratar de um ator pouco conhecido, o elenco coadjuvante não podia ser melhor. Além da atuação épica de Samuel L. Jackson, destaco o sempre talentoso Gary Oldman no papel do Dr. Norton, responsável por criar Robocop, e Michael Keaton com suas usuais canastrice e canalhice, criando o CEO da Omnicorp que é o mais perto que temos de um vilão no filme. 

Por que digo isso? Por que vi em outra resenha uma das (poucas) falhas do filme é não criar um vilão presente o suficiente. O Raymond Sellars de Keaton é um empresário ganancioso e astuto, disso não há dúvida, mas é tão estranhamente carismático (justamente por ser tão canastrão e canalha como só Keaton pode ser) que nem mesmo quando toma atitudes "vilanescas" no clímax do filme acaba convencendo muito. Temos os policiais corruptos e o criminoso Vallon que armam a explosão que fere Murphy gravemente, o desprezível Mattox interpretado por Jackie Earle Hearley e até os drones e demais robôs pertencentes à empresa, mas não diria que eles são os grandes antagonistas. Robocop enfrenta tantos inimigos que no fim das contas nenhum deles se destaca tanto assim, a não ser Sellars.

Tecnicamente, o filme é um primor. É bom ver que Padilha mantém sua câmera trêmula e frenética vista nos dois Tropa de Elite - um sinal de que ele conseguiu aproveitar do seu estilo mesmo tendo de se submeter às regras de Hollywood, ao ponto de trazer os companheiros brasileiros Daniel Rezende pra edição e Pedro Bronfman pra trilha sonora. Esta aliás se destaca por revisitar o tema de Basil Poleudoris do primeiro filme e por canções como "Fly me to the Moon" de Frank Sinatra e "If I Had Only a Heart" do Homem de Lata d'O Mágico de Oz - canções inseridas no devido contexto. Há uma boa dose de violência, mesmo que quase nenhum sangue por causa da classificação etária. Por outro lado, temos uma cena fascinante e perturbadora que é a que mostra o quão danificado ficou Alex e o que restou de seu corpo após a explosão.

Há algumas cenas em particular que me chamaram a atenção, além da abertura em Teerão exibida pelo programa de Novak: uma singela cena onde vemos um homem com braços mecânicos executar um solo de violão (que serve de introdução para a construção do conflito homem/máquina); a cena onde Robocop vê o filho pela primeira vez após a explosão, já transformado em máquina; e é claro, a cena do depósito, onde temos o policial enfrentado Mattox e seus robôs ao som de "Hocus Pocus" do Focus (que você pode ouvir lá em cima no vídeo). Como um fã de rock progressivo, fico emocionado.

Então é isso. Sei que a resenha ficou grande pra caramba, mas realmente eu gostei muito do filme e não há como negar que estou orgulhoso de ver Padilha entrando com o pé direito e muita ousadia em Hollywood. Os gringos podem dizer que estamos superestimando o filme por ser dirigido por um brasileiro, mas quer saber? Dane-se se eles acham isso. Ou os 50% do RottenTomatoes. Robocop é um dos melhores reboots dos últimos tempos, e mesmo que as bilheterias sejam modestas já é certeza de que temos uma nova franquia aí. E que mantenha o mesmo padrão de qualidade e crítica!

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Scorcese wannabe.

É muito difícil eu dizer isso de um filme, mas desta vez é realmente preciso: "Trapaça" é superestimado. É inegável que David O. Russell é um ótimo diretor, assim como é louvável sua "renascença", mas seu mais recente filme não é apenas fraco se comparado com seus concorrentes na corrida de prêmios que culmina no Oscar, como também em relação aos anteriores do diretor, "O Vencedor" e "O Lado Bom da Vida".

Aliás, tanto "O Lado Bom..." quanto "Trapaça" tem o feito de terem sido indicados nas quatro categorias de indicação ao Oscar. Mas analisando agora, será realmente merecido? Afinal de contas, são filmes que funcionam melhor pelos conjuntos, não por uma atuação aqui ou acolá. No caso de "Trapaça", esse caso é ainda mais explícito. Bale faz uma boa atuação como Rosenfield, e é impossível não se impressionar com mais uma metamorfose física desse cara. Mas ser indicado ao prêmio de Melhor Ator? Acho que não. O mesmo vale pra Cooper e Adams (esta está mais linda do que nunca, é realmente o papel mais sexy de sua carreira): competentes, mas não excepcionais. Lawrence se destaca no seu papel de uma esposa bipolar e instável (além de linda como sempre), rendendo o maior número de risadas (escassas, aliás), mas definitivamente não é a estrela do show. Jeremy Renner, Louis C.K. e Robert DeNiro - numa participação especial - também têm destaque, mostrando como esse é um filme coletivo, onde o todo vale mais do que a soma de suas partes.

Se por um lado o elenco é o grande destaque do filme, por outro a história não empolga. O filme ora se arrasta, ora avança dignamente, mas à exceção de momentos particulares (como a cena do jantar com os mafiosos e o final, um plot twist digno) não é 100% envolvente. O maior mérito do roteiro é levar à máxima o preceito diversas vezes abordado aqui, "as pessoas veem o que querem ver", ao ponto do próprio espectador ser enganado pelos golpistas no final. Outro ponto positivo é a trilha sonora bastante jazzística de Danny Elfman, que também conta com diversos sucessos do fim dos anos 70.

Mas ainda assim, não há como notar que ao longo do filme Russell tá tentando emular um diretor em especial. Seja através da trilha sonora rica, da ambientação, dos costumes e diversos outros elementos nota-se diversas referências ao grande Martin Scorcese. O próprio personagem de DeNiro, um matador a serviço da máfia, evoca o tipo "chefão do crime" que o marcou em The Godfather pt. II e nos filmes de Scorcese. 

Como outros já apontaram por aí, "Trapaça" parece uma versão mais comportada, divertida e glamourosa dos filmes do consagrado diretor. Contudo, não deixa de ser inferior. Basta comparar com "The Wolf of Wall Street", também lançado esse ano. Tendo assistido ambos os filmes, posso afirmar com propriedade: "The Wolf" é infinitamente superior. Mesmo sendo consideravelmente mais longo, a sensação que tive foi a de que o tempo passou mais rápido o assistindo do que com "Trapaça". 

No fim, este é um filme que se resume a algumas poucas palavras: "hype", "superestimado" e "caricato". É sempre mais do que parece ser, e no entanto é menos do que foi destinado a ser. Em um ano de concorrentes fortes no Oscar, esta é uma obra que, embora não sem suas (muitas) qualidades, não deixa de passar a impressão de que poderia ter sido melhor e mais enxuta.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Interferência.

A questão, creio eu, é que não dá pra viver cada um "em seu quadrado". A partir do momento em que nós, enquanto seres sociais, passamos a viver em conjunto com outros indivíduos, exercemos influência sobre o nosso meio, em diferentes graus, é claro, através de nossas crenças, valores, opiniões, atitudes e muito mais. Podemos até esconder algumas de nossas características, mas de uma forma ou de outra temos um peso nesse sistema social. Você é o que você faz de sua vida.

Agora, porque eu tenho de acreditar ou aceitar que tudo nesse mundo se resume a extremos? Que só existe as opiniões A e B, nunca uma C? Eu já disse antes, eu sou a Suíça. Já afirmei várias vezes que tento encontrar os meios-termos para tudo. É assim que sou, pelo menos desde o ano passado. Não necessariamente isso implica que estarei sempre certo (ninguém nunca está), mas em um mundo onde a verdade é um conceito cada vez mais relativo em favor de "variáveis" que são no fundo meros pensamentos de conveniência, tento observar as coisas por um ângulo que me faça analisar os extremos.

Eu busco não ser um crente fanático e/ou legalista, mas daí a você achar que eu aceito passivamente tudo o que se passa no mundo já é um grande erro, meu amigo.

A fé cristã exige a ação. Jesus não disse "recebeis minha salvação e sentais confortavelmente em suas cadeiras", mas sim "ide e pregai o evangelho a toda criatura". Esta não é a fé para ser experimentada apenas entre quatro paredes meu amigo, longe do conhecimento do resto do mundo. É fé para ser vivida no falar, no agir, no olhar, no pensar, fé que nos inunda, que transborda e alcança os outros, que muda a vida de quem está ao nosso redor. Que resulta numa interferência gloriosa.

Nem preciso dizer que não é isso que estamos fazendo com ela.

Uma vez cristãos, devíamos PERMITIR o amor do Eterno em nós. Amor esse que nos levaria a amar sem distinção, a fazer o bem sem olhar a quem. Veja bem, não estou falando no amor eros, deste de um casal. É no sentido mais genuíno da palavra, é "colocar as necessidades do outros à frente das suas", como diria Olaf, o boneco de neve de Frozen. Mas não é isso que acontece. Pelo contrário, "amor cristão" se tornou uma referência irônica ao fanatismo, à intolerância. Porque é por isso que nós temos sido conhecidos hoje em dia. What a shame.

(Obs.: apenas ressaltando que "tolerância não significa aceitar o que se tolera", já disse Gandhi.)

Eu sempre fui desses que acredita e segue a máxima expressa na letra da canção "Seen and Not Heard" do Petra: "Actions speak a little louder than words" (Ações falam mais alto do que palavras). Ou seja, aquilo que você faz fala mais alto do que o que você fala. Mas será que minhas atitudes comprovam os meus valores, o meu ideal de buscar meios-termos, ser respeitoso com todos? Muitas vezes não, e mesmo essa consciência ainda não é suficiente para que eu mude em prol disso. 

É necessária essa mudança, não só a mim, mas a milhões de cristãos que estão MANCHANDO a imagem do evangelho dia após dia. Dedicando tantos esforços a um pecado específico quando ignoram - e pior ainda, vivem - tantos outros no seu cotidiano. Que balança é essa? Esta renegação ao Pai implica em trágicas consequências, mas nunca é tarde demais. Metanoia. Mudança de sentido.

Ora vem, Senhor Jesus. Porque o negócio tá feio.